terça-feira, 29 de maio de 2012



A vida é sempre a mesma para todos: 
rede de ilusões e desenganos. 
O quadro é único, a moldura é que é diferente.

Florbela Espanca

By Keyla
Beijinhos a todos, no ♥
 




Um homem não pode fazer o certo
numa área da vida, enquanto está
ocupado em fazer o errado em outra.
A vida é um todo indivisível.

Mahatma Gandhi

By Keyla
Beijinhos a todos, no ♥



O humorismo alivia-nos das vicissitudes da vida,
ativando o nosso senso de proporção
e revelando-nos que a seriedade
exagerada tende ao absurdo.

Charles Chaplin

By Keyla
Beijinhos a todos, no ♥



Tudo quanto fazemos, na arte ou na vida,
é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer.
Desdiz não só da perfeição externa,
senão da perfeição interna;falha não
só à regra do que deveria ser, senão
à regra do que julgávamos que poderia ser.
Somos ocos não só por dentro, senão também
por fora, párias da antecipação e da promessa.

Fernando Pessoa

By Keyla
Beijinhos a todos, no ♥



Antes, a questão era descobrir se a vida
precisava de ter algum significado para ser vivida.
Agora, ao contrário, ficou evidente que
ela será vivida melhor se não tiver significado.

Albert Camus

By Keyla
Beijinhos a todos, no ♥ 



Quem quiser vencer na vida deve fazer
como os seus sábios: mesmo com
a alma partida, ter um sorriso nos lábios.

Dinamor

By Keyla
Beijinhos a todos, no ♥







A vida é uma peça de teatro que não
permite ensaios. Por isso, cante, chore,
dance, ria e viva intensamente, antes
que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.

Charles Chaplin

By Keyla
Beijinhos a todos, no ♥ 



 
Aproveite a terça-feira..Ótima tarde pra você...

Linda tarde pra você...


29 de maio de 2012 | N° 17084
FABRÍCIO CARPINEJAR

Máfia

Sou brigão. Um Hulk amarelado. Um caixa automático do Procon.

Minha aparência é calma, educada e sensível na maior parte do tempo. Mas é cometer uma injustiça contra mim ou querer me enganar, que enfureço. Subo nos tamancos. Monto no porco.

Babo, esbravejo, cerco a conversa, acelero a fala para não permitir que o oponente pense e revide.

Em casa, são folclóricas as refregas com garçons, taxistas e vendedores. No Súper Trunfo familiar, minha agressividade é 9,5, a campeã absoluta das cartas.

Os filhos são os que mais sofrem com os escândalos públicos. Mariana, 18 anos, se cala de cantinho, envergonhada, pedindo desculpa por existir.

Aquele que discute alto deveria ter consideração com seus acompanhantes. Ou, pelo menos, consultá-los antes de tomar uma atitude intempestiva de chamar atenção do restaurante ou da loja ou da rua.

Busquei me reabilitar na última semana. Não me esquentar por qualquer atrito, não estragar o passeio com minha sede de justiça.

Em Belo Horizonte, veio a primeira chance de desfazer a fama. O taxista roubava de modo escancarado. Aumentava o trajeto, costurava rumos desnecessários, salteava entradas com destemor, assobiava malandragem. O trajeto de R$ 10 da ida (linha reta na Avenida Afonso Pena), já resultava o dobro no taxímetro da volta.

Respirava cachorrinho para não latir. As têmporas cresciam, a dor de cabeça aumentava, mas não iria constranger novamente minha filha. Dessa vez, suportaria o erro em silêncio, conteria o ímpeto de pegar a falha em flagrante e

exigir explicações.

A mão suava, a garganta arranhava de raiva. Repassei o dinheiro para Mariana disposto a evitar o conflito direto, o confronto final, o choque da verdade. Não desejava sequer ouvir a voz fanhosa do sujeito.

Festejei quando saí do carro para pegar as sacolas no porta-malas. Finalmente controlei a fúria, estava curado da maldição, merecia estrelinhas douradas no caderno escolar.

Mas estranhei a demora de Mariana para deixar o táxi. Fui conferir pela janela e ela apontava o dedo e gritava com o motorista, chamava o cara de ladrão, de criminoso, de estúpido, de grosseiro, de nojento.

Levantou-se e bateu a porta com força. Lacrou a porta do Sandero. Nunca a vi assim.

– Que safadeza, a corrida custou R$ 22,10 e ele insistiu pelos 10 centavos, não aguentei e explodi – esclareceu.

Nas férias de minha cólera, ela ocupou meu lugar. Bem coisa de máfia.

As maiores brigas de nossa vida acontecem quando defendemos as dores dos outros. Nossas maiores brigas acontecem quando defendemos as dores dos outros.


29 de maio de 2012 | N° 17084
DAVID COIMBRA

O que mais sei fazer

Outro dia alguém me acusou de não saber perder.

Aí está uma injustiça atroz e revoltante.

Se existe alguém que sabe perder nessa ponta do Brasil, este alguém sou eu. A toda hora estou perdendo, perco todos os dias, para todo mundo, nas mais variadas circunstâncias. Logo, posso me gabar de ser um ótimo perdedor. Raríssimas são as pessoas que me vencem numa disputa para decidir quem perde mais. Sei disso porque estou cercado de vitoriosos, de campeões, de sabichões.

Eu aqui, nessa minha platitude, tenho de me contentar com escassas vitórias e façanhas que outros tantos já cometeram. Por esse motivo, as valorizo. Vibro com elas. Ganhei uma! Ganhei uma! Mas não me exibo muito, por saber que, logo ali adiante, vou perder outra vez. Aliás, já aprendi que só venço eventualmente porque perdi frequentemente.

