quinta-feira, 28 de maio de 2026

Alta dos fertilizantes impulsiona avanço dos bioinsumos no campo

Conforme a Embrapa Soja, cerca de 85% das lavouras brasileiras utilizam bactérias fixadoras de nitrogênio

Conforme a Embrapa Soja, cerca de 85% das lavouras brasileiras utilizam bactérias fixadoras de nitrogênio

Guilherme Maragno/Embrapa/Divulgação/JC

Claudio Medaglia
Claudio MedagliaRepórterA alta dos preços dos fertilizantes, agravada pela dependência brasileira de importações e pela volatilidade do mercado internacional, vem impulsionando o uso de bioinsumos nas lavouras brasileiras. Utilizados para complementar ou, em alguns casos, substituir parte dos insumos químicos convencionais, esses produtos ganharam espaço principalmente em culturas como soja e milho, impulsionando um mercado que já movimenta cerca de R$ 6 bilhões no País.
Levantamento da consultoria SIA (Serviço de Inteligência em Agronegócios), com base em dados da CropLife Brasil e da ANPII Bio, aponta que o segmento representa aproximadamente 10% do mercado de proteção de cultivos no Brasil. A expansão ocorre em meio à elevada dependência externa do País no fornecimento de fertilizantes, que chega a variar entre 85% e 90%, segundo dados da Conab.
Além da busca por alternativas diante dos custos mais altos, o avanço do setor também é sustentado pela profissionalização da indústria, pela ampliação do manejo integrado entre químicos e biológicos e pelo desenvolvimento de novas tecnologias e formulações.
O pesquisador Marco Antonio Nogueira, da Embrapa Soja, com sede em Londrina (PR), afirma que a adoção de bioinsumos já vinha crescendo no País há anos, mas ganhou impulso recente em culturas com elevada demanda por adubação nitrogenada.
Segundo ele, a utilização de microrganismos para fixação biológica de nitrogênio já é consolidada na soja e vem avançando também em gramíneas como milho, trigo e arroz. “A crise internacional acaba estimulando essa adoção, principalmente em cenários de custos mais elevados para culturas que têm uma demanda muito alta de adubação nitrogenada”, afirma.
Na soja, o uso de inoculantes já está presente na maior parte das áreas cultivadas. Conforme Nogueira, cerca de 85% das lavouras utilizam bactérias fixadoras de nitrogênio, permitindo substituir integralmente a adubação nitrogenada mineral da cultura.
No caso da soja, é possível substituir totalmente a adubação nitrogenada com fixação biológica de nitrogênio”, diz.
Em cereais como o milho, porém, os bioinsumos ainda atuam principalmente como complemento aos fertilizantes minerais. O pesquisador explica que os microrganismos aumentam a eficiência do aproveitamento do nitrogênio já aplicado no solo, permitindo, em alguns casos, reduzir parte da adubação complementar.
No caso dos cereais, o bioinsumo vai funcionar como complemento aos fertilizantes minerais”, afirma. Segundo ele, em sistemas com alta adubação nitrogenada, é possível reduzir em até 25% a aplicação complementar do nutriente sem comprometer a produtividade.
O crescimento do mercado acompanha o aumento da adoção no campo. Dados da ANPII Bio indicam que o setor movimentou R$ 6,2 bilhões em 2025, avanço de 15% sobre o ano anterior. A área tratada com bioinsumos cresceu 28% no período, alcançando 194 milhões de hectares.
Para 2026, a expectativa das empresas associadas é de novo crescimento, estimado em 17%. A Embrapa projeta expansão anual entre 15% e 20% nos próximos anos, com potencial de o mercado superar R$ 9 bilhões.
Apesar do avanço do mercado nacional, a adoção ainda ocorre de forma desigual entre regiões e culturas. O gerente técnico da Cooperativa Tritícola Regional Sãoluizense Ltda. (Coopatrigo), Bento Jacó Büttenbender, afirma que, até o momento, a cooperativa não observou aumento significativo na procura por bioinsumos entre os associados.
Segundo ele, o uso das tecnologias tem avançado principalmente nas culturas de trigo e canola, além de aplicações pontuais em soja e milho. Büttenbender afirma que os produtores buscam principalmente alternativas para redução de custos e manutenção da produtividade.
O produtor busca as duas situações, mas a redução dos custos é o principal foco”, afirma.
De acordo com o gerente técnico, os bioinsumos ainda demandam maior conhecimento técnico e comprovação prática de resultados para ampliar a adoção no campo.
Não enfrentam resistência, e sim exigem conhecimento e clareza nos resultados que apresentam”, diz.
Mesmo assim, a cooperativa ampliou nos últimos anos o portfólio de produtos biológicos oferecidos aos produtores.
Como os bioinsumos ajudam as lavouras:
Soja já dispensa adubação nitrogenada
Segundo a Embrapa Soja, bactérias fixadoras de nitrogênio permitem substituir integralmente o fertilizante nitrogenado na cultura da soja.
No milho, os bioinsumos aumentam a eficiência
Em cereais como milho, trigo e arroz, os microrganismos auxiliam o sistema radicular da planta, melhorando o aproveitamento do nitrogênio já aplicado no solo.
Redução de fertilizantes depende do manejo
Em áreas com alta adubação nitrogenada, a tecnologia pode permitir redução de até 25% da cobertura com nitrogênio. Em áreas já pouco adubadas, porém, a redução pode comprometer a produtividade.
Microrganismos exigem cuidado na aplicação
Os inoculantes são formados por organismos vivos e podem perder eficiência quando expostos a extremos de pH, salinidade ou misturas incompatíveis com outros produtos.
Pesquisa avança em fósforo e coinoculação

Novas tecnologias desenvolvidas pela Embrapa buscam aumentar o aproveitamento de fósforo no solo e combinar diferentes bactérias para ampliar produtividade e eficiência nutricional. 

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