quinta-feira, 5 de novembro de 2020


05 DE NOVEMBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

FÔLEGO NOS EMPREGOS 

Ao menos uma das diversas incertezas que cercam a recuperação da economia e do mercado de trabalho no país foi dissipada pelo Congresso. Após meses de procrastinação, finalmente o Legislativo derrubou ontem o veto do presidente Jair Bolsonaro à prorrogação da desoneração da folha de pagamentos a 17 setores intensivos em mão de obra que, juntos, empregam cerca de 6,5 milhões de brasileiros. Era uma medida indispensável tanto para milhares de empresas conseguirem se planejar para 2021 quanto pelas maiores garantias de preservação de boa parte dessas vagas, graças ao prolongamento do benefício até o final do próximo ano.

A manutenção de custos menores se traduz ainda em melhores condições para que essas companhias tenham mais segurança para enfrentar os desafios do exercício que se avizinha e, inclusive, levem adiante investimentos previstos. Para muitos dos setores que terão a desoneração da folha de pagamentos prorrogada, os gastos com mão de obra chegam a até 70% dos custos totais. Um peso enorme.

A crise sanitária e econômica significou um duro golpe para a atividade no país e para a saúde financeira das empresas. Mesmo que exista uma recuperação em curso, a retomada das contratações e até a preservação de muitos dos postos existentes dependem da emissão de sinais que gerem mais confiança para os empregadores. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou, na última sexta-feira, que a desocupação no país no trimestre encerrado em agosto atingiu a marca recorde de 14,4%. Especialistas repetem que as taxas podem ficar ainda maiores nos próximos meses, com o fim do auxílio emergencial de R$ 600 e um número maior de pessoas passando a procurar recolocação a partir da gradual flexibilização para que mais setores da economia retomem atividades. O retorno às taxas do período pré-pandemia, portanto, ainda deve demorar, o que reforça a necessidade de aliviar o custo para os empregadores.

A própria recuperação da economia depende de um mercado de trabalho mais forte. Haver menos pessoas ocupadas significa menor renda para consumir e dificuldades extras na retomada. Sabe-se que o governo vive um momento fiscal delicado e, por isso, hesita em abrir mão de arrecadação. Foi este o motivo que levou Bolsonaro a vetar o prolongamento até 2021 da desoneração, que prevê pagamento de 1% a 4,5% sobre a receita bruta das empresas, de acordo com o segmento, em vez de uma alíquota de 20% para a Previdência sobre os salários. Neste caso, os benefícios tendem, ao longo do tempo, a compensar, materializando-se inclusive em um maior recolhimento de impostos. A decisão na direção correta do Congresso auxilia ainda o setor privado a acreditar que, após tantas tentativas de retomada frustradas, será possível acreditar em um 2021 de novo fôlego na economia.

OPINIÃO DA RBS


05 DE NOVEMBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

FÔLEGO NOS EMPREGOS 

Ao menos uma das diversas incertezas que cercam a recuperação da economia e do mercado de trabalho no país foi dissipada pelo Congresso. Após meses de procrastinação, finalmente o Legislativo derrubou ontem o veto do presidente Jair Bolsonaro à prorrogação da desoneração da folha de pagamentos a 17 setores intensivos em mão de obra que, juntos, empregam cerca de 6,5 milhões de brasileiros. Era uma medida indispensável tanto para milhares de empresas conseguirem se planejar para 2021 quanto pelas maiores garantias de preservação de boa parte dessas vagas, graças ao prolongamento do benefício até o final do próximo ano.

A manutenção de custos menores se traduz ainda em melhores condições para que essas companhias tenham mais segurança para enfrentar os desafios do exercício que se avizinha e, inclusive, levem adiante investimentos previstos. Para muitos dos setores que terão a desoneração da folha de pagamentos prorrogada, os gastos com mão de obra chegam a até 70% dos custos totais. Um peso enorme.

A crise sanitária e econômica significou um duro golpe para a atividade no país e para a saúde financeira das empresas. Mesmo que exista uma recuperação em curso, a retomada das contratações e até a preservação de muitos dos postos existentes dependem da emissão de sinais que gerem mais confiança para os empregadores. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou, na última sexta-feira, que a desocupação no país no trimestre encerrado em agosto atingiu a marca recorde de 14,4%. 

Especialistas repetem que as taxas podem ficar ainda maiores nos próximos meses, com o fim do auxílio emergencial de R$ 600 e um número maior de pessoas passando a procurar recolocação a partir da gradual flexibilização para que mais setores da economia retomem atividades. O retorno às taxas do período pré-pandemia, portanto, ainda deve demorar, o que reforça a necessidade de aliviar o custo para os empregadores.

A própria recuperação da economia depende de um mercado de trabalho mais forte. Haver menos pessoas ocupadas significa menor renda para consumir e dificuldades extras na retomada. Sabe-se que o governo vive um momento fiscal delicado e, por isso, hesita em abrir mão de arrecadação. Foi este o motivo que levou Bolsonaro a vetar o prolongamento até 2021 da desoneração, que prevê pagamento de 1% a 4,5% sobre a receita bruta das empresas, de acordo com o segmento, em vez de uma alíquota de 20% para a Previdência sobre os salários. 

Neste caso, os benefícios tendem, ao longo do tempo, a compensar, materializando-se inclusive em um maior recolhimento de impostos. A decisão na direção correta do Congresso auxilia ainda o setor privado a acreditar que, após tantas tentativas de retomada frustradas, será possível acreditar em um 2021 de novo fôlego na economia.



05 DE NOVEMBRO DE 2020
RBS TALKS

Saúde e felicidade de equipe é tema de debate 

Realizado na manhã de ontem, o RBS Talks, evento online do Grupo RBS, abordou os temas saúde e felicidade dos funcionários e como esses dois elementos podem trazer mais produtividade às companhias. A transmissão contou com a presença de Márcio Fernandes, autor do livro Felicidade Dá Lucro e referência na área de liderança, e Michele Schneider, especializada em medicina interna e gerente-médica da Doctor Clin. A mediação foi da comunicadora do Grupo RBS Giane Guerra.

Fernandes, logo de início, afirmou que aprendemos a fazer a diferença e o bem para as pessoas que amamos, mas não na vida de quem não conhecemos. Mas isso vem mudando, na última década, pontuou. Segundo ele, algumas empresas têm criado a cultura de levar esse modo de agir para dentro dos escritórios:

- Isso é muito poderoso e pode mudar muito o jogo. E é precisar notar que ser um gestor que está disposto a fazer seus funcionários felizes não tem nada a ver com ser permissivo ou covarde. Na verdade, é ser justo e fazer o melhor pelas pessoas de acordo, também, com o que é melhor para o todo. A pandemia nos deu a oportunidade de acelerar vários processos, temos que abraçar a chance dada para que a gente imprima esse modo de pensar nas empresas.

