
HÉLIO
SCHWARTSMAN
Choque de metáforas
SÃO
PAULO - O povo, ao menos aquele que escreve cartas à imprensa e participa de
redes sociais, ficou revoltado com a aliança lulo-haddado-malufista. Até petistas
contumazes, daqueles que não creem em mensalão, ficaram incomodados. A pergunta
é: por quê? Constatar que o PP participa da coalizão que apoia o governo
federal não é novidade.
Uma
resposta plausível é que, enquanto os acordos se traduzem numa sopa de letras
como PT-PMDB-PC do B-PDT-PSB-PSC-PTN-PP, não é difícil manter distanciamento,
mas, quando o apoio se materializa numa concretíssima foto em que os três políticos
confraternizam, reações emocionais se tornam quase inevitáveis.
Um
bom modelo para explicar esse efeito é o da metáfora conceitual, proposto pelo
linguista George Lakoff, que, não por acaso, tem feito incursões pela teoria
política.
Para
o autor, metáforas são muito mais que um recurso linguístico para explicar
ideias. Elas são a própria matéria-prima do pensamento e têm existência física
no cérebro. Pares de ideias frequentemente disparadas juntas se consolidam numa
rede neuronal que se fortalece à medida que vai sendo mais utilizada.
O público
mais à esquerda passou tanto tempo associando Maluf ao que há de pior na política
que essa imagem se solidificou numa metáfora. Os mais velhos se lembrarão que "malufar"
fez uma aparição na língua como sinônimo de "roubar".
O
que Lula pede à militância, quando se congraça com Maluf, é não só que iniba a
velha metáfora como também que a reformule, incorporando-a à imagem positiva
que os simpatizantes têm do PT. Só que esse movimento não acontece sem uma boa
dose de sofrimento psíquico, que dispara reações viscerais.
Para
Lakoff, essas emoções orgânicas, mais que o cálculo racional, determinam o
comportamento do eleitor. Se o voto aqui não fosse obrigatório, uma manobra
como essa poderia afastar a militância das urnas.
helio@uol.com.br