sexta-feira, 30 de outubro de 2020


30 DE OUTUBRO DE 2020
EDUARDO BUENO

Brutalismo

Desde o início, se trata de uma rua perigosa. Batizada de Estrada da Aldeia, conduzia do centro de Porto Alegre até a Aldeia dos Anjos (hoje Gravataí), onde, em cruel brutalismo, viviam confinados os guaranis sobreviventes à destruição das Missões. Depois que um tal Barbosa Mineiro ergueu seus moinhos de vento (na esquina com a atual Barros Cassal), ela passou a ser chamada de Estrada dos Moinhos. Mas em 1835, quando os farrapos sitiaram a Capital e se puseram a bombardeá-la a partir do Guaíba, usando os moinhos para ajustar a mira de seus canhões, eles tiveram que ser derrubados. Foi um duplo brutalismo.

Após a derrota dos quixotescos farroupilhas, a rua continuou a ser a "dos Moinhos", embora eles não estivessem mais ali. A via só virou 24 de Outubro em 24 de outubro de 1933: foi uma comovente homenagem ao golpe militar de 24 de outubro de 1930, quando os milicianos e as cavalgaduras de Vargas marcharam até o Rio de Janeiro exportando para o resto do Brasil seu gauchíssimo brutalismo. Nessa época, os figurões da sociedade - varguistas, quase todos - moravam em casarões na Rua dos Moinhos: A.J. Renner, Dal Molin, Aranha.

Depois que Vargas saiu da vida para entrar na história, JK assumiu e o Brasil passou a se modernizar, os casarões da 24 começaram a ser derrubados um a um. A mansão que ficava na altura do número 1.000, à sombra de um guapuruvu em flor, veio abaixo em 1963. Em seu lugar surgiu um elefante branco que eu, particularmente, sempre achei medonho. Mas é um monstrengo com grife: foi projetado pelo emérito David Libeskind, que já havia feito outro espigão famoso: o horrendo Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. O estilo arquitetônico do qual Libeskind (1928-2014) foi um expoente chama-se... brutalismo paulista.

O prédio que ele fez em Porto Alegre (aliás, se autoplagiando, pois é cópia quase exata de um que fica em São Paulo) chama-se Floragê. Apesar do sabor francês, dizem que o nome provém das iniciais de três mulheres: Flora, Raquel e Geni. Conheço bem o prédio - e várias histórias dele - desde 1967. Conheço ainda melhor o guapuruvu que fica (ou devo dizer ficava?) em frente. Escrevi sobre ele aqui mesmo. Sábado passado, como ZH noticiou, tentaram derrubar a árvore. Por um de seus galhos ter caído, o guapuruvu foi condenado à morte pelos moradores do mausoléu marmorizado. Mobilização popular salvou-lhe ao menos o caule, embora o tronco com os braços amputados agora mais pareça um aleijume.

Não fui consultado, mas tinha uma singela sugestão para o caso: interditar a 24 de Outubro - que sempre foi uma rua perigosa - e derrubar o elefante branco. Como os guapuruvus só vivem cem anos e esse já tem uns 70, daqui a três décadas a rua reabriria. Já o prédio, não sei - ele sempre me pareceu um típico exemplar do brutalismo.

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 29 de outubro de 2020


29 DE OUTUBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

O mundo da lua 

Talvez ir morar na Lua não seja uma ideia tão ruim, afinal. A Nasa descobriu que existe água lá, em algumas crateras, e possivelmente abaixo do solo também. Isso significa que há condições para se fazer assentamentos humanos no nosso amado satélite.

Alguém pode achar que viver na Lua se trata de possibilidade remota, que não é coisa para já. Ora, não subestime a engenhosidade do homem, lembre-se de que nós fomos capazes de realizações extraordinárias, como o biquíni asa-delta e o bacalhau à Gomes de Sá.

Pense na Lua como a Austrália no tempo do seu descobridor europeu, o capitão Cook. Naquela época, século 18, a Austrália parecia longe como outro planeta. Os condenados que fossem enviados para aquelas lonjuras sabiam que voltar à Inglaterra era praticamente impossível. E olhe no que a Austrália se transformou: um país moderno, com praias de paraíso, cangurus saltitantes e a loira Margot Robbie.

