quinta-feira, 14 de maio de 2015


14 de maio de 2015 | N° 18162
DAVID COIMBRA

O chapéu negro de Heisenberg

Demos um chapéu para a Marcinha no Dia das Mães, eu e o Bernardo. Ideia dele, dólares meus.

Sábado de manhã, tomamos um trem e fomos a uma loja que só vende chapéus na sofisticada Newbury Street, a Padre Chagas de Boston. Às vezes, essa loja contrata uns músicos e oferece coquetéis para os clientes. As pessoas ficam lá apreciando o bom jazz, todos devidamente debaixo de seus chapéus, comendo canapés de lagosta, que a lagosta da cidade é famosa, e bebericando champanhe. Como diria minha amiga arquiteta Cris Camps, “a cara da riqueza!”

Mas não fui lá para convescotes. Fui lá para comprar um belo chapéu para uma bela mamãe.

Aliás, isso de Dia das Mães foi criado nos Estados Unidos pelo presidente Wilson, um dos melhores presidentes americanos, que há cem anos reformou o país internamente e, externamente, propôs a Liga das Nações, precursora da ONU. Se as outras lideranças mundiais tivessem aceito as ideias de Wilson depois da Primeira Guerra, talvez a Segunda não tivesse ocorrido.

Wilson instituiu a data inspirado por uma senhora que nem mãe era, mas que promovia dias de mães com objetivos beneficentes. Ela não aprovava o uso comercial da efeméride, dizem. Curiosamente, parece-me que o Dia das Mães nos Estados Unidos é menos explorado pelo comércio do que no Brasil, não vi tanto furor publicitário e... Mas estou tergiversando. Voltemos ao chapéu.

Compramos um lindo chapéu e, antes de ir embora, perguntei ao gerente da loja que modelo tinha mais saída. Ele respondeu que é o “chapéu de Heisenberg”. Vendeu todos, pediu mais para a fábrica e está aguardando ansiosamente nova remessa.

Sorri. O chapéu de Heisenberg.

Ocorre que, no dia anterior, havia assistido ao derradeiro capítulo de Breaking Bad, espetacular série da TV americana. Estou atrasado um ano, bem sei, mas, essas séries, prefiro vê-las depois de prontas, no ritmo que melhor me convier.

Heisenberg é o pseudônimo que o protagonista assume quando se torna mau, nome que ele, obviamente, tomou do grande físico alemão ganhador do Prêmio Nobel Werner Heisenberg. Quando o personagem se transforma em Heisenberg, ele se põe sob um chapéu preto de aba estreita, muito estiloso.

Breaking Bad talvez só não tenha sido melhor do que Roma, outra obra-prima da TV. Ambas, Roma e Breaking Bad, estão cheias de referências, citações e pequenas correlações que as enriquecem e as tornam intrigantes.

Breaking Bad açula a inteligência do telespectador até pelo título. Seria, segundo li, uma gíria do sul dos Estados Unidos que definiria a pessoa que “se desencaminha”, como diria minha avó.

Eu, aqui, faço outra interpretação. Digo que é um trocadilho com sentido profundo para todos nós, seres humanos. Breaking “bread” significa “repartindo o pão”. É o nome do livro de orações de igrejas católicas dos Estados Unidos. Breaking bad, portanto, seria “repartir o Mal”.

Jesus, enquanto repartia o pão e transformava cinco côdeas em 5 mil, alertava:

– O Mal é o que sai da boca do homem. Cada um julga os outros com sua própria medida.

Não é exatamente assim? Você pode ver o lado bom ou o lado mau de qualquer coisa. Depende de você, que olha, não do que é olhado. E, quando você vê o Mal e o manifesta, é o seu Mal que lhe sai da boca. Você reparte o Mal, seja pessoalmente, seja pelas redes sociais da vida, seja destratando alguém no trânsito. E o Mal se espalha e se torna maior e contamina a todos e a tudo.

Breaking bad. Repartindo o Mal. Muitos passam os dias se ocupando disso, mesmo sem estar debaixo do chapéu negro de Heisenberg.