
02
de abril de 2012 | N° 17027
ARTIGOS
- Cláudio Brito*
Pessoas
Em
recente evento cultural em nossa cidade, cuja pauta era a metodologia da educação,
professores debatiam recursos materiais, tecnologias e novas ferramentas de
apoio ao melhor desempenho pedagógico. Um dos painelistas encaminhou a
assistência à reflexão ao dizer, repetir e assinalar a frase que redirecionou a
programação:
–
Amigos, não podemos esquecer que tudo vai muito bem, mas o importante é que
trabalhamos com pessoas. Nosso foco é gente. Pessoas, só pessoas!
Não
que o expositor pretendesse invalidar o tema tecnológico ou quisesse fazer
qualquer desconstituição do núcleo proposto pelos organizadores, mas alertava
para a relevância das pessoas para quem trabalha em educação. Logo começaram as
conversas paralelas, acentuadas nos intervalos para o café e a água mineral.
Reflito agora também.
Não
existe atividade humana que não seja voltada para as pessoas.
O
zelador de um zoológico tem como objetivo atender pessoas. Quando vai à jaula e
trata do leão, faz isso por causa das pessoas que virão ao parque para olhar e
curtir os animais.
Pareceu-me
óbvia a conclusão, mas a ela chegaram após aquela advertência inicial.
Planta-se, cultiva-se, colhe-se, tudo se faz por causa e para as pessoas. Somos
seres postos sobre o planeta para uma vida de relação. Preocupa-nos o ambiente?
Por causa das pessoas e não das árvores.
Para
quem os frutos e a sombra? Toda a festa de beleza que a Natureza oferece tem
sentido por causa das pessoas, acontece para as pessoas. Escrevemos e
publicamos para sermos lidos pelos demais, que para o ermitão bastaria o
pensar. E até o náufrago solitário na ilha mais deserta, ou ainda aquele que
voluntariamente retirou-se, mesmo esses têm a mente voltada para as lembranças
que outras pessoas causaram.
O
amor e o ódio, a verdade e a mentira, quaisquer sentimentos, o sorriso e a dor,
as reações das pessoas têm como alvo outras pessoas. Mesmo Narciso, em seus
delírios de egocentrismo, vendo a imagem refletida no lago em que morreu,
chegou à tragédia seduzido pela pessoa que o espelho d’água lhe mostrava, ainda
que fosse ele mesmo, mas uma pessoa.
Não
são apenas os professores, mas todos nós só daremos sentido ao que fazemos se o
fizermos para todas as pessoas. Todos os atos e fatos dos homens e das mulheres
têm causa e consequência nos encontros e desencontros de homens e mulheres.
O
comportamento cidadão, tão desejado e que se quer construir com a solidez que
as Constituições dos países respaldam, acontece em sociedade. Pessoas formam
famílias, tribos, clubes e partidos políticos.
Organizam-se
em empresas ou instituições, públicas ou privadas, mas sempre são pessoas que
giram a roda do mundo. Da provocação daquele professor recolheu-se a certeza de
que temos esquecido ou relegado à pouca relevância a verdadeira missão que nos
cabe: cuidar para que as pessoas tenham motivação, interesse e lhes seja
possível e agradável viver com pessoas. Pessoas, só pessoas. É o que somos.
*JORNALISTA