quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018



08 DE FEVEREIRO DE 2018
NÍLSON SOUZA

PALPITAÇÃO SOBRENATURAL

Não sou de chorar no cinema. Quando me emociono, como qualquer XY criado nos rigores do machismo milenar, engulo em seco e dissimulo. Além disso, até por respeito à profissão que escolhi, aprendi a reprimir manifestações públicas de entusiasmo ou decepção. Mas sou obrigado a reconhecer: The Post - A Guerra Secreta, filme dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Meryl Streep e Tom Hanks, mexe com os instintos mais primitivos de velhos jornalistas e de profissionais que já viveram aquilo que García Márquez chamou de "palpitação sobrenatural da notícia".

Li a autobiografia de Katharine Graham, que foi presidente e diretora do jornal The Washington Post em momentos cruciais da história recente dos Estados Unidos. Só para exemplificar: ela assumiu o comando da publicação quando seu marido se suicidou, no mesmo ano ocorreu o assassinato de seu amigo John Kennedy e coube a ela decidir os rumos do jornal no célebre episódio dos documentos secretos do Pentágono sobre a Guerra do Vietnã (tema do filme) e, posteriormente, no caso Watergate, que culminou na renúncia de Richard Nixon. Uma História Pessoal, sua autobiografia, aborda com franqueza suas decisões e hesitações em todos esses episódios.

Spielberg e seus roteiristas nem devem ter tido muito trabalho, pois o filme reproduz fielmente o relato biográfico da senhora Graham. Mas tem outros méritos, além das atuações soberbas de Meryl Streep e Tom Hanks. Um deles - talvez, o principal - é lembrar que o jornalismo existe para servir aos governados, e não aos governos. Outro, não menos importante, é valorizar o papel profissional e a personalidade da mulher numa sociedade comandada por homens. Pequeno spoiler: a mensagem subliminar da cena em que Kay (Katharine) sai do tribunal sob o olhar de admiração das mulheres já vale o filme.

Posso estar puxando a brasa para o meu assado, mas tive a impressão de que, no final da sessão em que fui, o público também saiu satisfeito com as mensagens de defesa da liberdade de imprensa, de lucidez da justiça e de afirmação da democracia. Ninguém chorou, acho que não há mesmo motivo para lágrimas. Mas os velhos jornalistas, aqueles que já viveram a "paixão insaciável" do convívio com a notícia, do matraquear das máquinas de escrever numa redação enfumaçada e do cheiro de chumbo das linotipos ferventes, esses dificilmente conseguirão disfarçar uma certa palpitação.

NÍLSON SOUZA