quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018


28 DE FEVEREIRO DE 2018
PEDRO GONZAGA

ALÉM DA IMAGINAÇÃO


Conheça o sr. Henrique Bemis, um pedaço do passado ainda incrustado no presente, um pequeno e cordial funcionário público com seus imensos garrafais, um leitor inveterado, veja como ele nos saúda, insciente de que está prestes a encontrar seu destino no início da tarde mormacenta em Porto Alegre, num lugar Além da Imaginação.

Tragado pelo vaivém da Rua da Praia, onde mergulha todos os dias no horário do intervalo, o sr. Bemis chega à banca na qual há anos se abastece de jornais e revistas, pois, anacrônico como um monóculo, precisa do negror sólido das letras e do contato dos dedos no papel para sentir que lê. Acessório adir que nosso herói não tem celular e que mantém uma relação litigiosa com computadores e assemelhados. Entre os colegas, é o único leitor orgânico. Mais preciso seria dizer que é o único leitor, mas isso talvez soasse ofensivo ao resto da equipe de empréstimos e crediários.

Logo o dono da banca o saúda, como está, Ó Henrique, que vamos querer para hoje?

Nosso bom homem ajeita os óculos e percorre lentamente com os dedos as tantas ofertas. A ele não agradam as capas muito coloridas. Em sonhos, vê as publicações monocráticas, como na juventude. Gosta de notícias tradicionais: economia, política, a seção internacional, e de alguns articulistas mais sérios. De uns anos para cá, sente que ninguém mais nas redações pensa em gente como ele. 

De um lado, uma revista anuncia o declínio dos canudinhos de plástico; de outro, um tabloide celebra uma atriz por perder 10 quilos; ao centro, 15 manchetes iguais sobre a lesão de um certo craque, mais uma receita fantástica de bolo sem glúten, a maldade das grandes potências, outro dia de perda nas bolsas, a convenção da ONU a garantir apenas a existência de mais uma convenção da ONU.

Um fulminante cansaço faz o sr. Bemis buscar uma réstia de sombra onde fecha os olhos e respira. Ele só queria um jornal como aquele que lia para a mãe quando criança.

De súbito, volta a abrir os olhos e abismado topa com uma publicação desconhecida, com os tipos borrados de antigamente. Apanha o achado com alegria, força um pouco a vista e lê a manchete:

Última edição impressa

O corpo do texto diz: Morreu nesta tarde em Porto Alegre o sr. Henrique Bemis, abatido no coração por aquilo que mais temia. E Bemis não volta para o expediente.

PEDRO GONZAGA