
CARLOS
HEITOR CONY
"Mata!
Mas não esquarteja"
Sem
me atrever a condenar ou elogiar o conselho de Maluf, acho que chegou a hora de
mudar a frase
O
nosso arraial político está surpreendido (ou irritado) com o acordo municipal
celebrado entre dois pesos-pesados de larga quilometragem no cenário nacional: Lula
e Paulo Maluf.
Aqui
entre nós, por nada entender nem querer entender nada de nada, sobretudo de política,
não a nossa, mas a universal, a política histórica, confesso que não fiquei nem
irritado nem muito menos surpreendido.
Mas
o destaque dado a Maluf me fez lembrar de uma de suas frases que causaram
indignação na mídia, no seio das famílias e em todos os escaninhos da mídia:
"Estupra, mas não mata!". Foi dita por ocasião de sucessivos casos
policiais que aconteceram por aí, causando justificado horror na sociedade.
Sem
me atrever a condenar ou elogiar o conselho de Maluf, acho que chegou a hora de
mudar a frase: "Mata, mas não esquarteja!".
Estamos
atualmente com um caso tenebroso, que não é inédito, mas raro: uma mulher traída
pelo marido, seguindo talvez sem saber a tecnologia de Jack, o Estripador,
matou o consorte com um tiro na cabeça, esperou mais de dez horas até que o
corpo esfriasse e começasse a entrar na rigidez dos mortos.
Cortou-o
em pedaços que couberam em três sacolas de lixo, que por sua vez couberam em três
malas relativamente pequenas. Que por sua vez couberam no bagageiro de um carro
e foram esvaziadas de sua carga macabra, espalhada em locais diferentes.
Já vimos
coisas parecidas no cinema e na literatura policial. Os códigos penais e
civilizados de nações igualmente civilizadas abrem um tipo de exceção ou de
compreensão para os crimes passionais praticados por conta de uma súbita e
violenta emoção que acompanha principalmente os casos de traição conjugal, de
relacionamentos amorosos que acabam sem comum acordo ou de insultos que a honra
de um ser humano não pode aceitar.
Não
pretendo comentar o crime em si, seu cenário, suas circunstâncias que ainda estão
sendo apuradas. Comento apenas o seu desfecho, o esquartejamento que começou -segundo
laudos periciais que estão surgindo- com a vítima ainda viva.
Barbaridade
à parte, que pode ser entendida, mas não justificada (o tiro na cabeça do
marido sem a possibilidade de defesa), a repugnância que todos sentimos foi o
esquartejamento, na certa demorado, de cabeça, tronco e membros de um corpo
humano que talvez ainda estivesse com alguns resíduos de vida.
A
assassina, que prontamente confessou o crime, tivera alguma prática de
enfermagem, em cujo curso não deve ser ensinado o processo de desmanchar um corpo
humano. Há donas de casa que na ceia de Natal pedem sempre a colaboração de
algum convidado para destrinchar o peru tradicional.
Além
da enfermagem, a criminosa tem em seu currículo o grau de bacharel em direito. E
um passado que, segundo as informações da polícia e da mídia, parece bastante
turvo para os padrões da burguesia e dos bons costumes.
Nesse
caldeirão ainda pouco detalhado, o mais chocante é a constatação do quanto pode
a natureza humana. E aí não importa saber se a criminosa agiu sozinha ou se
teve a colaboração de terceiros.
Falo
em natureza humana sem diferenciar machos e fêmeas, ou companheiros e
companheiras -como sempre faz o ex-presidente Lula. No caso, foi uma mulher que
expressou de forma hedionda a natureza humana. Fosse um homem, teria como causa
o mesmo resíduo do barro do qual todos viemos.
Sem
espanto e sem irritação, poderia lembrar inúmeros casos, na história e na ficção,
em que a nossa condição se exprime de forma aviltante. Citarei o comentário de
Iago, que envenenou Otelo com a suspeita da traição de Desdêmona.
Em
crise de "violenta emoção", o mouro de Veneza matou a mulher por
causa de um lenço, mas não a esquartejou -nem Shakespeare chegou a tanto.
Para
explicar a confusão provocada pela sua própria intriga e ampliada pelo ciúme
injustificado e pela justificada cólera de Otelo, além de recomendar a todos um
pouco de calma, Iago resume genericamente a situação, dizendo "men are men".
(E as mulheres, pedindo perdão às feministas de todos os tamanhos e feitios, são
mulheres.)