sexta-feira, 10 de julho de 2015


Jaime Cimenti

Por uma vida mais simples

Pode parecer estranho falar de vida mais simples no mundo de hoje, cheio de complicações de todo tipo, linguagens tantas vezes confusas, acordes dissonantes, parafernálias eletrônicas e digitais, sons, imagens e palavras em excesso e complicação até na hora de cozinhar e comer.

Por uma vida mais simples - Histórias, personagens e trajetória da simplicidade voluntária no Brasil (Cultrix, 232 páginas, www.livrovidasimples.com.br), de André Cauduro D'Angelo, professor da Pucrs e da ESPM-Sul, administrador de empresas e mestre em marketing pela Ufrgs, acaba de ser lançado. Em boa hora. Com apresentação da jornalista e escritora Danuza Leão, a obra foi inspirada, principalmente, na leitura do famoso livro norte-americano The Simple Life, do pastor francês Charles Wagner, publicado em Nova Iorque em 1901.

The simple life foi elogiado pelo presidente norte-americano Theodore Roosevelt em discurso e o autor foi recebido por ele na Casa Branca. Trinta e cinco anos depois do lançamento do livro de Wagner, Richard Barlett Gregg, discípulo de Mahatma Gandhi, escreveu o ensaio O valor da simplicidade voluntária, repetindo as lições de Wagner, ao que tudo indica sem ter lido seu livro. Em 1976, Duane Elgin e Arnold Mitchell, pesquisadores de Stanford, publicaram um relatório sobre tendências de comportamento que batizaram de "simplicidade voluntária".

Partindo de tais elementos e de dezenas de livros, e, principalmente, com base em depoimentos de brasileiros como Danuza Leão, Ricarto Setti, Luiz Jacques Saldanha, Paulo Roberto Silva e outros, André Cauduro D'Angelo fala da origem da palavra simplicidade, do bosque de Walden (e do livro de Thoreau) na Região Metropolitana de Boston e de como pessoas mudaram de vida, de modo radical, para viver de modo mais simples.

Milhares de pessoas questionaram a vida que levavam e procuraram a felicidade, deixando, por exemplo, a agitada rotina urbana para abrir uma pousada no litoral. Muitos questionaram o ter em detrimento do ser, a vida estéril em reuniões intermináveis, em escritórios inóspitos, e as cargas de trabalho cavalares, e deram pequenas ou grandes guinadas em suas vidas.

Num dos depoimentos, o arquiteto Carlos Alberto Capra, 58 anos, de Porto Alegre, diz: "nossa sociedade é baseada no 'ter para ser'. A roupa da moda, a etiqueta, a marca. Quando a gente descobre que não ter nada disso traz felicidade... é o grande momento". Com a mulher, Capra mudou de vida, construiu uma casa de 25 m2, no Interior, deixou um emprego público na Capital e passou a trabalhar como autônomo e a dedicar boa parte do tempo a projetos voluntários.

Com as lições do livro, as indicações bibliográficas do final e, especialmente, com os depoimentos dos "simplificadores", os leitores poderão ter diante de si uma perspectiva diferente, sem dúvida, sobre como viver a vida.

A propósito...

Danuza Leão mudou de casa 36 vezes, entre Brasil e exterior. Morava num apartamento com duas salas, três quartos, dois banheiros, quarto de empregada e tudo mais. Resolveu morar num apartamento com sala e quarto integrados. Teve que desapegar de montes de coisas, livros, cristais, roupas, obrigou-se a simplificar. A gaúcha Sônia Griebeler mudou de uma ampla casa em um condomínio para uma barraca enquanto aguardava a construção de uma nova casa e o momento de se aposentar de um emprego de bancária e mudar radicalmente de vida. Essas e outras histórias estão no livro, mostrando que simplificar é possível e, muitas vezes, necessário.