Às vezes alguém me vê sorrindo e pensa que a alegria é fruto de petulância. “É um convencido!”, conclui. Lembro de uma vez, quando de minha primeira passagem por Zero Hora, que uma diagramadora olhou para mim e resmungou:

– Tu deves ganhar muito bem, não é? Porque estás sempre rindo.

Mas é o contrário! Estou sempre sorrindo porque sei que poderia ser pior. Contento-me com as alegrias baratas da vida. Alguém que sabe que derrotas são sempre iminentes fica feliz com pequenas vitórias. Isso em todos os campos, mesmo nos que me despertam o mais rútilo interesse. As mulheres, por exemplo, são muito boas para ensinar a lidar bem com a rejeição. Para efeito de ilustração, tomemos um tempo em que eu sorvia total descompromisso emocional.

Digamos que me interessasse por uma mulher diferente por dia. Não é um número exagerado. Há muitas mulheres interessantes por aí. Isso não significa que você esteja apaixonado, nem que anseie por ter um romance explosivo com ela. Não. Trata-se apenas de uma consideração. Você olha para ela e cogita das possibilidades, Será que posso me dar bem? Essa mulher poderia se repoltrear e se refocilar comigo?

Então, se ela emite um mínimo sinal, qualquer coisa, pode ser um olhar veloz em que cintile uma réstia de contentamento, bem, aí você faz uma minúscula tentativa, qualquer coisa também, diz uma gracinha, só para ver se ela sorri de volta, se existe uma única chance. E, neste caso, isso, apenas isso, o sorriso que volta, esse sinal ínfimo já pode ser considerado uma vitória. Não que você ache que vai dar certo, nada disso. A vitória se dá tão-somente porque não foi uma derrota. Quer dizer: você não foi rechaçado de pronto, ela não despreza você, EXISTE UMA CHANCE!

Mas, voltando aos meus tempos de descompromisso total, tenho de admitir que esse sinal de retorno não acontecia amiúde. Dava-se, digamos, uma vez por semana. Isto é: de 30 tentativas mensais, eu obtinha sucesso em quatro e, dessas quatro, talvez uma prosperasse (se tivesse sorte).

Em um ano, portanto, eram 353 derrotas e 12 vitórias, em média. Um homem que passa por isso se ceva na rejeição. Ele sabe que a cidade está cheia de mulheres que o desprezam ou que o consideram insignificante. Talvez até o ridicularizem à socapa. Assim, se você conquista uma vitória, uma só, ela tem de ser comemorada. Urge convidar os amigos para um chope cremoso.

O que quero dizer é que a rejeição e o fracasso não me roubam o bom humor. Estou acostumado com eles. Mas vejo que a maioria das pessoas não está. A maioria das pessoas é vencedora. Elas têm excelente opinião sobre si mesmas e, se sofrem um revés, se abalam, se entristecem.

Ou ficam revoltadas, como o Felipão. O Felipão, quando perde, se queixa do juiz. Vê conspirações em cada canto do vestiário. Acontecia antes, quando ele estava no Grêmio, acontece agora, quando ele está contra o Grêmio. A derrota nunca está nele, está sempre fora dele. É a inconformidade dos vitoriosos. Que inveja deles.


29 de maio de 2012 | N° 17084
PAULO SANT’ANA

Leiam por decreto

Vê se não é de a gente ficar bobo: já são 10 dias de homenagens que me prestam, deixando-me repleto de orgulho e contentamento.

Primeiro, foi a data significante de eu ter recebido o 22º prêmio Top of Mind, 22 anos consecutivos como o mais lembrado colunista de jornal do Estado.

E fui ver na Revista Amanhã que entre os supercampeões do Top of Mind, cerca de 40, havia uma só pessoa física, eu, enquanto todos os outros superpremiados ou eram empresas, ou eram produtos.

Aí fiquei com a boca lá na orelha.

Depois, foi na noite de Grêmio x Bahia, no Estádio Olímpico. Cheguei quase à hora do jogo e mal fui avistado pelos torcedores, milhares de pessoas acenavam para mim, depois passaram a gritar “Sant’Ana, Sant’Ana, Sant’Ana...”, todos gritando meu nome como se a me homenagear por minhas atuações jornalísticas, ecoando pelo estádio.

Foi um estrépito em todo o estádio, isto depois de vários meses fora da televisão por força de meus problemas de saúde.

Foi demais para o meu coração.

E agora vim a saber de uma notícia que para mim é fantástica: minha coluna é lida por decreto em Nova Prata (RS).

Tudo, menos esta de o prefeito de Nova Prata decretar que minha coluna tem de ser lida.

É, para mim, um gesto de enorme significado.

Vejam o texto do decreto que tornou obrigatória a leitura de minha coluna em Nova Prata: “Vitor Antonio Pletsch, na condição de Prefeito Municipal de Nova Prata, no uso de suas atribuições legais, DECRETA:

artigo 1º –

Fica determinada leitura da coluna do sr. Paulo Sant’Ana publicada no jornal Zero Hora no dia 25 de maio de 2012, página 47, denominada ‘Abuso é ignorância’, em todas as escolas da rede municipal pública do Município de Nova Prata, bem como pelos Agentes Comunitários de Saúde na execução de suas funções e pelos demais funcionários públicos municipais, com o objetivo de divulgação do contido na referida matéria, sendo esta uma forma de alertar que no mundo ocorrem estas anomalias.

Artigo 2º:

Este Decreto Executivo entrará em vigor na data de sua publicação. Gabinete do Prefeito Municipal de Nova Prata, 25 de maio de 2012. (ass.) Vitor Antonio Pletsch, prefeito”.

Eu fico assim todo exultante quando um prefeito determina por decreto a leitura de minha coluna em todos os órgãos públicos e em todos os serviços municipais.

Foi aquela coluna em que eu afirmei que o abuso sexual sobre as crianças se dá por entenderem os meninos e meninas que aquilo que fazem sobre eles não é ilícito e nem infamante. As crianças que sofrem abusos desconhecem, na sua inocência, que seus órgãos sexuais e zonas erógenas não podem ser tocados nem por estranhos nem por parentes.

