Reflexões sobre o fogo e a
felicidade
Diego
Schaun
Quando
as coisas são ariscas, os dedos queimam mais rápido. As frases de efeito ainda
deixam olhos marejados, cheios de esperanças, repentinas vontades de mudança e
felicidade. Ainda existem pessoas felizes. Muitas.
Outro
dia pensei uma bobagem, mas é até interessante, mas é bobagem mesmo. Imaginei o
fascínio que o homem dever ter sentido ao ver pela primeira vez o fogo. Ele
ainda nos impressiona. O fogo trouxe à minha mente lembranças da minha avó paterna,
que é muito religiosa. Uma católica de mão cheia.
Quando
pequeno, lembro-me de vê-la acendendo velas, às seis da tarde, na escada, nos
fundos da casa. Eram as promessas dela. Orações. Devoções. Às vezes ficava
parado um tempão olhando a chama trêmula, derretendo a parafina. O fogo é mágico.
Eu o acho mágico. Não pode ser palpável. É quente e transparente. Tem poder. É arisco.
Interessante
que na maioria dos casos, o fogo é sempre amarelo. Azulado de vez em quando. Vermelho
quase nunca. Amedrontador. Devastador. Lindo. Falar das fagulhas com mais
palavras seria um crime. Exemplificá-las com poucos adjetivos me faria hediondo.
O fogo está na categoria das coisas eternas. Ele não evoluiu. Só faz com que os
outros evoluam, ou não. O fogo dos australopitecus é o mesmo fogo que acende
teu cigarro. O homem mudou de forma. O fogo performance.
Tempos
atrás critiquei os fones de ouvido. Balela. Uso-os frequentemente e passaria
uma borracha em certas frases escritas por aqui, mas… Um dia, todos pagarão com
a língua, ou com o dedo. Pois bem, numa tarde qualquer, voltava para casa e vi
uma mulher, que passava ao meu lado numa alegria sem igual. Ouvia Marisa Monte.
O fone não estava alto. Ela cantava alto.
Desafinada
e alegre no coro dos contentes. Eu ri e olhei ao redor para ver se alguém havia
percebido a ausência de tons naquela voz, mas só eu ria. Por que eu ria? Porque
a gente criou regras internas que seguimos à risca. Com fé e velinhas na escada.
Andar pelas ruas cantando não pode. Amém. Vestir camisa de cor verde-bandeira
com calça laranja não pode. A não ser que você seja um músico do Restart. Amém?
Ah,
conterrâneo Rui Barbosa! Há quanto tempo eu recorro a ti? Quantas músicas e
poemas? Quantas conversas jogadas fora? Olha você aqui de novo. Rui, em um de
seus textos mais famosos, disse: “Sinto vergonha de mim”. Eu também senti
vergonha por rir da alegria alheia. No fundo era inveja. Um dia ainda vou sair
pela rua cantarolando. Numa segunda-feira qualquer. À tarde. Sol tinindo. Pessoas
com pressa. E eu cantando. Talvez um samba ou alguma canção desconhecida do
Alceu Valença. Irei.
A
gente deveria ser como o fogo. Evoluímos e geramos problemas e soluções. Às
vezes soluções demais para um problema. Dilemas em demasia ouvindo multidões em
silêncio. A alegria é assim. Ela nunca muda. Existe por diversos motivos. Nos
ajuda em variadas ocasiões. O fogo que ferve a água nos dá alegria. O fogo também
crema corpos. Apaga passados. Inaugura futuros. Destrói e traz respeito.
A
alegria também pode ser assim. Trazendo respeito, apagando os dias maus,
contagiando os que estão ao nosso lado… Debochar da alegria é como passar o
dedo no fogo. Quando via meu pai fazendo isso (passar o dedo na chama de uma
vela) imaginava coisas mirabolantes. Como é que ele não queimava o dedo? Ele
passava o dedo de um lado para o outro rápido demais. Não dava tempo de queimar.
Esse
é o risco. Esse é o tempo. O tempo certo de não se queimar. O tempo certo de não
ficar triste, definhando. Porque existe um tempo certo para ser alegre. Qualquer
hora. Esse é o risco. Esse é o tempo. Rir dos que nadam contra a ressaca
agitada que bate na orla e quebra as pedras é o mesmo que apagar a chama trêmula
da pequenina vela com os dedos cheios de saliva. Não dá tempo de queimar.
Ainda
existem pessoas felizes. Muitas.
