segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018



26 DE FEVEREIRO DE 2018
L.F. VERISSIMO

Preferências

Não me lembro quem era. Faz tempo. Numa roda, discutiam-se as preferências de cada um e alguém declarou "Pra mim, é Pio XII e Marta Rocha". Podia ter dúvidas em outras categorias, menos nas de melhor papa e melhor Miss Brasil. A frase fez sucesso, apesar da incongruência assumida, pois havia uma clara incompatibilidade entre as duas escolhas. Como alguém podia gostar ao mesmo tempo do ascético papa Pio XII e da bela baiana que só não fora Miss Universo porque suas formas eram generosas demais? 

(Ver Padrões e Medidas do Brasil Antigo, capítulo "Formas e folclore", verbete "Violão, mulher tipo"). Mas o importante era o tom definitivo da declaração. É preciso ter algumas definições prontas para o caso de você ser cobrado de surpresa. Melhor papa. Melhor Miss Brasil. Melhor Tarzan. Melhor música do Tom...

Não é fácil estar com as suas preferências sempre em dia. Quem tem uma coluna regular na imprensa e dá palpite sobre tudo muitas vezes só descobre o que pensa sobre um assunto quando o comenta, e não é raro começar com uma opinião e terminar com outra. Tenho posições firmes sobre o aleitamento materno (a favor) e o câncer (contra), mas e a clonagem humana? E dois volantes de contenção, sim ou não? E Israel e os palestinos? Alguém já disse que não existe frase pior, para um profissional do palpite, do que "por outro lado". 

Sempre tem o maldito outro lado! Não é uma questão de ser objetivo e imparcial. Com um espaço assinado no jornal, você é pago para ser subjetivo. Todos os imparciais são iguais mas cada um é parcial à sua maneira, e se for um preconceituoso é ainda mais divertido. O problema é como ser subjetivo sem ser injusto e saber por que você é parcial. Ou o que, para você, é pão e é queijo. Ou Pio XII e Marta Rocha.

(Ninguém me perguntou, mas lá vai: João XXIII, Ieda Maria Vargas, Johnny Weissmuller e Inútil Paisagem).

L.F. VERISSIMO