Michele também ressaltou a importância de os empregadores se mostrarem dispostos a ouvir a equipe e suas reclamações sobre as relações e a dinâmica de trabalho, especialmente neste momento pandêmico. Além disso, afirmou que é importante que as companhias preservem, desde que de maneira segura, locais de convivência entre os colaboradores.

- Dá para adaptar esses espaços. O distanciamento físico deve acontecer, mas o social não. Se as pessoas respeitarem o distanciamento, se for mantida a higiene frequente dos lugares e a ventilação deles for preservada, dá para manter esses espaços abertos - explica Michele.



05 DE NOVEMBRO DE 2020
L.F.VERISSIMO

Smoking por baixo 

Nada confirma que um martíni sacudido seja melhor do que um martíni mexido, mas Bond, James Bond, especificava: seu martíni deveria ser sacudido numa coqueteleira antes de servido. Com a mesma certeza, ele dissertava sobre a correta temperatura para tomar um saquê. Bond, James Bond, sabia o que estava dizendo. Bond, James Bond, sempre sabia o que estava dizendo.

Parte da sua atração era que também sempre sabia o que estava fazendo, fosse com martínis ou mulheres. Só Bond, James Bond, chegava na festa na casa do bandido por baixo d?água para escapar dos seguranças, mas tirava a roupa de mergulhador na praia e por baixo estava impecavelmente de smoking. Bond, James Bond, foi o último herói do Ocidente a nunca ter dúvidas sobre o que e como fazer.

Curiosamente, embora a maior parte dos filmes do 007 coincidisse com a Guerra Fria na sua fase ainda latejante, são raros os filmes em que os vilões sejam da União Soviética. Quase sempre são bandidos freelance, malucos empenhados em dominar ou destruir o mundo até que o fiel súdito da rainha estrague seus planos, geralmente em finais apocalípticos. 

Se existe alguma coisa de política nas aventuras de Bond, James Bond, é a glorificação, mitigada pelo bom humor, do direito de um agente de Sua Majestade de intervir onde e como quiser, mesmo que seu objetivo seja salvar a civilização. Alguém certa vez reagiu à declaração ufanista de que o sol nunca se punha sobre o chão do império britânico com uma correção: o sangue nunca secava no chão do império britânico. Mas considerações sobre os horrores do imperialismo não combinam com martínis bem feitos. E Bond, James Bond, estava apenas cumprindo ordens.

Sean Connery será sempre o 007 prototípico, mas teve uma respeitável carreira longe do personagem. Estava no melhor filme feito até agora de um livro do John Le Carré, A Casa da Rússia, roteiro do Tom Stoppard, direção do Fred Scheipisi, um australiano que emigrou para os Estados Unidos e merece que se fique de olho.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 4 de novembro de 2020



04 DE NOVEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

Coisas que fazem bem à saúde 

Nestes tempos pandêmicos, é importante prestar atenção à saúde. Por isso, muito tenho pensado no vinho e na lentilha. É que me disseram que, se comer lentilha todos os dias, durante um mês inteiro, sem falhar, coisas maravilhosas vão acontecer com o meu corpo. Quais maravilhas, exatamente, não sei, parece que tem a ver com o lítio, algo do gênero. Lentilha tem lítio? Seja. O importante é formar a corrente com 30 elos indissolúveis de lentilha para obter os benefícios.

Comer lentilha por todo um mês é definitivamente melhor do que tomar água morna todos os dias. Numa época, eu tomava água morna todos os dias. Por causa dos chineses. Lá na China, na Olimpíada de 2008, chineses me garantiram que beber água morna todas as manhãs é ótimo. Perguntei por que, e um chinês respondeu com uma parábola bem ao estilo oriental: "O barco só navega quando tem água para navegar".

Achei aquilo misterioso e, de toda maneira, muito sábio - você sabe como os chineses são sábios. Então, passei a tomar água morna de manhã. Era um pouco repugnante, confesso, mas tinha a impressão de que toda aquela água morna estava limpando meu corpo, e continuei tomando. Aí, um dia, alguém observou: "A água morna tem de ser ingerida com o sumo de meio limão, ou é inútil. A combinação da água morna com o limão é que faz a diferença".

Assim, tive uma temporada de água morna com o sumo de meio limão a cada manhã. Até que a Marcinha veio me falar que o irmão dela, o Guilherme, desdenhou da água morna com o sumo de meio limão a cada manhã. "Isso não adianta PARA NADA", teria criticado o Guilherme, com ênfase debochada no "para nada". Essa observação me abalou. Porque o Guilherme é um cara bastante atento às questões da saúde. Ele mede o seu nível de ácido úrico e pedala usando aquelas roupas colantes. O Guilherme não bebe água, ele se hidrata. O Guilherme não come carne, ingere proteína. Portanto, havia razões para me perturbar com seu desprezo pela água morna com o sumo de meio limão a cada manhã. Nunca mais tomei.

Porém, sem água morna e sem limão, sentia como se estivesse negligenciando minha saúde. Tinha de fazer algo diferente. Ouvi diversas opiniões e fiz uma triagem. Sumo de beterraba? Não tomarei. Bicarbonato de sódio? De jeito nenhum. Maçãs entre as refeições? Estou fora. Foi aí que cheguei à lentilha diária por um mês inteiro e uma taça de vinho por noite. A qual das medidas devo aderir? Comecei com o vinho. Tenho bebido até mais de uma taça, por garantia. Está me fazendo tão bem, que não pararei nem se for censurado pelo Guilherme. No máximo, acrescento a lentilha. Tudo por uma boa saúde.

DAVID COIMBRA


04 DE NOVEMBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

RESPOSTA AO CRIME 

Os indicadores sobre a criminalidade nos últimos anos no Estado mostram uma constante e consistente redução de grande parte dos delitos. É, sem dúvida, um alívio para a sociedade gaúcha, após o auge da violência em 2017, mas isso não significa que a luta contra a delinquência, os grupos organizados e as facções esteja vencida. Pelo contrário, o Rio Grande do Sul ainda está longe de patamares civilizados na área da segurança, embora os avanços precisem ser reconhecidos. Um grande número de cidadãos ainda clama pela proteção do aparato estatal.

Uma das frentes que necessitavam de ação mais firme das autoridades era a conhecida tomada de condomínios populares por quadrilhas. Criminosos expulsam e amedrontam moradores, pessoas humildes que acabam perdendo a posse de imóveis, transformados em quartéis-generais do tráfico. Ou então passam a ser aterrorizadas e a viver como se fossem verdadeiros reféns.

