quinta-feira, 24 de janeiro de 2013



24 de janeiro de 2013 | N° 17322
PAULO SANT’ANA

Minha vaguidão

É impressionante o funcionamento das engrenagens do corpo humano (e dos animais).

Venho descobrindo e estudando nos últimos dias um mecanismo corporal essencial para a vida humana: a propriocepção, palavra que não consta nos dicionários mais importantes, mas é pronunciada à larga pelo meio médico.

O equilíbrio do corpo humano em pé provém das seguintes vertentes: 1) a propriocepção, que consiste nas terminações nervosas que enviam ao cérebro (ou cerebelo?) as mensagens dos contatos do corpo com o chão ou com outros apoios ou obstáculos; 2) os labirintos das duas orelhas; 3) a visão.

Há suspeita forte de que minha propriocepção esteja avariada e, junto com meus labirintos, afetados por consecutivos tumores na orelha média que tive nos últimos 40 anos, esteja enviando mensagens erradas ao meu cerebelo, o que ocasiona a minha tontura, que já classifiquei de vaguidão, termo que criei para defini-la em mim, palavra que já começou a circular no meio médico que me atende.

O que sinto, em suma, é o seguinte: sensação de que estou muito embriagado, sem no entanto ter bebido qualquer gota de álcool.

Esta vaguidão tirou-me o prazer de viver. E até agora não consegui chegar à cura, nem perto dela.

Os médicos, em esforço admirável, têm tateado comigo. Surgem várias suspeitas para meu problema: uns dizem que o cigarro é o culpado; eu, na defesa incessante do meu vício, brinco com quem diz isso, afirmando que é próprio da medicina muitas vezes caluniar o cigarro.

Acontece que, anteontem, o cientista Jorge Gross descobriu, com a ajuda de um diapasão que colocou sobre meus braços e meus pés, que a vibração que sinto sobre meus braços, nítida, não a sinto no entanto quando é colocado sobre meus pés, o que leva à conclusão de que tenho insensibilidade pedal, o que portanto transtorna a minha propriocepção, causa muito provável da minha tontura.

É instigante a investigação médica sobre todas as doenças. Os médicos examinam os pacientes e tiram suas próprias conclusões ou compartilham com seus colegas a situação de seus clientes.

Desse consórcio de opiniões entre os médicos, muitas vezes se origina o diagnóstico, que leva à terapêutica e à cura.

No meu caso, não há um diagnóstico certeiro, ele é ainda vacilante. Embora, quando por acaso venha a ser certeiro, seja possível que traga junto a declaração de que não há cura para tal.

Outra suspeita muito robusta é de que as 32 sessões de radioterapia a que me submeti há um ano, quando tive um câncer na rinofaringe, atingiram e avariaram talvez, ainda mais, os meus labirintos.

Esses detalhes todos, somados ao meu diabetes insulinodependente, criaram-me essa complicação toda, porque se o corpo humano é este azeitado e intrincado funcionamento que referi no início, por isso mesmo se torna muito difícil de serem contornados certos males emergentes na luta pela vida.

E lá vou eu, ao sabor do destino e da eficiência dos médicos no combate à minha doença sorrateira.