sábado, 17 de novembro de 2018



17 DE NOVEMBRO DE 2018
MÁRIO CORSO

Machismo também mata machistas

Feridas podem externar uma doença interna maior. O assassinato recente do jogador de futebol Daniel Correa Freitas, em Curitiba, mostra como o subterrâneo da violência do país vem a furo facilmente. Estamos diante daquelas histórias em que ninguém tem razão e todos são culpados, sugados à tragédia pela própria estreiteza mental e moral.

Tudo começa na festa de aniversário de 18 anos de Allana Brittes. Finda a farra, o grupo estica a noite na casa da aniversariante para seguir festejando. Certa hora, vencidas pela exaustão, mãe e filha se recolhem para seus dormitórios enquanto os outros seguem o baile.

Em certo momento, Daniel se afasta do grupo. Manda uma mensagem de áudio para um amigo na qual diz que há uma coroa e uma novinha dormindo. Pergunta ao amigo o que fazer. Depois entra no quarto da dona da casa, tira uma selfie com a mulher adormecida e manda para um grupo de WhatsApp dizendo que transou com ela. O resto da história é confuso.

O que é certo é que o marido, Edison Brittes Júnior, de alguma forma, flagra a situação e bate em Daniel. Outros convivas ajudam no espancamento. Desacordado, é posto num porta-malas. Terminam de matá-lo e castrá-lo num matagal, enquanto outros limpam a cena do crime.

A patuscada combinada entre os agressores de que o jogador saíra com vida da casa se desfez. Quase todos estão presos contando diferentes versões da festa macabra.

A desmedida astronômica da punição imposta ao jogador não pode anular o fato disparador. Daniel se aproveitou de uma ocasião fortuita para bancar o macho. Isso é mais do que uma brincadeira de mau gosto. Na minha leiga opinião, consideraria crime. A circulação de uma foto íntima na internet tem consequências imprevisíveis.

Quando você precisa mostrar para seus amigos que está pegando alguém, algo está errado. Já não é a experiência amorosa e sexual que conta, mas posar para o grupo. Daniel quis ganhar pontos na sua carreira como homem. Morreu porque cruzou com um psicopata, mas também porque afirmar sua virilidade estava acima de tudo. Foi vítima indireta de seu próprio machismo.

O dono da casa já tinha outras questões com a Justiça, as outras pessoas não. São jovens comuns, arrastados para o crime por acaso. Estavam na hora errada no lugar errado. Mas o clima de violência que vivemos nos insensibiliza e torna normal o que é absurdo. Por isso tantos não conseguiram parar uma agressão covarde e agora são cúmplices de um crime que normalmente não permitiriam.

A virilidade insegura e violenta não cessa de cobrar seu preço em vidas. Eduque seu filho homem para que ele seja intolerante com ambas as ciladas: tanto a de forçar as mulheres a submissão e maus-tratos quanto a de terem que dedicar - e arriscar - sua vida a construir uma imagem de troglodita.

MÁRIO CORSO

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