E recomendei naquela coluna que isso fosse divulgado em todas as escolas e em todos os lares gaúchos, com a finalidade de, adquirindo conhecimento do que seja abuso sexual, as crianças não permitam que isso seja feito e o denunciem.

Mas esta coluna ser lida por decreto, ter leitura oficial obrigatória em todo um município, eu nunca tinha visto.

Orgulho-me.


29 de maio de 2012 | N° 17084
CLÁUDIO MORENO

Nem tão solta, nem tão curta

Os gregos, grandes admiradores dos egípcios, não podiam entender como um povo tão avançado podia cultuar deuses com a aparência de falcões ou escaravelhos. Nos mitos da Grécia, a forma humana era imprescindível, e todas as criaturas que misturavam o homem com o animal eram vistas como monstros temíveis.

Seres híbridos como a esfinge, o minotauro, as górgonas ou as harpias estavam predestinadas, por sua construção aberrante, a provocar o terror à simples menção de seu nome; os próprios centauros, embora não fossem tão assustadores – afinal, tinham rosto e linguagem de gente –, também eram considerados perigosos, pois não passavam de beberrões, arruaceiros cruéis e violadores de mulheres.

A única e especialíssima exceção foi o centauro Quíron – segundo Homero, “o mais justo de todos” –, que vai se tornar a única figura de professor que aparece em toda a mitologia. Ao contrário dos demais, Quíron era respeitado por sua reputação de formar homens sábios e íntegros.

Os deuses haviam lhe ensinado a música, a poesia e a arte de curar, e sua vida livre nos prados e florestas da Tessália revelou-lhe os segredos das plantas e dos animais. Era, como todo grande educador, um agente da cultura e da civilização: mentor de Aquiles, de Teseu, de Jasão e de vários outros heróis, transmitiu a seus pupilos o conhecimento da natureza, as artes do homem e o amor pela justiça.

Para quem acha estranho que os gregos tenham atribuído este papel tão importante justamente a um ser híbrido, lembro que o cavalo é o símbolo por excelência de nossa vida inconsciente – e que o centauro, portanto, é uma excelente metáfora para nossa humana condição:

Quíron representa a feliz aliança que as duas espécies celebraram quando o homem ainda vivia em cavernas. Em todos os povos, em todas as épocas, a relação entre o cavaleiro e sua montaria sempre simbolizou esta delicada parceria entre instinto e razão que comanda nossa vida.

Para dirigir a explosão vital de nossos impulsos, temos a rédea da cultura; a arte é usá-la com equilíbrio, aplicando a pressão exata para cada situação. Rédea de mais ou de menos – como diria Quíron, se vivesse aqui no pampa –, acaba estragando o animal: nem tão solta que ele dispare, nem tão curta que ele empaque. Quem conhece os campos da vida sabe, inclusive, que às vezes, quando estamos perdidos, no escuro, é preciso confiar no cavalo e deixar que ele decida qual dos caminhos é o melhor.

Lembrete – No dia 14 de junho começa meu curso Troia e seus mitos, com turmas à tarde e à noite. Veja todos os detalhes em www.casadeideias.com.

segunda-feira, 28 de maio de 2012


ELIANE BRUM

A imprensa que estupra

A repórter que condenou e humilhou um suspeito não é exceção. O episódio mostra a conivência histórica entre parte da imprensa, da polícia e do sistema penitenciário na violação dos direitos de presos pobres (ou presos e pobres)

– Não estuprou, mas queria estuprar!

A frase foi dita pela repórter Mirella Cunha, no programa “Brasil Urgente”, da Band da Bahia, a um jovem de 18 anos, preso em uma delegacia desde 31 de março. Algemado, ele diz que arrancou o celular e a corrente de ouro de uma mulher, mas repete que não a estuprou. Na reportagem, a jornalista o chama de “estuprador”. Pergunta se a marca que ele tem no rosto é resultado de um tiro. Ele responde que foi espancado. A repórter não estranha que um homem detido, sob responsabilidade do Estado, tenha marcas de tortura.

O suspeito diz que fará todos os exames necessários para que seja provado que ele não estuprou a mulher. Ele não sabe o nome do exame, não sabe o que é “corpo de delito” e pronuncia uma palavra inexistente. Ela debocha e repete a pergunta para expô-lo ao ridículo. Ele então pronuncia uma palavra semelhante à “próstata”. A jornalista o faz repetir várias vezes o nome do exame para que ela e os telespectadores possam rir.

Depois, pergunta se ele gosta de fazer exame de próstata. No estúdio, o apresentador Uziel Bueno diz: “Tá chorando? Você não fez o exame de próstata. Senão, meu irmão, você ia chorar. É metido a estuprador, é? É metido a estuprador? É o seguinte. Nas horas vagas eu sou urologista...”. 

A chamada da reportagem era: “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”. A certa altura, a jornalista olha para a câmera e diz ao apresentador, rindo: – Depois, Uziel, você não quer que o vídeo vá pro YouTube...

Ela tinha razão: o vídeo foi postado no YouTube. A versão mais curta dele já foi vista por quase 1 milhão de pessoas. Aqui neste link, se quiser, você pode assistir a uma versão um pouco mais longa, de quase cinco minutos.

O vídeo foi divulgado nas redes sociais, na semana passada, com grande repercussão e forte pressão por providências. Um grupo de jornalistas fez uma carta aberta: “A reportagem de Mirella Cunha, no interior da 12ª Delegacia de Itapoã, e os comentários do apresentador Uziel Bueno, no estúdio da Band, afrontam o artigo 5º da Constituição Federal: ‘É assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral’.

