
Jaime Cimenti
Não é só
pelas casas da Luciana de Abreu
Quando escrevo estas linhas, deve estar correndo o prazo
para que o Ministério Público e a empresa construtora cheguem a um acordo sobre
o terreno e as casas da Luciana de Abreu. Pode ser que até esta sexta-feira,
quando este texto for publicado, as partes já tenham conciliado.
Se não houver acordo, o processo seguirá. Independentemente
do resultado das negociações, do julgamento final do Judiciário e da palavra final
do município de Porto Alegre, que virão a seu tempo, o tema despertou e
desperta saudáveis debates nas casas, nos bares, restaurantes, ruas, praças e
em vários canais de mídia. Mario Quintana escreveu que não gostava de
arquitetura moderna porque ela não sabia fazer casas antigas.
O genial arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright
criticava a altura exagerada dos arranha-céus, especialmente os de Nova Iorque.
A questão das casas da Luciana transcende - e muito - os limites do terreno,
das paredes das residências, das plantas, dos documentos e das questões
administrativas e judiciais do caso.
Um dia serão solucionadas. Espera-se que da melhor forma
possível. Casas antigas lembram tempos mais lentos, talvez mais elegantes,
galinheiros nos quintais, gatos, sapos, cachorros, hortas, velhos parentes,
lembranças de infância, gramados, flores, passarinhos, jardins, árvores
frutíferas, momentos familiares de alegria e tristeza, lágrimas e sorrisos do
passado, tempos de glória e de decadência e infindáveis histórias de pessoas e
de vidas. Casas antigas são muito mais do que pisos, paredes, janelas, escadas,
tetos e telhados.
Mesmo quem nunca morou em uma casa sabe do que estou
falando. Enfim, casas antigas são raízes e céus, são sonhos, memórias
inventadas ou não, e lembranças. A vida é sonho e os sonhos, sonhos são,
escreveu Pedro Calderón de la Barca há séculos. A casa onde eu vivi meus
primeiros anos, no interior, tinha anões de jardim, gramado para jogar bola e
até um pequeno parreiral. Não existe mais.
Quem a desenhou e a construiu, com grande carinho, foi meu
pai, que era geômetra. Ficaram as fotos, as lembranças e as energias. Prefiro
não lembrar da primeira vez que passei por lá e senti que a casa tinha ficado em pé só nos
alicerces da memória.
Coisas da vida, o tal
do progresso, a roda-viva girando, o tempo. Construções, desconstruções,
moderno, pós-moderno, vida e morte, perdas e ganhos, mas com Vivaldi e a
primavera sempre chegando, sagrados, acima das dores e dos prazeres de nossas
rápidas, lindas e tumultuadas passagens pelo planeta.