terça-feira, 29 de janeiro de 2013



29 de janeiro de 2013 | N° 17327
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Walmor Chagas

Walmor Chagas é daqueles atores brasileiros que todo mundo viu atuar, em algum dos meios que frequentou, palco, tevê ou cinema. Tinha presença marcante, como os bons atores de todos os tempos: algo nele (olhar? sobrancelhas? cara grande? voz?) imantava a gente. Além disso, contava com minha simpatia por esse retiro em que viveu por, sei lá, mais de 20 anos, no meio do mato, ao mesmo tempo preservando sua imagem, já registrada na retina de todo mundo, e aliviando-se dessa coisa ostensiva que é a televisão de entretenimento no Brasil.

Aí o cara se mata, aos 82 anos. Estava com grandes limitações físicas, ao que se diz, logo ele, que foi galã e aparentemente um sujeito bem feliz com sua alma, seu corpo, sua trajetória.

Bem, fiquei com esse suicídio dentro de mim, sem doer exatamente, mas impondo uma pergunta: por quê? E outra: é justo? Com quem? E outras perguntas, de resposta menos imediata: nas mesmas condições, eu teria desejo de fazer o mesmo? Coragem de fazer o mesmo?

Um suicida que se imola aos 20 ou 30 anos em favor de uma causa coletiva comoverá por determinados motivos, de aparência nobre; um depressivo que abrevie sua existência bate de outro jeito em nós; alguém que morre no auge da vida por doença, como meu irmão Prego ou meus amigos Sérgio Jacaré Metz ou Jorge Pozzobon, todos ceifados na faixa dos 40, nos deixa para sempre perplexos, sem capacidade nem de formular uma boa pergunta; nem falemos de crianças que morrem, porque... nem falemos.

Mas um Walmor Chagas que se mata deliberadamente, aos 82, segundo dizem motivado pela vontade de não incomodar e, naturalmente, de não ser incomodado com a dependência que precisaria experimentar, todo o contrário de sua trajetória vivaz, isso é para nós, os que continuamos respirando aqui, uma notícia realmente estranha. Grandeza dele? Pequenez? Ou é o nosso tamanho que entra em causa?

Sei lá. Vindo de completar 55 anos, me imponho essas questões. Não sei concluir, mas tenho radical simpatia pela ideia de não encher o saco dos outros, caso perca capacidades imprescindíveis para a vida digna que tenho levado. Ei, Walmor, como é que é isso?