E não faz mal reafirmar que a República Federativa do Brasil tem entre seus fundamentos ‘a dignidade da pessoa humana’. Apesar do clima de barbárie num conjunto apodrecido de programas policialescos, na Bahia e no Brasil, os direitos constitucionais são aplicáveis, inclusive aos suspeitos de crimes tipificados pelo Código Penal”.

E, mais adiante: “É importante ressaltar que a responsabilidade dos abusos não é apenas dos repórteres, mas também dos produtores do programa, da direção da emissora e de seus anunciantes – e nesta última categoria se encontra o governo do Estado que, desta maneira, se torna patrocinador das arbitrariedades praticadas nestes programas”.

Em 23/5, o Ministério Público Federal abriu representação contra a jornalista. Em nota, a Band afirmou que tomaria “todas as medidas disciplinares necessárias” e que “a postura da repórter fere o código de ética do jornalismo da emissora”.

Em visita ao suspeito, a Defensoria Pública assim o descreveu: “É réu primário, vive nas ruas desde criança, apesar de ter residência em Cajazeiras 11. Tem seis irmãos, é analfabeto e já vendeu doces e balas dentro de ônibus. Ao ser questionado sobre como se sentiu durante a entrevista, ele diz: ‘Eu me senti humilhado, porque ela ficou rindo de mim o tempo todo. Eu chorei porque sabia que eu iria pagar por algo que não fiz, e que minha mãe, meus parentes e amigos iriam me ver na TV como estuprador, e eu sou inocente’”.

A reportagem é um exemplo de mau jornalismo do começo ao fim. E, para completar, ainda presta um desserviço à saúde pública, ao reforçar todos os clichês e preconceitos relacionados ao exame de próstata. Por causa dessa mistura de ignorância e machismo, homens demais morrem de câncer de próstata no país. Os abusos cometidos pela repórter e pelo apresentador foram tantos, porém, que esse prejuízo passou quase despercebido.

Por que vale a pena refletir sobre esse episódio? Primeiro, porque ele está longe de ser uma exceção. Se fosse, estaríamos vivendo em um país muito melhor. O microfone (e a caneta) tem sido usado no Brasil, assim como em outros países, também para cometer violências. Nestas imagens, se observarmos bem, a repórter manipula o microfone como uma arma. (Outras interpretações, vou reservar para os psicanalistas.) 

Muitos passam mal ao assistir ao vídeo porque o que se assiste é uma violência sem contato físico, sem marcas visíveis. Uma violação cometida com o microfone e uma câmera, exibida para milhões de pessoas, contra um homem algemado (e, portanto, indefeso), sob a responsabilidade do Estado, que, em vez de garantir os direitos do suspeito, o expõe à violência. 

O suspeito é humilhado por algo que deveria ser uma vergonha para o Estado e para todos nós: a péssima qualidade da educação. E, no caso dele, o analfabetismo de um jovem de 18 anos no ano de 2012, na “sexta economia do mundo”. Ao afirmar que o rapaz era um estuprador, a repórter colocou em risco também a vida do suspeito, já que todos sabem – e muitos toleram – o que acontece dentro das cadeias e prisões com quem comete um estupro.

A repórter e o apresentador, porém, são apenas a parte mais visível da rede de violações. Estão longe de serem os únicos responsáveis. Para que esse caso se torne emblemático e para que a Justiça valha é preciso que todas as responsabilidades sejam apuradas, a começar pela do Estado. Tanto em permitir que alguém sob sua custódia fosse exibido dessa maneira, e possivelmente contra a sua vontade, numa rede de TV, quanto nas marcas de tortura no seu rosto. As marcas e o relato de espancamento, aliás, seriam objeto da apuração de qualquer bom jornalista. No caso, não suscitaram nenhuma surpresa.

Basta ligar a televisão para ter certeza de que nem essa jornalista, nem esse apresentador, nem essa rede de TV são os únicos a violar direitos previstos em lei, especialmente contra presos e contra favelados e moradores das periferias do Brasil. Especialmente, portanto, contra os mais frágeis e com menos acesso à Justiça.

Vale a pena lembrar que o número de defensores públicos no Brasil é insuficiente – em São Paulo, por exemplo, segundo relatório feito pela Pastoral Carcerária Nacional e pelo Instituto Terra, Trabalho e Cidadania, há apenas 500 defensores públicos para prestar assistência jurídica à população carente. E quase 60 mil presos que nunca foram julgados.

Como também sabemos, nenhum jornalista publica ou veicula o que quer. Para que reportagens como esta tenham espaço é preciso que exista antes uma estrutura disposta a permitir que os maus profissionais violem as leis. Em última instância, também quem anuncia seus produtos em programas que exibem esse tipo de reportagem está sendo conivente e estimulando a violação de direitos. 

A responsabilidade não acaba aí. Nos blogs, onde o vídeo foi denunciado como uma violação de Direitos Humanos, parte dos comentários dos leitores pode ser assim resumida: “Ah, mas ele não é nenhum inocente”. Ou: “Queria ver se fosse você que ele tivesse assaltado”. São afirmações estúpidas, mas elas ajudam a explicar por que esse tipo de abordagem tem audiência. Persiste ainda no Brasil uma ideia de condenação sem julgamento – e o linchamento público, via TV, é uma das formas mais apreciadas de exercer a barbárie.

Até porque, dessa forma, ninguém precisa sujar as mãos de sangue.
É preciso, porém, lembrar o óbvio: até ser julgado, um suspeito é um suspeito. E só o ritual da Justiça poderá dizer se ele é culpado ou inocente. E, mesmo culpado, ele vai cumprir a pena determinada pela lei, mas continuará a ter direitos. E esta é uma conquista da civilização – contra a barbárie.

