segunda-feira, 4 de maio de 2026

Brasil: lugar comum?

Gustavo Fernandes, diretor de Formação do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)

Gustavo Fernandes, diretor de Formação do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)

/IEE/Divulgação/JC

JC
JC
Gustavo Fernandes
Diretor de Formação do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)
Havia, neste país de dimensões e paciência continentais, uma ideia simples e que, por isso mesmo, funcionava: o brasileiro era mestiço. Não como eufemismo, não como consolo, mas como fato antropológico celebrado com uma gozação de si mesmo que é, convenhamos, o mais alto grau de autoestima que uma civilização pode atingir. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade, era exatamente isso: um sujeito escorregadio, contraditório, de todas as cores e de nenhuma em especial. Não era um problema a resolver. Era o retrato.
O Brasil não precisava de manual de identidade. A ausência de características estáveis ao brasileiro era, por si só, a nossa identidade.
De repente, o brasileiro descobriu que não era brasileiro. Era uma série de hipônimos identitários, cada qual com sua hashtag, seu vocabulário próprio e sua lista de opressores devidamente cadastrados. O mal fluiu do uma categoria individual para uma caracterização essencialmente coletiva. Sobre o outro.
O liberalismo clássico – aquele de Stuart Mill, aquele que Rui Barbosa tentou plantar nesta terra de coronéis com a tenacidade de quem planta orquídeas no semiárido – parte de uma premissa inegociável: o indivíduo é a unidade moral irredutível da sociedade. Não o grupo. Não a tribo. Não a comunidade afetiva de pessoas que compartilham a mesma indignação no mesmo aplicativo. O indivíduo. Com seus direitos, suas contradições, sua liberdade de errar sem precisar de assembleia para homologar a autocrítica.
O que se construiu aqui, ao longo de séculos de mistura forçada e voluntária, de violência e sincretismo, de baião e chorinho tocados na mesma praça, era exatamente isto: uma nação de indivíduos que se reconheciam como iguais precisamente porque eram diferentes. A diferença era o denominador comum. O paradoxo funcionava. E em paradoxos que funcionam, não se mexe.
Mexemos.
O regionalismo, que era tempero, virou cardápio separado. O sotaque, que era charme, virou fronteira. Chegamos ao cúmulo de ministro insultar sotaques regionais.
Pense numa tarde de jogo. Não numa arena com camarote, mas em uma dessas peladas de bairro onde se encontram, sem combinar, o católico, o ateu, o nordestino, o gaúcho, o rico de menos e o pobre demais. Ninguém ali representa comunidade nenhuma. Ninguém ocupa lugar de fala. Todos disputam a mesma bola, reclamam do mesmo árbitro inexistente e voltam para casa sem ter processado nenhum trauma coletivo. Porque eram indivíduos. E indivíduos, deixados em paz, geralmente se entendem.
A liberdade individual não é uma ideia americana. É uma ideia humana que os americanos, em dado momento, souberam escrever melhor e que o Brasil, agora, confunde com o problema quando ela é, precisamente, a solução. Não há coesão social possível sem o respeito à pessoa concreta, singular, irredutível a qualquer categoria coletiva que alguém inventou para ela num seminário de outro hemisfério.
O lugar comum brasileiro era bom. Lugar comum no sentido exato: um lugar que era de todos, porque não era exclusivamente de ninguém. Um espaço comum de respeito e abertura ao outro.
Perdemos o lugar. Perdemos o comum. Ganhamos um senso de virtude coletivo e violento para odiar o próximo.

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