A vantagem de se mudar para a Lua será, exatamente, o isolamento. Porque hoje, na Terra, você não fica isolado em parte alguma. Você pode estar confinado em casa por causa da pandemia, você pode estar passando férias no Alasca ou na Sibéria, não importa, a internet nos conecta de forma instantânea, estamos sempre sabendo de tudo e falando com todos, a todo momento.

Não na Lua. Na Lua, suponho, não pega internet nem TV a cabo. Ou seja: quem viver no mundo da lua só conversará com outros lunáticos. O que pode ser ótimo, porque você participará de fato da comunidade, se inquietará com seus problemas e tentará resolvê-los. Com os australianos pioneiros deve ter sido assim.

Eu, quando morei em Santa Catarina, nos anos 80, me sentia mais distante do Rio Grande do Sul do que quando morei nos Estados Unidos, no século 21. Nos anos 80, a ligação interurbana era muito cara e não existia a possibilidade de ver alguém em vídeo. Nem a Rádio Gaúcha dava para escutar, a não ser que se tivesse um daqueles enormes rádios Transglobo.

Na Lua será igual. Se formos para lá, eu e mais alguns amigos que convocarei, poderemos construir um mundo novo, sem os vícios deste. Já sabemos o que não funciona, não repetiremos os erros. Teremos a chance de fazer tudo certo, desta vez.

Só pode chuteira preta e camisa para dentro do calção, todas as cervejas serão geladas, os políticos não receberão salários, as rádios não tocarão funk, rap ou sertanejo, poderemos fazer a sesta depois do almoço e não haverá campeonatos de pontos corridos. E o mais importante: tem como selecionar só pessoas com senso de humor para colonizar a Lua? Que método usaremos para identificar gente que se leva a sério, a fim de deixá-las cá embaixo, com os terráqueos chatolas? Preciso estudar isso. Não quero, de jeito nenhum, levar pessoas que julgam outras pessoas, no nosso novo e belo mundo lá em cima.

DAVID COIMBRA

29 DE OUTUBRO DE 2020
NÍLSON SOUZA

O livro e o tempo 

Livros... livros? Melhor não lê-los! Mas, se não os lemos, como sabê-lo?

Perdão, Vinicius, mas não pude resistir à analogia com o seu Poema Enjoadinho ao me dar conta de que nesta quinta-feira, 29 de outubro, celebra-se o Dia Nacional do Livro no Brasil e, amanhã, começa oficialmente a primeira Feira do Livro Virtual de Porto Alegre, com uma palestra remota da minha escritora preferida, a chilena Isabel Allende.

Pelo que me lembro, acho que já li quase metade de sua extensa bibliografia: A Casa dos Espíritos, De Amor e de Sombra, Eva Luna, O Plano Infinito, Paula, Afrodite, Filha da Fortuna, Retrato em Sépia, A Cidade das Feras, A Soma dos Sias, O Caderno de Maya e até a folclórica lenda do Zorro, o herói mascarado do cinema e das histórias em quadrinhos, reencarnado no texto talentoso de Isabel Allende. Ganhei o livro em plena quarentena, da querida amiga Rosane Tremea, juntamente com um vidro de biscoitos caseiros de sua própria lavra. Programa completo: um bom livro, biscoitos deliciosos e tempo para ler...

Tempo? Aí chegamos ao busílis. Outro dia o pessoal da Padula Livros desenhou na lousa da calçada da Rua Fernando Machado a jiboia que engoliu o elefante, com uma frase pra lá de inspirada: "Se você acha que isso é um chapéu, está precisando ler mais". Pois bem, se algum raro leitor desta crônica não sabe o que é busílis, talvez esteja precisando ler mais.

E onde arranjar tempo para ler livros, mesmo em meio a essa quarentena eterna? Lamento concluir com uma nota de desencanto, mas estou cada vez mais convencido de que a internet e a tecnologia do mundo virtual, essas mesmas que nos permitirão ver e ouvir Isabel Allende na Feira do Livro sem sairmos de nossas casas, estão cobrando um preço demasiado caro pela magia.

Nosso tempo e nossa atenção.

E, por favor, não tentem me consolar com essa história de que nunca lemos tanto quanto agora, com a comunicação digital, celulares e outros suportes eletrônicos de leitura. Já está provado que esses aparelhos mais nos leem do que são lidos por nós, pois os algoritmos precisam saber o que fazemos, o que comemos, o que vestimos, quanto dinheiro temos no banco e como gastamos o pouco tempo que nos resta quando estamos desconectados.

Livros... Livros... Se não os lemos, como sabê-lo.