É também por causa da vontade de fazer “justiça” com as próprias mãos de parte da população que o mau jornalista se sente “autorizado” a se colocar no lugar de juiz e condenar um suspeito no tribunal midiático. Quem o legitima não são as leis tão duramente conquistadas no processo democrático, mas a audiência. Quem legitima o mau jornalismo é justamente esse tipo de comentário: “Ah, mas ele não é nenhum inocente” ou “Queria ver se fosse você que ele tivesse assaltado”. 

“Queria ver se fosse você que ele tivesse assaltado”.

Para esse tipo de raciocínio valer e o mau jornalismo continuar tendo espaço é preciso que a sociedade decida que não existem leis no Brasil e que os suspeitos perdem todos os direitos e devem ser linchados sem julgamento, nas ruas ou na TV. E isso vale para todos – e também para aqueles que gostam de expressar sua sanha porque pensam estar a salvo da sanha alheia.

Por sorte, não chegamos a esse ponto. Mas, para que violências como a que assistimos não se repitam, não basta punir quem as comete, é preciso que cada um saiba que, ao dar audiência para o mau jornalismo, está escolhendo a barbárie. O telespectador também tem responsabilidade. Cada um de nós tem responsabilidade. É assim numa democracia: a responsabilidade é compartilhada. Quem escolhe, se posiciona e se responsabiliza. E quem se omite também escolhe e se responsabiliza.

Este episódio, que, repito, está longe de ser exceção, poderia ser usado para iluminar capítulos não contados, ou pouco contados, ou ainda mal contados da imprensa. É importante compreender que, historicamente, parte do jornalismo policial tem uma relação promíscua com a polícia. Desde sempre. Parte porque há grandes e decentes repórteres na história da crônica policial brasileira.

Mas, arrisco-me a dizer, não representam a maioria.

Na ditadura, parte dos jornalistas policiais foi conivente com a tortura dos presos políticos, da mesma maneira que já era conivente, antes, com a tortura dos presos comuns. E que, depois do fim da ditadura, continuou a ser conivente com a tortura largamente praticada até hoje nas cadeias e presídios do país. Há histórias escabrosas e ainda não bem contadas de repórteres que, inclusive, assistiam às sessões de tortura e até ajudavam a torturar. Estas só tomei conhecimento pela narrativa de colegas mais velhos – obviamente, nunca presenciei. 

Na transição democrática, nos anos 80, eu cheguei a conviver com jornalistas da editoria de polícia que andavam armados e achavam não só natural, mas desejável, a tortura de presos. Outros se limitavam a não denunciá-las. Era comum o repórter chegar à delegacia e ouvir a seguinte frase:

“Espera um pouquinho, que estamos maquiando o elemento”. 
“Maquiar” o preso significava que estavam apagando as marcas de tortura, para que ele pudesse ser fotografado ou filmado. Algumas marcas, claro, restavam. E ninguém – nem repórter, nem fotógrafo, nem mesmo os leitores – achava estranho.

 É por causa dessa mentalidade, ainda hoje largamente disseminada entre a população brasileira, que as denúncias das torturas praticadas nas cadeias e prisões não causam revolta – para além das organizações de direitos humanos e alguns segmentos restritos da sociedade. Como se, ao ser condenado ou apenas suspeito de um crime, as pessoas perdessem todos os seus direitos, inclusive os fundamentais.

Se a tortura de presos políticos durante a ditadura tem grande repercussão na classe média, a tortura contumaz dos presos comuns, praticada antes, durante e depois do regime militar, é tolerada por parte da população – até hoje. Sobre a tortura disseminada nas cadeias e prisões brasileiras, aliás, aguarda-se a divulgação do relatório da ONU, cujos resultados e recomendações estão nas mãos do governo federal desde fevereiro.

Eliane Brum

A imprensa que estupra

Se no passado alguém estranhasse as marcas dos presos, bastava alegar “resistência à prisão” – “explicação” até hoje amplamente usada pelas polícias para justificar a morte de suspeitos. É assim que a pena de morte – punição inexistente na legislação brasileira – tem vigorado na prática no país. Suspeitos são executados pela polícia – e a justificativa é “morto ao resistir à prisão” ou “morto em confronto” ou “morto durante troca de tiros”.

Ontem – como hoje –, na prática, o preso não tinha nenhum direito a não querer dar entrevista ou ser fotografado ou filmado. Estava implícito que, se tentasse protestar, seria agredido. Era comum os policiais levantarem a cabeça do preso para as câmeras. Tanto daqueles que não queriam ter seu rosto exposto quanto daqueles que tinham sido tão torturados que não conseguiam manter a cabeça ereta sobre o pescoço.

Esta era a cultura que imperava – e em geral as redações não estranhavam, ou quem estranhava preferia deixar por isso mesmo para não ter de se confrontar com a “naturalidade” reinante. Não me parece – pelo que assistimos nesse vídeo – que hoje a situação seja muito diferente.

No início dos anos 90, um colega de jornal, Solano Nascimento (hoje professor do curso de jornalismo da UnB), que raramente cobria a área policial, presenciou um agente dar um tapa em um preso. Vários jornalistas, de outros veículos, testemunharam a cena. Mas só ele estranhou e denunciou a violência na sua matéria. O fato – o de um jornalista ter denunciado algo que para muitos era corriqueiro – causou espanto nas redações. Ainda assim, a polícia foi obrigada a abrir uma sindicância.

Uma pesquisa realizada em 2009 por Marcos Rolim, Luiz Eduardo Soares e Silvia Ramos com profissionais de segurança pública mostrou que 20,5% dos quase 65 mil policiais que responderam ao questionário – 1 em cada 5 – afirmaram ter sofrido torturas em seu processo de formação.

O curioso é que a cultura de violência também se fazia presente na formação dos repórteres de polícia, ainda que em proporções mais amenas. Uma espécie de “batismo de sangue” (no caso, sangue alheio) era motivo de orgulho e até de certa superioridade diante dos “frouxos” de outras editorias. Posso afirmar que isso persistiu até pelo menos a década de 90 – mas há motivos para supor que ainda exista em algumas regiões do país.