Após um ano de investigações, a Operação Cativeiro, desencadeada na manhã de ontem em Canoas, Porto Alegre, Cachoeirinha, Pelotas e Charqueadas, era uma resposta à altura que faltava para a envergadura e a complexidade do problema. A investida, com um contingente de 500 policiais civis e militares, além de guardas municipais e agentes penitenciários, precisa significar ainda um aviso aos delinquentes, que acostumaram-se a bravatear aos moradores que não poderiam contar com a ajuda da polícia e, portanto, teriam apenas de aceitar o destino de serem escorraçados de seus lares ou viverem amedrontados. Era o caso de dois condomínios do bairro Rio Branco, em Canoas, epicentro da ofensiva de ontem.

Uma operação semelhante há 20 dias em Viamão também deparou com a prática da expulsão de moradores de um condomínio popular para que as unidades habitacionais fossem usadas como base por traficantes. Vinte suspeitos de tráfico e outros crimes acabaram presos. Ontem, foram mais oito mandados de prisão cumpridos. No caso da Operação Cativeiro, as investigações se iniciaram com um ousado sequestro, por parte de traficantes, da sogra de um policial militar para atraí-lo para uma emboscada. A ordem partiu de dentro de um presídio.

A audácia de criminosos também tem mostrado a sua face mais cruel na Serra, com o registro de 14 assassinatos em oito dias em Caxias do Sul, resultado de uma aparente nova guerra entre facções. Tortura, esquartejamentos e decapitações, que se tornaram comuns há poucos anos no Estado, voltaram a ser praticados como intimidação de rivais.

É preciso, da mesma forma, uma reação firme das forças de segurança e da inteligência para não permitir que a barbárie continue ou se alastre. No caso dos condomínios, impõe-se que o Estado assegure restauração da tranquilidade para que todos os moradores possam retornar para casa ou viver com a garantia de não serem mais oprimidos por criminosos. E que estes sejam devidamente identificados, alcançados pela mão da lei e punidos.

OPINIÃO DA RBS

04 DE NOVEMBRO DE 2020
POLÍTICA +

Silêncio de juízes constrange quem acredita na Justiça 

Tão poucas vozes no mundo do Direito se levantaram para protestar contra a vilania que envolve a absolvição do empresário André Aranha, acusado de estuprar a modelo Mariana Ferrer, que a terça-feira terminou com a sensação de que juízes, promotores e advogados entraram na máquina do tempo e estão de volta ao século 19. Essa viagem tem uma escala no século 20, em que a Justiça absolvia criminosos que matavam "por amor" ou em legítima defesa da honra.

A figura do "estupro culposo", inventada pelo advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho, sem usar essa expressão, mas endossada pelo promotor Thiago Carriço de Oliveira e aceita pelo juiz Rudson Marcos já seria suficiente para exigir uma manifestação dos "operadores do Direito".

Pior do que a sentença, o vídeo do advogado humilhando a vítima, divulgado pelo site The Intercept, expõe a Justiça brasileira aos olhos do mundo civilizado. No vídeo, o advogado ofende Mariana sem que o juiz faça qualquer coisa para parar o circo dos horrores, mesmo com a moça aos prantos.

A tática do advogado, de culpar a vítima, é mais velha que o rascunho do primeiro Código Penal. Historicamente, vítimas de estupro são tratadas como culpadas. Ora é porque usava uma roupa decotada ou curta demais, ora porque estava bêbada, ora porque provocou o coitado do agressor, ora porque posou nua.

Onde estão as associações de magistrados e de promotores de Justiça? O CNJ, criado para ser o órgão de controle externo do Judiciário? O CNMP, que acompanha o CNJ quando se trata de alguma vantagem corporativa? Cadê as entidades de defesa dos direitos humanos? Sim, uma moça bonita humilhada num tribunal também é desrespeito aos direitos humanos.

ROSANE DE OLIVEIRA


04 DE NOVEMBRO DE 2020
MÁRIO CORSO

Como estragar com elogios

Qualquer um já presenciou a cena. Uma criança faz um garrancho no papel e um dos pais, ou cuidador de plantão, se desmancha de elogios pela "arte". Como se um novo Picasso estivesse nascendo.

O subtexto que dá sentido seria que elogiar as crianças propicia autoestima, tornando-as mais confiantes, especialmente para a vida escolar. A questão é: isso funciona?

Não funciona e é contraproducente. Não é opinião minha, é de uma pesquisa clássica em psicologia. E nada nova, pois é de 1988. Já deveria ter se tornado senso comum entre quem se dedica aos pequenos, mas não a assimilamos ainda.

Claudia Mueller e Carol Dweck, em uma pesquisa na universidade de Columbia, pediram a 128 crianças - entre 10 e 11 anos - que resolvessem problemas de matemática. Depois que cada uma concluía a primeira fase, os pesquisadores diziam apenas uma frase de elogio. Parte delas era elogiada pela inteligência e as outras pelo esforço. Algo como: você fez um ótimo trabalho, é bem inteligente; as outras: você fez um ótimo trabalho, deve ter se esforçado bastante.

Na segunda parte, os exercícios exigiam mais delas. E aqui é que entra a questão: as crianças que foram elogiadas pelo esforço criaram estratégias novas para resolver as questões e se saíram melhor. As que foram elogiadas pelo intelecto fizeram caminhos mais simples, apenas insistindo naquilo que já sabiam. Examinando atentamente, descobriu-se que o elogio à inteligência as deixava mais ansiosas e menos confiantes.

Moral da história: elogiem apenas o esforço e quando este for genuíno. Crianças fazendo coisas de crianças não é novidade de outro mundo. De fato, os adultos não ficam verdadeiramente com as crianças. Quando estas chegam mostrando algo e pedindo seu olhar, as compensamos pela nossa ausência. O elogio muitas vezes é uma esmola de atenção, um interesse de mentira.

Não é casual que haja tantos pais contemporâneos que supõem ter um pequeno gênio em casa. Educar com algum grau de exigência requer esforço e este pressupõe humildade. Valor que anda em baixa no mercado. Já a ideia tosca de que a inteligência seria um dom, em alta. Porém o esforço, verdadeira ferramenta da construção da inteligência, inclui contornar entraves, suportar frustrações. Estamos frente a uma geração de pais que pensa o filho como um presente da vida, quase pronto. Portanto não ensina a disciplina, não exercita a mola da tenacidade, que fará dele alguém capaz de se superar.

Você quer realmente ajudar seu filho? Sente no chão e brinque junto. Quando ele desenhar, mostre participando como ele pode melhorar, colocar mais cor, ou criar uma maneira nova de representar algo. Você estará ao lado dele e este é o melhor encorajamento. Dá trabalho, muito trabalho, mas quem disse que é fácil educar filhos?

MÁRIO CORSO

terça-feira, 3 de novembro de 2020


03 DE NOVEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

A pandemia para sempre 

Acho que essa pandemia não vai terminar nunca mais. Na Europa, pessoas que pegaram corona meses atrás já estão pegando outra vez. É a nova cepa, dizem. Nova cepa, nova cepa. Quantas cepas mais haverão de surgir? Covid modelo 21? Covid-22? Vinte e oito?

