
18
de dezembro de 2013 | N° 17648
MARTHA
MEDEIROS
Obesidade mórbida
Na
lista de autores a quem sou fiel, encontra-se a norte-americana Lionel Shriver,
que se destacou no mundo literário com seu perturbador Precisamos Falar sobre
Kevin e desde então vem lançando livros que de água com açúcar não têm nada: a
mulher é craque em colocar o dedo nas nossas feridas – e inclusive nas dela.
Desta
vez, a escritora inspirou-se num caso real. Em 2009, seu irmão faleceu por
problemas decorrentes da obesidade mórbida. E é sobre esse assunto que trata o
recém-lançado Grande Irmão, um convite a dar uma espiadinha num “Big Brother”
literal e incômodo: Shriver mostra como vive alguém que está bem acima do peso
ideal, e as implicações para os que estão ao seu redor.
No
livro, a personagem Pandora é uma empresária de Iowa, casada e com dois
enteados adolescentes, que um dia resolve hospedar seu irmão Edison, que mora
em Nova York e que ela não vê há quatro anos. Ao buscá-lo no aeroporto, não o
reconhece: ele, outrora um pianista de jazz bem-sucedido e boa-pinta, hoje
carrega 175 quilos de sedentarismo e fracasso.
Em
tempos politicamente corretos, ai de quem falar dos gordos. Mas sendo um
assunto de saúde pública, e com a obesidade aumentando em níveis alarmantes não
só nos Estados Unidos, mas em todos os cantos do planeta, não dá mesmo para
fingir que, dos problemas, esse é o menor. Até porque nada é pequeno quando se
trata de obesidade.
As
consequências de se estar muito fora de um padrão saudável são conhecidas:
dificuldade de realizar movimentos banais, preconceito, riscos de desenvolver
doenças cardiovasculares e diabetes, sensação de estar fora do mercado amoroso
e até mesmo profissional. É tudo dissecado no livro, mas a autora vai além e se
dedica a duas outras questões.
Uma
delas é que engordar não está relacionado apenas a comida, e sim a outras fomes
não saciadas. É quando a autora revela as compensações que algumas pessoas se
concedem a fim de sublimar os outros alimentos que a vida está lhes negando.
A
outra questão diz respeito a todos nós: se sabemos que alguém está fazendo mal
a si próprio e não consegue mudar seus hábitos, até que ponto os que estão de
fora podem e devem se intrometer? É possível socorrer alguém que está
visivelmente doente e que desistiu de se curar? Aliás, por onde começaria essa
cura? Por alguma dieta milagrosa? Ou por uma tomada de consciência mais
profunda?
Certamente,
a cura não virá de uma convocação para participar do “Medida Certa”, do
Fantástico. Lionel Shriver, com esse livro, faz um acerto de contas com o irmão
que partiu, tentando dar outro final à sua história particular, ainda que de
forma fictícia. No fim das contas, todas as histórias poderiam ser diferentes.
Uma angústia que permeia toda a obra da autora, e as nossas vidas também.