Entre os jornalistas, a iniciação era feita de várias maneiras. Uma repórter contou que, em seu primeiro dia de trabalho, foi escoltada das 7h às 21h por um jornalista veterano, com um revólver calibre 38 na cintura (era a década de 80 e o “três-oitão” ainda vivia momentos de glória).

Nestas 14 horas ininterruptas, eles acompanharam todas as mortes ocorridas na cidade – não só os assassinatos, mas também os suicídios. O veterano obrigou a “foca” a examinar os cadáveres, verificar o que havia nos bolsos, apalpar os “presuntos”, como ele chamava. Ao final do processo de violação dos corpos, ela tinha de relatar o número de buracos de bala e de perfurações de faca, sob os olhos cúmplices dos policiais responsáveis pela investigação.

Nos deslocamentos entre um morto e outro, o veterano contava sobre como gostava de torturar “vagabundos” e lamentava o fim da ditadura. Quando a noite chegou, ele a levou ao plantão de polícia do pronto-socorro público. Lá ela viu uma mulher chegar gritando e chorando, com o corpo todo esfaqueado e o sangue saindo por todos os furos.

Pela mão, a mulher levava um menino com cerca de cinco ou seis anos. Quando a jovem repórter viu os olhos do menino, deu alguns passos e desmaiou no corredor do hospital. Quando acordou, descobriu que tinha urinado na roupa durante o desmaio.

O veterano a levou para casa no carro do jornal e, ao descobrir que ela morava sozinha, impôs sua autoridade para deixá-lo entrar, com a justificativa de que era sua responsabilidade profissional ter certeza de que ela, uma subordinada, ficaria bem. Enquanto a jornalista tomava banho, ele revistou a sua casa.

Nada pior aconteceu porque ela arranjou um jeito de dizer que o sogro era professor universitário e a família do namorado deveria estar preocupada com o seu atraso. Por muitos meses ela sentiu-se violentada e não conseguia dormir sozinha em casa. Trocou as fechaduras da porta, lavou todas as suas roupas, porque o veterano repórter de polícia as tinha tocado, e botou fora tudo aquilo que não era documento, inclusive seus bichos de pelúcia.

Assim eram as coisas há não tanto tempo atrás. E acredito que ainda sejam em algumas redações do país. A reportagem que gerou a polêmica não é um episódio isolado. Assim como a teia de responsáveis é ampla e não se restringe à repórter e ao apresentador. E, por fim, a realidade a que assistimos hoje é parte de um processo histórico da imprensa brasileira, com capítulos ainda obscuros.

Basta lembrar que conhecemos os nomes dos torturadores e dos legistas que assinavam os laudos falsos da ditadura, mas desconhecemos o nome dos jornalistas que foram cúmplices do regime também nos porões da repressão.

Uma linha de investigação interessante para um livro ou uma pesquisa acadêmica seria entender como a cultura da violência e a relação de promiscuidade de parte dos jornalistas de polícia com os aparatos de repressão da ditadura manteve-se e encontrou novas expressões a partir da retomada da democracia. Uma dessas expressões são os programas considerados sensacionalistas, mas com grande audiência, com reportagens como a que agora discutimos.

Estabelece-se no país a tolerância à violação dos direitos dos presos e dos pobres, mesmo na democracia – bastando apenas fazer uma careta e dizer que os programas são “sensacionalistas”. Os “esclarecidos” dizem que não assistem “a esse lixo” – e isso seria suficiente.

O “jornalismo sério” considera-se separado da ralé – e isso seria suficiente. Na prática, sabemos que, na guerra pela audiência, cada vez mais acirrada, a contaminação entre o jornalismo “sério” e o “sensacionalista” é crescente e estimulada. E, mesmo na imprensa considerada séria, parte dos jornalistas que cobrem a área, como se diz no jargão, continua “comendo na mão da polícia”. E não é uma parte tão pequena assim.

Se estamos discutindo esse episódio aqui é porque as pessoas estão usando a internet para exercer sua cidadania e se responsabilizar pela democracia, que vai muito além do voto. Usando os instrumentos da internet para exercer pressão legítima, forçando a quebra do corporativismo, o funcionamento das instituições e o cumprimento das leis. Não me parece que nos faltem leis – o que nos falta é justiça. E, para a parte mais frágil da população, acesso à Justiça.

Na semana passada, os responsáveis pela condenação e humilhação públicas de um suspeito negro, pobre e analfabeto descobriram que os jornalistas não estão acima da lei. Enfim, uma boa notícia.

Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada.


Azul compra Trip e eleva participação no mercado para 14%

TAM sai como a maior prejudicada, pois seu acordo de compartilhamento de voos com a Trip deve ser encerrado

Acionistas da Azul ficarão com 80% de participação na empresa, e os da Trip, com os 20% restantes

MARIANA BARBOSA - DE SÃO PAULO

A Azul Linhas Aéreas, terceira companhia de aviação do país, anuncia hoje a compra da Trip, maior empresa aérea regional da América do Sul.

Juntas, Azul e Trip têm participação de 14% nos voos domésticos, de acordo com dados da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) relativos a março.

Pelo acordo, os acionistas da Trip ficarão com uma participação de 20% na empresa. A bandeira Trip deve desaparecer, e a sede da empresa continuará em Barueri (SP), onde está a Azul.

Apesar de ver a sua participação na empresa cair de 100% para 80%, nenhum dos controladores da Azul sairá do negócio. Todos concordaram em fica com parcela menor de uma empresa maior.

A Azul e a Trip utilizam as mesmas aeronaves -Embraer e ATR-, o que facilita a união das operações.

Além disso, o perfil da Trip, com foco na aviação regional, complementa os negócios da Azul, que voa tanto para os grandes centros como para destinos mais distantes.

