
07 de setembro
de 2013 | N° 17546
SAÚDE
A SÍNDROME DO
SUPER-HOMEM!
ELES SE SENTEM
SUPER-HERÓIS. ACREDITAM ESTAR LIVRES DAS DOENÇAS E NUNCA PROCURAM
UM MÉDICO. PROFISSIONAIS DE SAÚDE TENTAM MUDAR ESSA MENTALIDADE
MASCULINA E
MOSTRAR QUE OS CUIDADOS
DEVEM COMEÇAR NA INFÂNCIA
Os amigos de redação
de Clark Kent jamais se perguntaram o porquê de ele nunca ficar
doente. Nem mesmo sua eterna companheira, Lois Lane, se dava conta de
que aquele nerd com óculos de aro grosso estava sempre com a saúde
perfeita. Ela e os colegas desconheciam que tamanho vigor vinha do
fato de ele ser o Super-Homem.
Super-heróis só
existem nos quadrinhos. Os humanos de verdade não podem prescindir
de visitas periódicas a médicos, de remédios para curar suas dores
ou de vitaminas para suplementar seus desarranjos. Mas uma questão
cultural acompanha o homem brasileiro: na cabeça dele, a
masculinidade pode se eximir dos cuidados básicos com a saúde. Ir
ao médico deve ser sempre a última atitude – nunca algo que possa
ajudar a prevenir um mal maior.
– Eles carregam o
estigma do Super-Homem: estar doente significa ser frágil.
Normalmente, o homem é o provedor ou foi criado com a cultura de que
precisa sê-lo – afirma Maria Aparecida Murr, médica do
ambulatório de saúde do homem de Sobradinho, centro piloto de
cuidados ao sexo masculino no Distrito Federal.
Essa dificuldade em
convencer os homens a procurarem os serviços de saúde se reflete na
quantidade dos que chegam aos consultórios já com problemas
crônicos. Pesquisa com 800 homens de Brasília, realizada pela
Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e pelo laboratório alemão
Bayer, mostrou que 50% nunca tinham consultado um urologista, 58%
nunca haviam feito exames para detectar o câncer de próstata e 38%
jamais aferiram seus níveis de testosterona (hormônio masculino).
– É um problema
cultural. Os homens latinos têm uma concepção de masculinidade que
os faz pensar que são invulneráveis. Soma-se a isso a dificuldade
que eles têm de acesso ao serviço público de saúde – afirma
Aguinaldo Cesar Nardi, presidente da SBU.
u Para os homens se não
há sintoma, não há doença
A teoria é comprovada
diariamente nos consultórios – isso, claro, quando os homens
decidem finalmente procurar um médico.
Com 64 anos, dois
infartos nos anos 1990, três pontes de safena, fumante e sedentário,
o representante comercial Byron Barretto é um ótimo exemplo de um
homem que, por estar saudável e livre de qualquer incômodo, nem
cogita a possibilidade de fazer prevenções planejadas. Aliás, ele
mal lembra a última vez em que foi ao médico.
– Há uns dois anos,
talvez – diz Baretto, tentando puxar pela memória.
Barreto não é
minoria. Os homens, em geral, pensam assim: sem sintomas, não há
doenças. Recomendações médicas abundam – poucas são seguidas à
risca –, assim como as taxas de mortalidade entre eles.
– A sobrevida dos
homens é até sete anos menor que a das mulheres – diz Maria
Aparecida.
RAFAEL CAMPOS
| DA PRESS/CORREIO BRAZILIENSE