NÍLSON SOUZA

O IDOSO NAS ELEIÇÕES

Ex-juiz do TRE-RS e presidente da Associação dos Juristas Católicos do RS

Votar é dever indeclinável e direito irrenunciável, emanados da Carta Magna. Embora haja os que pugnam em contrário senso: real acinte à cidadania. Todavia, por implemento de idade é facultativo aos maiores de 70 anos; porém muitíssimos não se exoneram por entenderem como oportunidade de ação cívico-política em prol da afirmação democrática. Indubitável, pois, a significação do instrumento voto por propiciar a que cada um assuma quota de responsabilidade no advir. A nação está a vivenciar circunstância dramática: nefasta pandemia global a dizimar distintas camadas populacionais e, principalmente, os longevos, apontados pelos sanitaristas como em faixa de altíssimo risco a exigir cautela máxima, redobrados cuidados à saúde e rigoroso cumprimento de protocolos sanitários, como amplamente divulgado pelos meios de comunicações.

Nesta linha, o jornalista Tulio Milman, em seu Informe Especial, atento e apreensivo ante o terrível flagelo vigente e severas implicações, suscitou (sob criteriosa argumentação) que o idoso "Se puder, não vote", no pleito vindouro. Logo adiante, o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, entrevistado sobre atuação geral do órgão e em relação a medidas para resguardar vidas dos anciãos, pronunciou-se categoricamente: "Risco zero, só se não tiver eleição"! Portanto, a bem caracterizar o atinente aos perversos efeitos da peste covid-19 e no tocante à magnitude da problemática. Então, de admitir como pertinentes o tanto que preconizado pelos "experts" das áreas todas envolvidas em abnegado e denodado enfrentamento da crise. Donde o idoso ir ou não ir às urnas, evidentemente, será genuína opção de estrito livre arbítrio e em virtude de profunda reflexão.

De conseguinte, qualquer que seja a decisão, imperioso prevalecer a consciência de quão importante é não descurar das eleições municipais já designadas, que certamente terão consequências para as coletividades: para o bem ou para o mal.

Em última análise, não é apenas desejável mas absolutamente imprescindível - do alto da experiência e fundamento na lógica - caber ao idoso atuar, também, através de trocas de ideias/opiniões, junto a familiares e a círculos de relações, sobre candidatos, condutas público-privadas, programas propostos etc. Donde: por qualificadas convicções, sensatas palavras e natural ascendência, o idoso desempenhará papel notável, tanto pela ação de esclarecimentos quanto pela valiosa influência. Enfim, em efetivo civismo o eleitor de idade avançada participará, positivamente, com foco em que o processo eleitoral tenha o condão de concorrer para eficaz desenvolvimento sócio-político-econômico e justa realização do bem comum.

THIAGO ROBERTO SARMENTO LEITE

29 DE OUTUBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

A PANDEMIA NÃO ACABOU 

A melhora lenta e paulatina observada nas últimas semanas no número de casos e hospitalizações por covid-19 na Capital foi freada. Com isso, acendeu-se uma luz amarela. Mesmo que as variações possam ser tratadas como uma estabilidade que não escapa aos cenários previstos, o fato é que foi reportada na terça-feira uma alta nas médias móveis diárias de novos casos e de ocupação de leitos de enfermaria em Porto Alegre. Não nas de UTIs. Se não existe motivo para temor exacerbado, uma vez que o aumento das infecções poderia ser esperado com a liberação gradual de mais atividades, com maior circulação nas ruas motivada por vários fatores, entre eles a volta às aulas em algumas escolas, há fortes razões para reiterar que a pandemia não acabou e que ainda não é possível levar uma vida normal.

A situação dos Estados Unidos e da Europa, que assistem ao recrudescimento da crise sanitária, deve servir de exemplo para o Brasil e para o Rio Grande do Sul. Especialmente no Velho Continente parecia que os dias mais duros tinham ficado definitivamente para trás, mas há uma temerária segunda onda em curso, levando vários governos a adotar mais medidas restritivas de circulação. Países como Itália e Espanha estão sob toque de recolher. França e Alemanha anunciaram ontem lockdown parcial. No Brasil, o Amazonas, especialmente Manaus, também volta a preocupar, inclusive com lotação de UTIs.

