quarta-feira, 20 de junho de 2018


18 DE JUNHO DE 2018
CÍNTIA MOSCOVICH

A BARBARIDADE DO PREFEITO


O mais novo susto da área da cultura, e que merece todo o alarido do mundo, é aquele boleto de cobrança que aterrissou na Câmara Rio-Grandense do Livro na semana retrasada e que demandava a quantiazinha de 180 mil reais pelo aluguel da Praça da Alfândega para a realização da Feira do Livro de 2018.

A barbaridade ainda repercute em nós, pessoal da área do livro, porque parece fruto de uma maquinação dos diabos, urdidura de gente que quer mesmo que as coisas deem erradas. (Revertendo: quanto vale o trabalho da Câmara, o ano inteiro na batalha para formar leitores? E o trabalho da gente que oferece seu tempo graciosamente para que todos desfrutem do mais amado evento dos gaúchos? Quanto a prefeitura desembolsaria para encher a praça de gente e de ânimo?)

Ninguém é obrigado a ter intimidade com essa história de livro ou literatura. Mas os estrangeiros no assunto podiam, pelo menos, fazer de conta e respeitar. A prefeitura, sob o comando de Marchezan, parece ter, digamos, se divorciado dos interesses da área literária: no ano que passou, quis cobrar taxa de lixo da Feira, além de ter retirado patrocínio do evento. 

Outros prefeitos disfarçavam a falta de jeito e demonstravam, pelo menos, um pouquinho mais de tato - até as pedras da Alfândega sabem que, apesar do afluxo de mais um milhão de pessoas, a Feira nunca foi exatamente biliardária em termos de vendas - livros são produtos baratos e, apesar da boa fama dos leitores do Sul, os papais que levam seus filhinhos à Feira fingem ser descolados mas gastam uma mixaria em livros.

Ninguém está se queixando, não é isso. Livreiros, editores, distribuidores, todo mundo está na área porque gosta e ninguém nunca teve a ilusão de que ia enriquecer. Mas daí a prefeitura espichar o olho e querer fazer da nossa Feira parte do vergonhoso caça-níqueis em que quase tudo na cidade se converteu, aí já fica um constrangimento sem tamanho.

Prefeito Marchezan, é o seguinte: ali é a nossa praia. A maioria de nós trabalha por quase nada, por puro amor, um dia o senhor há de entender. Se não dá para nos ajudar, por favor, não nos atrapalhe. Grata em nome de todos.

CÍNTIA MOSCOVICH