Esses vírus, eles são solertes. Eles vão se adaptando para encontrar mais hospedeiros. E é a isso que estamos reduzidos: somos hospedeiros de vírus. Que são hóspedes indesejáveis, mas nós não conseguimos mandá-los embora.

Lembro de quando eu era pequeno. Naquela época, havia uma instituição que hoje está extinta, a visita. Fazia-se visita. Não existia celular, internet, WhatsApp, mensagem de voz. A maioria das pessoas nem telefone tinha. Então, a visita acontecia de surpresa. Um casal reunia os filhos e tocava para a casa de outro casal. Você estava tranquilo, no recôndito do lar, e de repente alguém batia à porta. Você ia abrir e via uma família inteira em cima do capacho. "Ooooooi, viemos fazer uma visitinha...", anunciavam.

E entravam. E ficavam o dia todo lá. Conversando, comendo, bebendo.

Algumas amigas da minha mãe se negavam a ir embora por mais que eu e meus irmãos bocejássemos longamente, dando demonstrações visuais e sonoras do nosso cansaço. Ficavam conversando até de madrugada, aboletadas no sofá, falando, falando, que tanto assunto tinham?

Vírus! É isso que elas eram! Malditos vírus.

Mas tinha algo ainda pior. Era quando a minha mãe dizia: "Vamos fazer visita". Cristo! Era um dia perdido. Ainda recordo da sensação que experimentava de ver as horas passando molemente, e o aborrecimento tomando conta de meu ser, entorpecendo meus nervos, tornando-se um paralelepípedo no meu peito. Cara, como era chato fazer visita! Nós não íamos embora jamais, e eu nem podia dizer que queria ir para casa, minha mãe ia mandar de volta um olhar de fúria e fogo ou pronunciar a mais terrível frase da minha infância: "Depois nós vamos conversar sobre isso".

Eu me sentia um vírus.

Pois é assim que é. O corona veio fazer uma visita ao planeta Terra e ficou. Teremos de conviver com ele até a madrugada da nossa existência. Nunca mais sairemos à rua sem usar máscara. Nossas mãos ficarão eternamente melecadas de álcool gel. Festas? Carnaval? Estádio cheio? Tudo isso acabou. E, se você tiver mais de 60 anos, prepare-se para permanecer o resto da vida em casa.

A não ser, é claro, que todos tomem a vacina. Você não vai acreditar, mas muita gente que conheço não quer tomar a vacina. Muita gente que conheço é CONTRA vacinas! O que está acontecendo com o mundo? Antes, as pessoas se vacinavam sem contestação, era até bonito mostrar a marquinha da BCG no braço. Agora, na era da informação instantânea, há quem faça campanha contra vacinas, e algumas doenças que já estavam extintas voltaram.

Veja que coisa horrível aprendemos sobre o ser humano, leitor: devido à velocidade e à eficiência das comunicações, o obscurantismo atinge mais pessoas do que a ciência. Entre a informação e a fraude, elas preferem a fraude. Assim, quanto mais as pessoas estão conectadas, mais a ignorância se espalha e se entranha. Como um vírus. As facilidades da telefonia e da internet melhoraram o mundo, de fato. Mas, hoje, como as visitas de antigamente, as trevas e a escuridão batem à porta sem avisar.

DAVID COIMBRA

03 DE NOVEMBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

AS LIÇÕES DA ELEIÇÃO AMERICANA 

É notório que os Estados Unidos são a mais pujante democracia do planeta, mas, apesar dessa condição invejável, a campanha que hoje culmina com o dia final de votações deixa uma série de exemplos negativos, que se bem compreendidos podem ser traduzidos em lições úteis para o Brasil. O primeiro deles advém dos danos causados pela radicalização. Dos debates às campanhas nas ruas, passando pela cobertura de boa parte da imprensa, o clima de gritaria ofusca a saudável discussão de ideias e a proposição de soluções para problemas que vão muito além de uma tentativa de monopólio da razão. A pandemia, atualmente, é o maior desses desafios. Nos EUA, o número de vítimas fatais da covid-19 ultrapassa 230 mil. É o maior do mundo. Muitas seriam evitáveis se o bom senso tivesse ocupado o lugar das bravatas, da ideologização e do negacionismo.

Outro ponto que serve de alerta é a surpreendente complexidade e a disparidade do sistema eleitoral americano. Poucos Estados utilizam votação eletrônica e cada um define suas próprias regras e ritos, gerando uma confusão de datas e procedimentos com efeitos nocivos à credibilidade do processo. Em tempos de calmaria, funcionava. Agora, porém, sob a pressão de elementos históricos e circunstanciais específicos, abrem-se margens para manobras já ensaiadas que visam embaralhar e contestar em uma proporção histórica os resultados, caso sejam desfavoráveis a um dos lados. A solidez institucional, porém, será suficiente para contornar qualquer ardil protelatório.

Não resta dúvida de que a autonomia dos entes federados é um dos mais relevantes ingredientes do sucesso econômico e institucional dos Estados Unidos, mas essa descentralização precisaria, em alguns casos, de normas que garantam uniformidade mínima ao peso e ao processo do voto. Só mesmo o conhecido complexo de vira-lata poderia impedir que os brasileiros cultivassem orgulho e celebrassem a credibilidade e a lisura do seu sistema eleitoral, bem mais eficiente e transparente do que o norte-americano. Lá, o resultado final deve levar dias para ser conhecido, o que favorece a formação de um vácuo na transição entre um mandato e outro, mesmo que seja ele exercido pelo mesmo presidente. Aqui, os eleitos são anunciados em poucas horas.

Seja qual for o desfecho da disputa entre o democrata Joe Biden e o republicano Donald Trump, os efeitos serão gigantescos para o Brasil, potencializados pelo alinhamento ideológico atual entre o presidente brasileiro e seu colega do Norte. A defesa da democracia como valor global, que tem nos EUA seu grande exemplo de sucesso, embora imperfeito, exige que a eleição transcorra em paz, que os resultados sejam transparentes, fidedignos e, principalmente, acatados civilizadamente tanto por vencidos quanto por vencedores. Essa é uma questão que transcende as fronteiras com o Canadá e com o México e transborda a sua relevância para todo o planeta.


03 DE NOVEMBRO DE 2020
ALHEIOS À PANDEMIA

Feriadão de praias e bares lotados em SC 

Apesar das diversas restrições para conter a propagação do coronavírus, as praias de Santa Catarina seguiram registrando movimento intenso e aglomerações no decorrer do domingo e de ontem. As cidades de Florianópolis e Imbituba se destacaram pela quantidade de pessoas que, mesmo com a proibição de permanecer e tomar banho de sol na areia, reuniram-se em locais como Canasvieiras, Jurerê, Ingleses e Praia do Rosa.

