28 de Setembro de 2026
CARPINEJAR
Epidemia bloqueada
Já é alguma coisa. A uma semana das eleições, o governo federal assinou uma medida provisória para proibir a atividade das bets no Brasil, comparando o vício em jogos online a uma epidemia.
Antes tarde do que nunca. Ainda não é um fato líquido e certo. Por ser uma medida provisória, a regra deve ser votada e aprovada pelo Congresso Nacional para virar lei.
O setor se tornou onipresente na publicidade do país. Aparecia como patrocinador dos uniformes e transmissões de jogos. Apenas na Série A do Campeonato Brasileiro, onde 14 das 20 equipes exibem anúncios das bets, os investimentos previstos para 2026 são de R$ 1,1 bilhão. Nove clubes da elite do Brasileirão possuem contratos com as plataformas com cifra superior a R$ 50 milhões.
Não há como oferecer um desconto no mercado de ilusões, ou mitigar a potência da tentação. É quase irrefreável a compulsão para antever resultados, começando pelo próprio time.
Todo mundo anseia ser profeta e dominar o futuro. Assim como você ganha, você perde muito. E o hábito faz você perder o que não tem. Chega um momento em que não se dá conta de quanto gastou.
Quando você acerta, sua ambição é atiçada e aplica tudo o que recebe em novas transações. Quando você erra, sua culpa é ativada e busca recuperar o prejuízo com a reincidência.
Não encontro alternativa a não ser a ilegalidade. Impedimos o jogo do bicho, as máquinas caça-níqueis, e não poderíamos considerar normal arriscar o número de escanteios, de gols, de expulsões, numa infinidade de prodigiosas casualidades em uma partida.
A colheita foi a inadimplência e a morte. Afora a ansiedade, o descontrole, a taquicardia durante os placares. O azar venceu a sorte, e atingiu a parcela mais carente da população. Até mesmo o Banco Central se mostrou receoso: em 2024, o tíquete médio das transferências para casas de apostas subiu mais de 200%.
Uma pesquisa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em R$ 38,8 bilhões anuais o custo social das apostas no país, dos quais R$ 30,6 bilhões estão ligados à saúde. É óbvio que a oferta de fácil enriquecimento atrairia quem mais precisava.
Houve o registro, somente em um mês, de que cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às bets via Pix. O montante corresponde a aproximadamente 20% do valor total repassado pelo programa naquele mês. Bolsa Família se transformou em Bolsa Bet.
Entre 2018 e 2025, os atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) motivados pela patologia aumentaram em torno de 140%. Os dados apontam uma mortalidade por suicídio 15 vezes maior entre indivíduos que sofrem com o transtorno do jogo em relação à população geral.
É evidente que amargamos um adoecimento insuflado por uma paixão: o futebol.
Agora quero ver como trataremos uma abstinência coletiva súbita. O SUS disponibiliza teleatendimento, mas será suficiente para sustentar a reabilitação de milhões de pessoas? Não se emerge de uma intoxicação psicológica sem acompanhamento. Não se sai sozinho do fundo do poço, exige-se sempre uma escada.

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