Hoje, a Trip é parceira comercial da TAM e alimenta os voos da líder de mercado com os seus voos regionais.

No passado, a TAM chegou a estudar a compra da Trip, mas o negócio acabou por não se concretizar.

SURPRESA

Segundo a Folha apurou, a TAM, que desistiu de operar voos regionais, foi surpreendida pela negociação com a Azul.

A transação deve levar ao rompimento do acordo de compartilhamento de voos entre a Trip e a TAM, que sai como a maior prejudicada no episódio.

Fundada em 2008 pelo brasileiro David Neeleman, a Azul avançou rapidamente e atingiu participação de mercado próxima de 10% nos voos domésticos.


LUIZ FELIPE PONDÉ

Comitês de depuração

Depois do dilúvio, surgem milhares de "resistentes" corajosos para colher louros que não merecem

IMAGINE PARIS entre 1940 e 1944. Ocupação nazista. Agora se pergunte: onde estavam os artistas e intelectuais, franceses ou não, naquele momento? Estes que gostam de posar de arautos da ética, da transparência e do bem.

Claro, houve a "resistência francesa". Se contarmos o número de pessoas cujos pais e avós foram da Resistência Francesa, não teremos franceses suficientes para completar a cota dos resistentes de cada família.

Provavelmente, os resistentes de fato não enchiam dois ônibus. A Resistência Francesa é um dos maiores mitos modernos, assim como a dinamarquesa, a sueca, a holandesa e outras. A falsa coragem não é privilégio de nenhum povo. A maioria conviveu com o nazismo. E conviveria de novo. Raros são os que se revoltam contra situações assim, porque simplesmente temos medo e somos seletivos em nossas prioridades morais -quando existem.

Em situações assim, pensamos primeiro no café da manhã, no almoço e na janta. No emprego, no cotidiano, nas vantagens que podemos ter, dadas as condições em que vivemos. Danem-se as vítimas.

O século 20 criou uma das maiores mentiras da humanidade: a solidariedade abstrata. Aquela que se presta direto do Facebook ou do cardápio orgânico.

Não quero dizer que "tudo bem ser covarde", desculpando nossos atos pela banalização do medo. Basta um só corajoso para a covardia revelar sua face vergonhosa. O que me espanta é a mentira moral que se conta negando a epidemia de covardia em situações como essas. E gente "chique intelectualmente" adora esse tipo de farsa.

Depois de passar o dilúvio, aí aparecem milhares de "resistentes" corajosos para colher os louros que não merecem. Onde estavam Sartre, Beauvoir, Camus, Picasso, Dalí, Mauriac, Colette, Malraux, Gide e outros luminares naqueles anos?

Se você quer saber, leia o maravilhoso livro de Alan Riding, "Paris, A Festa Continuou - A Vida Cultural durante a Ocupação Nazista, 1940-4", publicado pela Cia. das Letras. Trata-se de um painel definitivo do cenário intelectual e artístico da época, revelando detalhes do convívio "pacífico" da casta erudita francesa (e de estrangeiros que lá viviam) com a ocupação alemã.

Não se tratam dos reconhecidos fascistas e antissemitas franceses como Louis-Ferdinand Céline, o grande escritor e médico. Mas sim daqueles que ensaiaram uma resistência cultural tímida (que os alemães nunca levaram de fato a sério) a troco de permanecer vivendo suas vidas comuns de intelectuais e artistas "comprometidos com um mundo melhor" (risadas?).

Até o mercado das artes plásticas viveu um crescimento tímido, mas real, na época.

Não eram "colabôs" de fato ("colaboracionistas", termo usado na França para quem apoiou a ocupação nazista), apenas faziam teatro, escreviam livros, pintavam quadros, faziam música, bebiam vinho. E quando os Aliados libertaram a França, logo se apressaram em "provar" sua condição de membros da resistência "cuspindo" na cara de gente que, muitas vezes, os ajudou porque eram de fato "colabôs" e tinham acesso a favores nazistas.

Os "comités d' épuration" (comitês de depuração) se multiplicaram no pós-guerra e visavam estabelecer a verdade de quem era ou não "colabô".

Os alemães sabiam que, mantendo os salões, os cabarés, as "brasseries", os cafés, as livrarias, as galerias de arte e os teatros em atividade, ajudariam a manter os franceses e estrangeiros cultos "ocupados". Todo mundo sabe que o risco para regimes como o nazista está em quem pega em armas, e não em quem fala delas.

Por que a vergonha da casta artística e intelectual manchou tanto o nome da França? Porque se esperava mais deles.

Segundo Riding, o trauma francês com relação à covardia daqueles que se diziam combatentes do pensamento e da arte pode ter sido causada pelo fato de que, desde a Revolução Francesa de 1789, a França "é uma população educada para reverenciar ideias... Alguns consideram este um dos legados da revolução de 1789, a noção inebriante de que uma ideia traduzida em ação pode produzir uma mudança súbita, radical e idealizada".

Ledo engano.

ponde.folha@uol.com.br



Canta, dança e sapateia

Quem são os jovens atores estrelas de musicais no Brasil -e como se tornar um deles

GABRIEL JUSTO - COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Ao som de "Material Girl", de Madonna, Felicia chega ao palco sustentada por um enorme cifrão brilhante. Ela é uma das drag queens do musical "Priscilla, A Rainha do Deserto".

Por trás de um figurino glamuroso e de muita maquiagem, está o ator brasiliense André Torquato, 18, interpretando o primeiro protagonista de sua carreira.

Apesar da pouca idade, Torquato é considerado um dos nomes fortes dos musicais no Brasil. Ator desde os sete anos, já atuou em três grandes espetáculos desde que foi descoberto pelo diretor Charles Möeller, aos 15.