De acordo com informações do portal G1, as ações de supervisão da Guarda Municipal e da Vigilância Sanitária foram reforçadas principalmente no norte da capital catarinense, mas, mesmo assim, muitas pessoas ignoraram a determinação das autoridades e ocuparam as faixas de areia. Nas redes sociais, o movimento na Praia do Rosa, em Imbituba, foi bastante comentado pelos internautas. Alguns vídeos mostravam a faixa de areia lotada durante o dia e aglomerações nas ruas da cidade à noite.

Agressão

Ontem, dois profissionais de uma equipe da NSC TV, afiliada da TV Globo em Santa Catarina, foram agredidos enquanto faziam reportagem que mostrava o desrespeito às regras de distanciamento. A equipe estava na praia do Campeche, em Florianópolis, e foi agredida por pessoas que não queriam ser filmadas.

A repórter Bárbara Barbosa e o cinegrafista Renato Soder estavam na praia para fazer entrada ao vivo em um telejornal, mas foram cercados por populares. Nas imagens, o grupo aparece ameaçando quebrar o equipamento dos profissionais

Um dos homens diz que vai quebrar a câmera. Na sequência, uma mulher arranca o celular da mão da repórter. As agressões ocorreram em frente a uma guarita de salva-vidas. A repórter ficou com marcas nos braços.

A NSC Comunicação informou que notificou a Guarda Municipal e a Polícia Militar e disse que seria registrado boletim de ocorrência. Em nota, a emissora ressaltou que o ataque foi tentativa de "impedir o trabalho da imprensa", mas que continuarão realizando "jornalismo profissional".

Na sexta-feira, pelo menos três estabelecimentos com irregularidades, como não uso de máscara, foram multados pela prefeitura.



03 DE NOVEMBRO DE 2020
RBS TALKS

Como saúde e felicidade podem atuar na produtividade 

O RBS Talks, evento online do Grupo RBS, debaterá amanhã, às 11h, como saúde e felicidade dos funcionários podem andar lado a lado para trazer mais produtividade às empresas. A live é direcionada a profissionais da área dos Recursos Humanos, mas é aberta ao público. As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas em bit.ly/rbstalks.

Participam do bate-papo a gerente médica da Doctor Clin, Michele Schneider, especializada em medicina interna, e Márcio Fernandes, autor do livro Felicidade Dá Lucro e referência na área de liderança.

Considerado o líder mais admirado de 2014 pela revista Você S/A, Márcio também é autor de O Fim do Círculo Vicioso, publicado em novembro de 2017, e o terceiro e mais recente livro chamado Filosofia de Gestão - Cultura e estratégia COM as pessoas, lançado em novembro de 2019.

Em 2016, foi nomeado Executivo de Valor em seu setor pelo Jornal Valor Econômico. Sob seu comando, a distribuidora de energia Elektro foi eleita por seis vezes consecutivas a Melhor Empresa para Trabalhar no Brasil pelas pesquisas Great Place to Work (GPTW) e Você S/A, e ainda por duas vezes a Melhor da América Latina.

A conversa será mediada pela comunicadora do Grupo RBS Giane Guerra. Após as falas dos palestrantes, haverá espaço para perguntas. A transmissão será pelo canal do YouTube de GZH, em link a ser enviado aos inscritos antes no início do evento.

O RBS Talks começará um pouco mais cedo para 20 convidados. Às 10h45min, este grupo de gestores de RH especialmente selecionados terão um encontro em sala privada do Zoom para trocarem ideias e conhecerem melhor os palestrantes. Também receberão em casa um kit do evento personalizado.


03 DE NOVEMBRO DE 2020
NILSON SOUZA

Trump no lixo

A história da raça humana é repleta de simbologias. Na última sexta-feira, o museu Madame Tussauds de Berlim colocou a estátua de cera do presidente Donald Trump numa caçamba de lixo com sacos plásticos e cartazes com tuítes, entre os quais o célebre bordão utilizado pelo republicano quando era animador de tevê: "Você está demitido!".

Está?

Saberemos em breve, tão logo o resultado da complexa eleição presidencial desta terça-feira seja decifrado, se é que a disputa não acabará na Suprema Corte norte-americana. A humanidade acompanha com apreensão essa luta pelo poder na nação mais influente do planeta exatamente por causa do chamado efeito borboleta: o bater de asas por lá sempre provoca tufões em outras partes do mundo.

Fanfarrão, provocador e politicamente incorreto em relação a vários avanços civilizatórios, Trump conclui o seu (primeiro?) mandato sem ter causado a temida catástrofe planetária. Mas nunca deixou de ser considerado uma ameaça à paz, embora tenha se revelado mais bravateiro do que truculento, como se viu naquele desconcertante jogo de morde e assopra com o ditador da Coreia do Norte.

No seu magnífico livro A História da Raça Humana Através da Biografia, o britânico Henry Thomas divide os grandes líderes mundiais em duas categorias: os que procuram melhorar a civilização e os que a retardam. No primeiro grupo estão os pacifistas. No segundo, os provocadores de guerras. Se continuasse a sua obra escrita em 1935, ainda com Mussolini e Hitler no poder e na antevéspera da Segunda Guerra, Thomas certamente teria que encontrar uma classificação menos simplista para esse Trump grosseirão e controverso, colocado simbolicamente no lixo da História pela filial alemã do maior museu de cera do mundo.

O Trump de carne e osso, no entanto, talvez seja bem mais difícil de remover. Além de ter defensores apaixonados, ele já avisou que não aceitará uma derrota eleitoral sem espernear e até deu um jeito de garantir maioria conservadora no tribunal que poderá dar a decisão final sobre o caso. Os mais pessimistas veem essa atitude como uma clara ameaça à democracia.

Tomara que seja apenas mais uma bravata de seu repertório.

NILSON SOUZA

segunda-feira, 2 de novembro de 2020


02 DE NOVEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

Mulheres jogando xadrez

O grande Kasparov disse, certa feita, que as mulheres não têm inteligência para jogar xadrez. Não foi o único Grande Mestre a emitir opinião semelhante. A diferença é que Kasparov não é um gênio louco, como Bobby Fischer, que era alheio a tudo que se passava fora do tabuleiro. Não. Kasparov é um homem sensato, inserido no mundo real.

De fato, nenhuma mulher jamais conseguiu ser campeã do mundo. Há três anos, existiam quase 1,6 mil Grandes Mestres Internacionais, entre eles apenas 35 mulheres.

Por que isso? Não sei a resposta, mas tenho cá uma tese: nada a ver com capacidades de cognição de cada sexo, a questão é o interesse. As mulheres, mais práticas, mais conectadas com o planeta, têm mais o que fazer do que ficar oito horas por dia estudando a abertura Ruy López ou a defesa siciliana.

