
02
de abril de 2012 | N° 17027
L.
F. VERISSIMO
Bandarilheiro
Ele
tinha cara e corpo de toureiro. Ou então não de toureiro, que mata o touro. De
bandarilheiro, que o irrita. Afinal, o Millôr era só meio espanhol. O touro
dele era qualquer coisa grande ou metida a grande, qualquer coisa com chifres
que assustavam os outros, mas não ele, qualquer coisa pomposa e ridícula,
qualquer coisa prepotente.
Mas,
acima de tudo, o touro dele era a burrice. No lombo da burrice, ele espetava
suas bandarilhas coloridas, seus epigramas pontudos, suas parábolas incisivas,
suas frases marcantes, sua inteligência afiada, esquivando-se dos chifres da
besta. No fim, ele só não conseguiu driblar a coisa mais burra que existe: a
morte.
Especulação
dolorosa: o que teria passado pelo seu cérebro nestes últimos dias, preso a um
corpo inutilizado? Que memórias, que imagens ocuparam sua mente antes do fim? Ele
na sua última arena, diante do seu último touro. Arena vazia, só os dois, num
cara a cara final. Ele sem seus instrumentos: sem lápis, sem teclado, sem
defesa.
E,
na sua frente, a burrice na sua forma definitiva. A burrice total, a burrice
imune a argumento ou súplica, a burrice irreversível, a burrice triunfante. Não
adianta ele sugerir que ao menos dancem uma valsa, a burrice não tem senso de
humor.
Nem
se pode chamá-la de vingativa – ela sabe que no fim, depois das bandarilhas
coloridas e de todas as piruetas, a vitória será dela. Por mais ridicularizada
que ela seja, a vitória é sempre dela. E depois vem a burrice eterna.
No
seu sonho terminal, o touro começa sua carga. E o bandarilheiro não consegue
sair do lugar.
Bozó
e Coalhada
Cada
um tinha seu personagem do Chico Anysio favorito. Os meus eram o Bozó e o
Coalhada. O Chico era, antes de mais nada, um grande ator e cada personagem que
ele criava vinha completo, não só com trejeitos e personalidades
meticulosamente observados, mas com biografia e destino claramente
subentendidos.
Você
adivinhava toda a vida do Bozó, sonhando eternamente com o status de ser da
Globo, e do Coalhada, lembrando uma carreira no futebol que tinha pouco a ver
com a realidade. Uma dentadura falsa bastava para fazer o tipo do Bozó, mas o
Coalhada requeria um estrabismo meio desvairado que não podia ser simulado, era
recurso do grande ator.
Chega!
Chico
Anysio e Millôr, um depois do outro. Ninguém está achando graça.