A intuição só sussurra
Quando um avião ou um helicóptero some do radar por longo período, imagina-se o pior. Apesar das rezas coletivas e da fé no impossível, a realidade costuma confirmar novas vítimas e derramar luto e condolências ao redor. É raro resistir a uma queda ou a uma colisão.
Acidentes aéreos vêm esvaziando os nossos palcos com perdas precoces e irreparáveis. Foram os Mamonas Assassinas, em 1996; Gabriel Diniz, em 2019; Marília Mendonça, em 2021.
As tragédias são apressadas pela necessidade de se deslocar com rapidez de uma apresentação a outra, de uma cidade a outra, para eventos no mesmo dia, e pela tentativa de dispensar a burocracia dos aeroportos.
Quem dormiu na expectativa do salvamento do cantor sertanejo Rick Sollo, 59 anos, desaparecido desde segunda-feira, viu-se consternado com a localização da aeronave pelo Corpo de Bombeiros na serra catarinense. Dos cinco ocupantes do Bell 430, não houve sobreviventes. Também morreram o palestrante mineiro Bruno Avelar, o videomaker Paulo Soares, o piloto Antônio Roberto Nóbrega de Araújo e o copiloto Leopoldo Barros Teixeira.
De acordo com informações preliminares, o helicóptero teria enfrentado mau tempo e chuvas fortes no trajeto de Porto Belo a São Joaquim, em Santa Catarina.
Rick, nome artístico de Geraldo Antônio de Carvalho, natural de Porto Nacional (TO), liderou o sertanejo romântico nas paradas de sucesso. Famoso pela parceria com Renner, vendeu mais de 10 milhões de discos em vinte e cinco anos de parceria. Entre os seus hits, o mais lembrado é Ela É Demais, lançado em 1998.
Ele ampliou o seu alcance como compositor de destaque em gravações de colegas do meio, como Página de Amigos, de Chitãozinho & Xororó; Só Dá Você na Minha Vida, de João Paulo & Daniel; Agenda Rabiscada, de Cleiton & Camargo; e Bebo pa Carai, de Gino & Geno.
Radicado nos Estados Unidos, Rick cumpria roteiro de shows na região centro-oeste do Brasil com a sua dupla. A sensação de impotência aumenta porque testemunhamos, pelas redes sociais, detalhes do embarque do músico ao lado do empresário Bruno Avelar e de sua comitiva.
Avelar, especialista em networking, responsável pelo projeto O Poder do Network e conselheiro na campanha presidencial de Augusto Cury, era o anfitrião da viagem. Rick brinca com a carona: - Você não tem que ser rico. Tem que ter amigo rico. Não havia como supor que se tratava de uma despedida. Os sorrisos, as piadas e os abraços disfarçavam o adeus.
A derradeira postagem de Paulo Soares, que documentava a viagem, resumiu-se a um registro no interior do helicóptero com a legenda: "Acho que nasci para isso".
Não emergiram palavras premonitórias. É isso que assusta. Ninguém sabe quando será a última vez, talvez apenas por dentro, sem revelar os medos mais fundos. O sexto sentido adormece, não se arrisca a declarar o impensável. A intuição só sussurra, jamais grita.

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