Mas, se uma mulher se interessa e se dedica profissionalmente ao jogo, ela pode, sim, alcançar resultados relevantes. Quem o provou foi uma húngara chamada Judit Polgar, que desenvolveu uma feroz rivalidade exatamente com Kasparov.

Judit veio de uma dinastia de enxadristas. Seu pai, Lazslo, ensinou as três filhas a jogar, mas achava que as duas mais velhas é que teriam futuro. Uma noite, essas duas, ele e um Grande Mestre amigo da família estavam analisando um problema que parecia sem solução. Judit, sonolenta, preparava-se para ir para a cama. Então o pai a chamou: "Dá uma olhada nisso, filha". E Judit, bocejando, resolveu o impasse antes que eles pudessem dizer Cucamonga em húngaro. Foi aí que o pai viu que ela era a craque da casa.

Judit se tornou profissional e bateu vários Grandes Mestres, mas perdia sempre para Kasparov. Um dia, acusou Kasparov de ter cometido uma irregularidade: segundo ela, ele soltou o cavalo em uma casa e o mudou de posição depois. O velho Kaspa jurou que não havia largado a peça e acabou vencendo a partida. Judit ficou furiosa e jurou que um dia o venceria. O que acabou acontecendo. Na final de um importante torneio internacional, Judit jogou como uma tigresa, atacando sempre, sem medo, agressiva, e derrotou Kasparov. Que, depois disso, admitiu: "Eu estava errado sobre as mulheres no xadrez".

Uma grandeza do velho Kaspa.

Judit chegou a ser a 10ª melhor jogadora do mundo, uma façanha. Ela fez uma apresentação em Caxias do Sul, na Festa da Uva, em 2012, e foi um sucesso. Depois disso, chegou à conclusão da maioria das mulheres: tinha mais o que fazer. E largou o xadrez.

Conto toda essa história para recomendar uma minissérie deliciosa que está sendo exibida pela Netflix: O Gambito da Rainha. É, precisamente, sobre uma menina genial que se torna Grande Mestre de Xadrez e desafia os melhores jogadores do mundo. Que são, obviamente, todos homens.

Você não precisa gostar de xadrez para ver a série. Não precisa nem saber jogar. O drama é envolvente e a personagem é cativante - ela tem um pouco de estranheza, um pouco de sensualidade, um pouco de loucura, um pouco de genialidade. Pode-se dizer que é uma trama feminista, mas sem discursos, sem ativismo, sem grandiloquências, o que é um alívio neste tempo de bandeiras desfraldadas e dedos em riste.

Beth Harmon, a protagonista, é um espírito livre. É isso que mais emociona na história: sua liberdade serena e íntegra. Não há acusações. Não há ressentimentos. Beth vive a sua vida com a naturalidade do bicho e a sua vantagem sobre os outros seres humanos vem justamente disso: da superioridade das almas simples.

É lindo O Gambito da Rainha. Pena o título. A peça, no Brasil, é chamada de "dama". Mas, tudo bem, Beth tem mesmo um quê de rainha. Conquistará a coroa? Não conto, veja a série. E depois me agradeça pela indicação.

DAVID COIMBRA


02 DE NOVEMBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

TROPEÇOS NA VOLTA ÀS AULAS

É frustrante, até agora, a volta às aulas presenciais na rede estadual do Rio Grande do Sul. Era esperado que a adesão ao retorno às classes não fosse maciça, mas ficou evidenciado que o governo gaúcho falhou no compromisso de fazer chegar devidamente às instituições de ensino os equipamentos de proteção individual (EPIs), bem como os produtos de limpeza e desinfecção dos ambientes. O novo coronavírus segue como uma ameaça à espreita, mas a sensação de insegurança de pais e alunos tende justificadamente a crescer se os colégios não contarem com condições de higiene necessárias e os professores, os funcionários e os estudantes não tiverem o apropriado amparo material.

Deve ser reconhecido o esforço financeiro do Piratini, em meio a graves dificuldades de caixa, de investir pesado para assegurar a reabertura das escolas. Foram cerca de R$ 270 milhões, de acordo com o governo, sendo R$ 15 milhões em EPIs. Mas, ao mesmo tempo, lamenta-se que os produtos adquiridos, como máscaras e termômetros infravermelhos, não tenham sido entregues nos prazos necessários em muitos dos pontos finais de distribuição. O desapontamento é ainda maior pelo fato de o governo ter alardeado que o retorno às salas de aula, com todos os protocolos, foi discutido e planejado por cerca de cinco meses. Portanto, não faltou tempo para acertar.

Ao conferir a situação em escolas na Capital nos dias de reabertura previstos nos calendários, a reportagem de GZH deparou ainda com relatos de falta de funcionários, alguns afastados por serem de grupos de risco, mas não substituídos. Há ainda queixas quanto à sujeira nos locais e dificuldades para acessar os recursos da autonomia financeira das escolas. São adversidades que precisam de uma pronta solução para encorajar os pais necessitados desse suporte a terem maior confiança para levar seus filhos de volta às classes, dentro das limitações previstas. Fez certo o governo ao ressaltar que o retorno às aulas presenciais não é obrigatório, mas pecou ao não alcançar plenamente as condições para uma retomada segura.

Nesta soma de fatores, há ainda resistência de prefeitos e dos docentes, neste caso liderada pelo sindicato dos professores estaduais. Os professores dos grupos de risco, é bom lembrar, têm permissão para permanecer com as aulas remotas.

Embora exista a sensação de ano perdido, é preciso garantir, uma vez decidida a reabertura das escolas, as mínimas condições para a volta às classes dos alunos das famílias que considerarem o retorno indispensável ou possível. A pandemia trouxe graves danos à educação, tanto pelo aprendizado interrompido quanto pelo aumento da evasão, e o início do processo de recuperação dos prejuízos deve ser seguro e consistente. A situação atual penaliza ainda mais os alunos das escolas públicas, que tendem a ver o abismo que os separa da rede privada ficar ainda mais largo e profundo.


02 DE NOVEMBRO DE 2020
+ ECONOMIA

Gigante na freeway

O prédio gigante da nova sede da Fecomércio-RS, às margens da freeway, ainda surpreende quem transita pelo local, que ficou pronto pouco antes da pandemia. A obra é maior do que se vê ao passar pela rodovia: no espaço de 36 mil m2, há área de convivência, biblioteca, lounges, auditório, dois restaurantes, usina de energia solar e até lago artificial. 

A construção foi comandada pela gaúcha Ramos Andrade Engenharia, especializada em gerenciamento e fiscalização de obras. Uma das exigências foi a sustentabilidade: há uma grande estrutura para placas fotovoltaicas que geram energia. Conforme Daniel de Moraes Andrade, sócio-fundador da Ramos Andrade Engenharia, foi desafiador não só pelo tamanho, mas por envolver times de várias áreas. A Ramos Andrade foi pioneira no Estado no conceito PMI (Project Management Institute), que foca em evitar atraso em obras.

