sábado, 9 de junho de 2018



09 DE JUNHO DE 2018

DAVID COIMBRA



O príncipe manda o número da conta bancária


Fernando Henrique Cardoso era chamado de "o príncipe dos sociólogos". O Brasil tem afeição por títulos nobiliárquicos, gosto adquirido no nosso longo período monarquista. Se você é poderoso, você é um barão; se é o melhor, como Pelé, é o rei; se tem elegância, é um príncipe.

Nelson Rodrigues chamava o meia Didi, do Botafogo, de Príncipe Etíope, porque Didi era dono de um futebol clássico, jogava de cabeça erguida e se orgulhava de jamais ter pisado em cima da bola.

FHC seria, assim, um príncipe na sociologia e na política. E, de fato, ele se comporta principescamente - tem fala mansa, deu aula na Sorbonne, escreve livros acadêmicos, faz pose de analista das nossas mazelas mundanas.

As investigações da Lava-Jato, agora, revelaram um pequeno pedaço da intimidade do príncipe. É um pedaço nada nobre. Na verdade, Fernando Henrique achaca empresários. Os textos dos e-mails que ele enviou para Marcelo Odebrecht são do nível do escroque vulgar, do apontador de jogo do bicho. Uma das correspondências Fernando Henrique encerra observando, com a maior desfaçatez: "Envio abaixo os dados bancários". Poderia ter enviado um boleto, que não seria mais direto. Em outro e-mail, no qual ele também pratica essa espécie de extorsão camarada, o título é: "O de sempre". Quer dizer: Fernando Henrique estava "sempre" mendigando a Marcelo Odebrecht.

Fiquei imaginando o que Marcelo Odebrecht devia dizer para seus assessores quando via piscar em sua caixa postal mais um e-mail do príncipe Fernando Henrique Cardoso:

- Aí vem esse cara outra vez pedir o meu dinheiro...

Se o PSDB tivesse defensores, além do Gilmar Mendes, alguém poderia alegar que isso não é ilegal, até porque Fernando Henrique foi esbulhar Marcelo Odebrecht depois de ter saído do governo.

Não é ilegal?

Deveria ser.

Afinal, por que Marcelo Odebrecht daria dinheiro a Fernando Henrique? Por simpatia ideológica? Se fosse isso, tudo bem, mas não é. Ao contrário, Marcelo Odebrecht deu ainda mais dinheiro ao PT, que é adversário do partido de Fernando Henrique.

Ora, você sabe, eu sei, o Brasil inteiro sabe que Marcelo Odebrecht e outros tantos empresários financiam políticos por aquilo que Brizola e seus bajuladores chamam de "interésses". É uma troca de favores. O empresário compra o político com dinheiro privado e recebe a contrapartida em dinheiro público, geralmente fazendo obras que custam muito mais do que deveriam custar. Em miúdos: o dinheiro que Odebrecht repassou para o príncipe certamente saiu da sua carteira, espoliado leitor.

Algum gaiato perguntará: "E isso tudo te surpreende?".

Respondo: claro que não. Nós todos sabemos, há muito tempo, como funcionam as relações de poder no Brasil. O que não tínhamos ideia era do quanto é escancarada essa promiscuidade entre políticos e empreiteiros, a ponto de um ex-presidente da República mandar por e-mail o número da conta bancária para o empresário fazer a sua "doação". E isso que se trata do professor da Sorbonne, do intelectual, do escritor de livros, do sociólogo. Do príncipe. Francamente, nós não somos mais plebeus. Somos os bobos da corte.

DAVID COIMBRA