"Quando passei no teste para 'A Noviça Rebelde', me mudei para São Paulo. Depois fui convidado para o musical 'Gypsy' e tive que ser emancipado pelos meus pais, abrir uma empresa. Vi que a coisa tinha engrenado", conta ele, que trabalhou em "As Bruxas de Eastwick" interpretando o desengonçado Michael.

Mas Torquato não é uma exceção. Laura Lobo, 21, também faz parte do seleto grupo de jovens prodígios do teatro musical brasileiro.

Aos nove anos, integrava o elenco infantil do musical 'Les Misérables'. Aos 18, ficou conhecida pela personagem Martha, em 'O Despertar da Primavera'.

"Meu pai é músico e minha mãe é cantora. Toda a minha família sempre foi ligada à arte", diz ela, que hoje interpreta Vandinha no recém-estreado "A Família Addams".

O CAMINHO DAS PEDRAS

Ser reconhecido e fazer sucesso como Torquato e Laura é o que deseja uma galera que, incentivada por séries como "Glee" e principalmente pelo crescimento do mercado de musicais no Brasil, está se preparando em cursos especializados na formação de "performers".

A demanda cresceu tanto nos últimos anos que já há uma escola de teatro em São Paulo inteiramente dedicadas à formação desses "performers", atores que, como se diz, interpretam, cantam, dançam e sapateiam.

Para se ter ideia de como o mercado está aquecido, só a produção de "Priscila", musical protagonizado por Torquato, tem 27 pessoas no palco e o custo da produção se aproximou de R$ 10 milhões.

Ricardo Marques, diretor da 4Act Performing Arts, que recruta jovens para o gênero, diz que qualquer um que queira se tornar um ator de musicais tem chance.

"Nosso objetivo aqui não é pegar o melhor, mas sim o mais talentoso, o que tem maior potencial, e transformá-lo num artista completo."

Descobridor de talentos do teatro musical, o diretor Charles Möeller conta que antigamente era muito difícil achar atores jovens que cantavam e dançavam.

"Hoje em dia, eles já entenderam que existe lugar no mercado e que este pode ser um trabalho rentável, seguro e com inúmeras possibilidades", explica.

Quando perguntado sobre o que recomenda para quem quer seguir carreira na área, Möeller não tem papas na língua e faz alguns alertas.

"Caso essa vontade seja fruto de uma vocação, a pessoa vai precisar abdicar de muita coisa na vida -como baladas, amigos e viagens- para se estabelecer na profissão. Caso contrário, meu conselho é que desistam antes de começar, pois o mercado é muito complexo, terrível."

Ou seja: tem que ter dedicação e muita, muita força de vontade. Como para quase tudo na vida. A diferença é que dá para fazer isso de um jeito bem divertido: cantando, dançando e sapateando.


JAIME SPITZCOVSKY - jaimespitz@uol.com.br

Cães e a era Facebook

Em seu perfil, Beast -o cão de Mark Zuckerberg- tem a bagatela de mais de 570 mil usuários que o "curtem"

UM CHARMOSO puli, exótica raça húngara, galvanizou atenções num dos casamentos mais badalados do ano. Beast, na cerimônia, acompanhou a noiva Priscila Chan na passarela improvisada entre os cerca de 100 convidados para chegar a Mark Zuckerberg, o homem do Facebook. Sua bilionária companhia, além de oferecer um perfil do cão do próprio dono, também anunciou adesão a uma campanha contra as infames "fábricas de filhotes".

Em seu perfil, Beast tem a bagatela de mais de 570 mil usuários que o "curtem". Mas nem tudo é felicidade na página do pet, que insinua momentos de nostalgia. Parece, segundo o dono, sentir falta de ovelhas para cuidar. É um cão de pastoreio, distante das atividades de seus antepassados, hoje confortavelmente instalado numa casa em Palo Alto, na Califórnia.

O álbum escancara a vida do filhote da fase destruidora, ao, por exemplo, dilacerar um rolo de papel higiênico, à etapa adulta e adestrada. Em uma foto, Beast espera pacientemente a autorização para devorar um petisco.

O cão também demonstra se aborrecer com tecnologia. Zuckerberg surge numa imagem tentando "doutrinar" o amigo sobre as vantagens do mundo virtual, com a possível intenção de transformá-lo num nerd de quatro patas. Mais tarde, porém, o puli aparece ao lado de Priscila Chan e de um notebook, cheio de sono provocado, segundo o perfil, pelo computador.

Embora o cãozinho de origem húngara tenha rejeitado a tentativa de cooptação tecnológica, fiquei com a impressão de que foi engolido por alguns maneirismos urbanos ou efeitos colaterais tecnológicos. A raça se notabiliza pelas ramas de dreadlocks, ao estilo Bob Marley. Beast parece excessivamente penteado, lembrando maltês ou sheepdog. Pode ser também "chapinha canina", opção estética imposta pelo dono.

O Facebook constitui uma vitrine privilegiada para exibir e apreciar nossos amigos de quatro patas. A empresa busca ainda mostrar responsabilidade social ao anunciar, cerca de dois meses atrás, que embarcava numa campanha da centenária ASPCA, criada em 1866 para promover o bem-estar animal.

A companhia se comprometeu a banir anúncios de "fábricas de filhotes", simulacros de canis responsáveis pela produção em série de animais, sem condições de higiene, e preocupações com saúde e futuro dos reprodutores. Correspondem a versões humanas de um inferno dantesco imposto a cães.

Nos últimos dias, o FB também atraiu cinófilos ao servir de plataforma para disseminar cena registrada em Phoenix, no Arizona. A foto capturou a imagem de um pit bull ao lado de corpo da fêmea, da mesma raça, morta à beira da estrada, provavelmente por atropelamento.

O pit bull aparece deitado e esfregando o focinho na companheira morta. Permaneceu no local por mais de 14 horas, até que o corpo fosse recolhido. Não se arredou.