
11
de setembro de 2013 | N° 17550
MARTHA
MEDEIROS
Frances Ha: uma homenagem aos
errantes
Anda
difícil ser jovem. O leque de opções é farto e isso deixa qualquer um indeciso.
E, até quando se decide com alguma convicção, pouco adianta: onde foram parar
os empregos, onde estão os amores, o que fazer quando as coisas não saem como o
esperado?
De
uma coisa a protagonista de 27 anos do filme Frances Ha sabe: “dar certo” é
algo muito relativo – e restrito. Existem poucas vias para o sucesso e inúmeras
para o fracasso. A única maneira de conseguir vaguear pela vida sem lamentar as
tentativas frustradas é reconhecer que a normalidade também pode ser manca,
vesga e fanha. Mesmo quando tem chance de acertar, Frances prefere apostar no
azarão: “Gosto das coisas que parecem erros”.
E já
que ela revela isso com um sorriso no rosto, e não resmungando, subverte a
questão e mostra que o “erro” pode ser um estilo de vida aceitável, é só cuidar
para que ele não provoque isolamento nem nos conduza ao “ai de mim”. Arriscar
com graça e autenticidade pode ser um acerto do avesso.
Nem
todos querem ser campeões em tudo. Os errantes não aparecem nas colunas sociais
nem são exemplos de virtude, mas têm um jeito próprio de se expressar e de
existir, lutando para manter sua identidade mesmo na contramão do que se
estabeleceu como “certo”. Conheço, por exemplo, quem prefira dias nublados e
chuvosos, o que soa como errado, ainda que um erro poético.
Só
que a poesia não tem nada a ver com essa preferência. Um dia, essa pessoa me
confessou que gostava de dias nublados porque era quando não se sentia cobrada
a “aproveitar a vida lá fora”. Ela aproveitava a vida por dentro, e o clima
fechado era seu cúmplice diante de uma sociedade que decretou como certo que
todas as pessoas devem frequentar parques e praticar exercícios ao ar livre.
Quando chovia, ela tinha a rara oportunidade de se sentir enquadrada.
Há
caminhos bem sinalizados para se ter uma vida plena, saudável e com garantia de
receber uma estrelinha dourada ao final da jornada, mas há quem se sinta
tentado pelos desvios. Qual o problema de não querer ter filhos ou de não
desejar fazer parte da diretoria? Lembro de uma passagem divertida de um livro
de Martin Page. O personagem recebe uma promoção e a recusa, questionando. “Por
que sou obrigado a evoluir?”. O patrão insiste: “Mas você faz um trabalho
excelente!”. E ele: “Não faço isso de propósito”.
Há
quem não queira mais responsabilidades do que já tem, mesmo que isso implique
ganhar menos dinheiro. Quem decretará que isso é falta de rumo?
Errantes
somos todos, em algum aspecto. Fazer besteira para chamar a atenção é
contraproducente, mas optar por alternativas não abençoadas pelo senso comum
pode ser apenas uma maneira de levar a vida como se gosta.