quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018



21 DE FEVEREIRO DE 2018
FÁBIO PRIKLADNICKI

TEMPO DESPERDIÇADO

Talvez você já tenha sentido a vibração do celular no bolso e, quando foi verificar, percebeu que era apenas uma impressão, de tão acostumado que está a sentir alertas desse tipo. Nesse momento, contudo, você já perdeu a concentração na tarefa que estava fazendo. Se era um trabalho importante, provavelmente demorará alguns minutos para recuperar o foco.

Pode parecer apenas um inofensivo sinal do nosso tempo, afinal, devemos aprender a conviver com os efeitos colaterais dos inúmeros benefícios que a modernidade nos traz. Mas um movimento nascido dentro da indústria da tecnologia está repensando algumas certezas. Um de seus representantes é Tristan Harris, designer que trabalhou no Google e agora se dedica a divulgar reflexões sobre os vários efeitos nocivos do modo de funcionar das redes sociais e dos aplicativos de comunicação.

Harris não sugere acabar com a tecnologia para viver com um primitivo, longe disso. Quem desejaria largar o WhatsApp para voltar a usar orelhões? Ele propõe reconfigurar nossa relação com a tecnologia. Não é o primeiro a alertar que perdemos muito tempo no Facebook ou no YouTube - a novidade é que procura conscientizar as pessoas sobre as estratégias que os designers de produtos utilizam para sequestrar nossa atenção e quem sabe assim criar uma demanda por mudanças. 

As redes sociais, por exemplo, funcionam de forma similar às máquinas caça-níqueis: cada vez que você atualiza sua timeline, recebe um resultado diferente e se sente recompensado por isso. Não é à toa que é viciante. Cada produto é desenhado para nos interromper a todo momento (veja quem te marcou no Facebook!) e ocupar o maior tempo possível da nossa vida. Isso é ótimo para as empresas, mas será que é para nós?

Esse princípio pode ser traduzido aos nossos hábitos de cultura e entretenimento. Você decide o filme que deseja assistir ou espera a Netflix lhe apresentar as opções? Costumamos pensar que os aplicativos sabem o que queremos fazer, talvez melhor do que nós mesmos, mas será que as primeiras opções apresentadas não estão mais alinhadas aos negócios da empresa do que aos nossos interesses? Pode ser que essa hora seja mais bem ocupada com uma leitura ou um encontro entre amigos. Para retomar o pensamento de Harris: você sabe melhor do que qualquer algoritmo o que é usar bem o tempo.

fabio.pri@zerohora.com.br - FÁBIO PRIKLADNICKI