Velho inquieto

A Velho Tranquilo Barbearia tem plano de expansão para além de seus serviços tradicionais. Vai abrir uma unidade, no primeiro semestre de 2021, com depilação a laser e a cera, limpeza de pele, manicure e pedicure, peeling, botox, preenchimento com ácido hialurônico, microagulhamento e remoção de tatuagens. Com investimento de R$ 300 mil, foi planejada com base na demanda dos clientes segundo o fundador, Mateus Grazziotin. Com duas lojas em Porto Alegre, ambas terão alguns dos novos serviços a partir de janeiro. Responsável técnico da marca, Caio Chini será sócio na nova unidade. A expansão inclui projeto de franquias.

MARTA SFREDO


02 DE NOVEMBRO DE 2020
CLÁUDIA LAITANO

Travessias

Uma escola com alunos que não se vestem do mesmo jeito, não moram nos mesmos bairros, não rezam para o mesmo Deus - ou nem rezam. Uma escola tão multicolorida quanto aqueles anúncios da Benetton dos anos 1990. Uma escola pública com ensino de qualidade, frequentada por filhos de médicos e de auxiliares de enfermagem, de advogados e de guardas de trânsito. Uma escola que expande horizontes, em vez de encolher.

Não é um lugar dos sonhos, mas Longfields-Davidson Heights Secondary School, o colégio público em Ottawa, no Canadá, onde minha filha fez intercâmbio alguns anos atrás. A descrição e o espanto com a diversidade nas salas de aula são dela - uma menina que até então imaginava que todas as escolas do mundo eram tão monocromáticas e socialmente excludentes quanto os colégios particulares de Porto Alegre onde ela estudou.

A diversidade social e cultural de Longfields reflete não apenas a tradição do Canadá de acolhimento a imigrantes, mas uma política deliberada de "misturar para melhorar". Alguns anos atrás, no Fronteiras do Pensamento, o professor de ética Michael Sandel lembrou que patrões e empregados costumavam sentar lado a lado nos estádios americanos no tempo em que a diferença de preços dos ingressos não passava de US$ 3. Nas últimas décadas, estádios passaram a reproduzir a lógica do apartheid social que vigora (mais no Brasil do que nos EUA) em escolas, shoppings, parques públicos... A falta de espaços de convivência entre pessoas de diferentes origens e perfis, observou Sandel, estaria corroendo dois fundamentos da democracia: a percepção de que alguns valores podem ser compartilhados e a de que o bem-estar da maioria melhora a vida de todos.

Incomodados com a falta de diversidade na escola em que os filhos estudam, um grupo de famílias do Vera Cruz, de São Paulo, botou a mão na massa e colocou em pé uma ideia que merece ser imitada: um programa de bolsas para crianças negras e indígenas, financiado parte pela escola, parte por pais e outros doadores. O Projeto Travessias (projetotravessias.org.br) vai bancar os estudos de 18 crianças já a partir de 2021.

O que eu adorei nessa ideia não foi apenas a preocupação em promover a diversidade na escola - para o benefício de todos -, mas a parte "mão na massa" dos pais, que se reuniram durante meses para formatar um projeto que, se não vai mudar o mundo, vai mudar, e muito, aquele mundo. Lição de casa: o primeiro passo de qualquer travessia é querer sair do lugar.

CLÁUDIA LAITANO

domingo, 1 de novembro de 2020

Guilherme Fiuza, política, sarcasmo e ironia
Fake Brasil - A epidemia de falsas verdades (240 páginas, R$ 38,00, Avis Rara), do consagrado jornalista e escritor Guilherme Fiuza, que tem mais de 200 mil livros vendidos, apresenta vinte textos recheados de sarcasmo e ironia sobre temas de política nacional, que arrancam gargalhadas por suas críticas contundentes e certeiras. O livro inaugura um novo selo da Editora Faro, voltado para Ciências Sociais.
Fiuza escreveu Meu nome não é Johnny e 3000 dias no bunker (ambos adaptados para o cinema), O Império do Oprimido e Manual do Covarde e trabalha para Jovem Pan, Gazeta do Povo e Revista Oeste. Ele tem canais no YouTube, Twitter e Instagram, mas diz que seu sonho é parar de falar em política, se a política permitir.
Para Fiuza, o tema do momento, ligado ao debate político, é a questão das Fake News. Descobrir o que é verdadeiro ou falso não é uma ciência exata em meio a esse jogo de interesses, opiniões e achismos. Só nos restam duas opções, mergulhar no mar das incertezas e das frustrações, ou usar do bom humor, e rir dessa desgraça, de vez que não existe melhor piada pronta do que a política no Brasil atual.
Fiuza destila humor e crítica sobre mentiras oficiais que andam por aí, comenta decisões do STF, da Câmara e do Senado e fala desta terrível divisão partidária que tomou conta do País. Diz Fiuza: "Se você achava que os hipócritas modernos não tinham mais o que inventar, nossa atualidade mostrou que criatividade é mesmo o forte do brasileiro. E agora uma nova 'categoria' de fiscal da vida alheia surgiu: os 'checadores de fatos', seres iluminados que decidem o que é verdade e o que é mentira nas redes sociais. Em quais leis esses novos juízes se baseiam para julgar todo mundo? Nas leis da militância e do patrulhamento politicamente correto. Os hipócritas inventaram o juiz partidário - e assim chegaram à perfeição".
Os leitores poderão tentar, enfim, ao menos, lendo o livro, tirar suas conclusões de quem é quem nesse estranho baile de máscaras e ver que Cazuza estava certo: não nos convidaram para essa festa armada para nos convencer.

Remi Acordi e a montanha-russa

Quantas vidas uma pessoa vive durante a breve e rápida passagem pela terra? Um homem pode ser destruído, mas não vencido, como disse Hemingway? Vencer na vida é, na verdade, ter a capacidade de cair e levantar? Estas e outras questões vêm à mente depois de ler Trilhas & Trilhos (Editora AGE, 181 páginas), do administrador, empresário e consultor Remi Paulo Acordi, nascido em Bento Gonçalves em 1949.
Na autobiografia que o autor escreveu especialmente para seus netos Lucas, Gabriel e Laura, que atualmente moram com os pais em Miami, Remi conta sobre uma trajetória que iniciou no belo e pequeno distrito de São Valentim e que seguiu por Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Argentina, Uruguai, Estados Unidos, países da Europa e China. Verdadeiro cidadão do mundo e globetrotter, Remi, formado em Administração pela UCS, começou a trabalhar aos 13 anos e, generosamente, relata sobre períodos de grande sucesso, revela momentos de grandes quedas e sobre a serenidade vinda com a maturidade. Sua vida, como a de muitos de nós, é uma montanha-russa e muitas vezes nas quedas ganha-se energia para subir de novo e de novo...
Remi foi auxiliar de serviços gerais, auxiliar de contabilidade, gerente-geral e sócio fundador de empresas e, durante mais de dez anos foi consultor da maior vinícola brasileira da época e presidente de uma das maiores empresas gaúchas da área moveleira. Posteriormente foi sócio de empresas de comércio internacional e seguros.
Casado com a fiel escudeira Magda Franciosi Koff há mais de quatro décadas, da união nasceram dois filhos, Rafael e Eduardo. Rafael faleceu prematuramente devido a um Tumor de Ewing e, por sua vontade e da família, os Acordi passaram a colaborar fortemente com o lnstituto de Câncer Infantil de Porto Alegre. Os Acordi transformaram a dor maior de perder um filho em atos de solidariedade e bondade.
Remi conta no livro sobre sua paixão futebolística de sempre, o Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense e de como conviveu com o lendário presidente Fábio Koff, o maior vencedor do títulos do clube. Remi, liderado por Fábio Koff e junto com o não menos lendário presidente Hélio Dourado, criaram o grupo dos Elefantes Azuis e disputaram a célebre eleição de 2012 no Grêmio. Após a vitória e a posse, vieram as negociações sobre o Olímpico e outras questões conhecidas de todos.
Como se vê, a obra de Acordi, muito além de narrar uma vida movimentada e rica em acontecimentos, mostra a gloriosa saga da imigração italiana na serra gaúcha, a importância da família, da religião e dos amigos, etapas da política e da economia no Brasil, negócios que deram muito certo ou muito errado, o amor pela música, pelas viagens e vinhos e pelos esportes e, fundamentalmente, releva um profundo amor pela vida, a "montanha-russa", a "graça triste", com seus sobes e desces intermináveis.
Os netos Lucas, Gabriel e Laura certamente têm muita sorte e ganharam a melhor herança o mapa da mina, do vô que tanto viveu, vive e viverá. 
A propósito...
Trilhas & Trilhos é isso, uma narrativa que mostra como a vida é uma aventura, um caminho cheio de altos e baixos, de alegrias e de tristezas, de perdas e ganhos e de como é melhor, sempre, bem como diz o antológico samba, "reconhecer a queda, sacudir a poeira e dar a volta por cima". Hoje, com esse mundo do jeito que está, com essa pandemia de duração e vacinas incertas, não está nada fácil, mas não podemos desistir. Como foi dito no início, um homem pode ser destruído, mas não vencido. Vida que segue, fila que anda, gente que vai e gente que vem na estação, montanha-russa que segue subindo e descendo. No fundo do poço ainda tem mola e a hora mais escura é aquela antes do sol nascer. (Jaime Cimenti)
 lançamentos
  • Nossos sonhos são os mesmos (Libretos, 80 páginas, R$ 32,00), de Guilherme Giugliani, jornalista e escritor, é novela que conta a história dos amigos Gegê, Laura e Guiga, adolescentes, em viagem no litoral gaúcho, ao som de muito rock. A narrativa é boa de ouvir ao som de Infinita Highway e outros clássicos do Engenheiros do Hawaii.
  • Hibiscos vermelhos e tilápias vivas (Filocalia, 88 páginas, R$ 39,90), de Cláudio Neves, professor e poeta autor de cinco livros de poemas, é um romance em versos, a ser lido como uma longa epifania, permeado de uma religiosidade profunda, com referências à morte e ressureição de Jesus Cristo.
  • O Árabe do Futuro 4 - Uma juventude no Oriente Médio (1987-1992), quarto volume de quadrinhos de Riad Sattouf, narra a passagem da infância para a adolescência do autor, a deterioração de sua família e os conflitos no Oriente Médio nos anos 1990. História verdadeira que quem foi cada vez menos louro, de sua família franco-síria e do golpe de Estado realizado por seu pai.

sábado, 31 de outubro de 2020


31 DE OUTUBRO DE 2020
LYA LUFT

Protesto

Nem sempre se pode escrever só sobre amenidades, embora, eu sei, muitos gostem de que eu escreva sobre sentimentos, emoções, relações, vida enfim.

Hoje, protesto. Discordo. Reprovo. CONDENO, sim, porque sou deste planeta, moradora de muitas décadas, guardada há sete meses numa bolha de isolamento por causa da doença que nos aflige, e por ser eu de muito alto risco, preocupada com o mundo, com meus amigos, amados, conhecidos, e com todos os meus irmãos do planeta.

Por exemplo, condeno absolutamente roubar ou desviar (a semântica não importa) dinheiro destinado a qualquer coisa, sobretudo à saúde, ainda mais nestes terríveis tempos de pandemia, sombra que se espalhou sobre nós e não dá ar de querer sair. Considero um crime qualquer desvio de dinheiro nesse sentido, pois é assassinato: alguém não recebeu remédio, cuidado, hospital, e morreu.

Protesto indignada contra a facilidade, naturalidade, com que se empregam altos custos em coisas desnecessárias, ainda que com a desculpa de cuidar dos doentes afligidos por essa Peste, que depois não são usadas. Faltam planejamento, programação, cálculo de custos e de danos, falta seriedade, sobra improviso, o ser humano parece interessar bem pouco, apesar de tanto palavrório, oh, estamos vendo, providenciando, cuidando.

Protesto, condeno as eternas brigas e picuinhas entre líderes, autoridades, partidos, não importa: estamos em guerra, não uns contra os outros, mas contra um inimigo estranho, maligno, intrigante, que deixa exaustos e perplexos os maiores cientistas da Terra.

Também protesto contra levar isso tudo na brincadeira, atribuir a sistemas, países, ideologias, partidos, tiranos e tiranetes, não faz mal: nada disso importa nestes dias em que, se morrem menos de mil em 24 horas, já nos sentimos aliviados. Vários boeings caindo por dia, e não levamos a sério, achamos máscara, distanciamento, álcool gel, um tipo de frescura, de pânico, alarme de tias velhas assustadiças fechadas no quarto. Aliás, não se fazem mais tias velhas, nem avozinhas, como antigamente, hoje, graças a Deus, todas estamos na luta, no combate, na resistência.

Sim, hoje não estou simpática, meu primeiro editor me disse, ao ler As Parceiras, quando fui assinar meu primeiro contrato, antes do tempo da internet: "Seus personagens são trágicos, mas você, com esses cândidos olhos azuis, não parece trágica". Rimos juntos, e eu disse que, realmente, meus personagens sofrem mais do que eu, quando o livro se faz - porque eu, nessa hora, me divirto montando o quebra-cabeça das neuroses humanas.

Então, hoje, nada de olhos cândidos e doces, nada de ser romântica e boazinha: detesto, condeno, reprovo, protesto contra tudo o que possa dificultar o controle desse vírus diabólico.