No Rio Grande do Sul e na Capital, a curva descendente dos casos e internações, principalmente a partir de setembro, levou as autoridades a afrouxar limitações e a liberar cada vez mais atividades. Ter de voltar atrás levaria a prejuízos ainda maiores para a economia. Mesmo assim, os indicadores que norteiam o sistema de bandeiras do modelo criado pelo Estado devem ser o guia das decisões, independentemente de eventuais desgastes políticos e eleitorais. É preciso afastar qualquer risco de reaceleração de mortes, que superam 5,6 mil no Rio Grande do Sul e 158 mil no país. Chegou a hora, portanto, de reforçar os alertas para os cuidados básicos de proteção para evitar um retrocesso.

A despeito do cansaço após sete meses de limitações para tarefas básicas, trabalho e lazer, segue como dever de cada cidadão colaborar para que os números, em breve, retomem a trajetória de queda. Resguardar-se de aglomerações, manter o distanciamento social e hábitos como lavar frequentemente as mãos, usar álcool gel e lembrar da etiqueta respiratória continuam decisivos. Assim como o uso de máscaras. Apesar do desconforto maior com a chegada dos meses mais quentes, é uma atitude que salva vidas. Um novo feriadão se aproxima e é preciso renovar o apelo pela prudência. Nas maiores cidades, nas pequenas comunidades e nas praias, que recebem um grande afluxo nesses períodos, as cautelas não devem ser negligenciadas.

Com a campanha eleitoral em andamento, os próprios candidatos e seus apoiadores deveriam dar o exemplo e evitar ajuntamentos, apertos de mãos e distribuição de santinhos. Enquanto o mundo espera o anúncio de uma vacina segura e eficaz, a única forma de combater uma nova escalada da covid-19 é contar com a responsabilidade individual, para proteger a cada um e a todos.


29 DE OUTUBRO DE 2020
L.F. VERISSIMO

Linguiça 

Minha avó Ema usava uma expressão que nunca chegamos a decifrar exatamente, embora seu sentido fosse claro: "Pendura na linguiça". Uma notícia sem importância, uma informação absolutamente inútil, uma fofoca irredimível? Pendura na linguiça. De onde a vó Ema tirara a linguiça, de que lembrança de um remoto passado rural ela trouxera a frase pronta, ninguém sabia - acho que nem ela. Mas a frase foi adotada pela família. O destino do que era falso ou irrelevante era ser pendurado numa linguiça, na companhia presumível de tudo o que tradicionalmente enche as linguiças.

Grande parte do discurso público ouvido no Brasil não merece outra coisa além de ser pendurada na linguiça. Não se trata de fake news fabricada especificamente para confundir, ou a retórica vazia do discurso político, facilmente caricaturável, nem o folclore instantâneo do mal-explicado dinheiro entre as nádegas. Trata-se do discurso oficial, ou pseudo-oficial, do governo, a língua com a qual o poder se comunica e se desnuda, e expõe sua mediocridade. A língua de um governo de generais de fatiota comandados por um capitão e seus filhos e dividido em facções que não se entendem só pode ser a língua do caos disfarçado. Pior do que isto é quando o próprio capitão parece ter um gosto pelo caos.

Para um dos seus musicais de sucesso na Broadway, o compositor americano Stephen Sondheim escreveu uma canção na qual uma veterana atriz lamenta que sua vida acabou como um circo vazio, sem público, sem brilho, sem amor, sem nada. E ela canta "Que entrem os palhaços", pois só faltam palhaços para que o cenário da sua tristeza volte a ser um circo. O mesmo melancólico fim nos espera num Brasil que cada vez mais se parece com um circo falido. Para ser um circo, só faltam os palhaços. Onde estão os palhaços? Não é preciso procurá-los. Os palhaços somos nós.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 28 de outubro de 2020


28 DE OUTUBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

O dia em que os bárbaros venceram 

Tenho pensado muito em Tusnelda. Ontem mesmo, ao acordar, abri os olhos e a primeira coisa que pensei foi:

"Por Tusnelda! Vamos nos erguer e vencer a batalha do dia!"

E me ergui e venci. Mais tarde, estava jogando um xadrezinho online e meu adversário, um ucraniano, veio com um gambito da dama. Gritei para mim mesmo:

"Por Tusnelda! Vencerei esse ucraniano sacripanta! "

Pois venci de novo. Tusnelda, Tusnelda. É uma personagem de Barbarians, série bem curtinha da Netflix, tão somente seis capítulos, e do tipo que gosto, porque trata de um evento histórico. É sobre um confronto que definiu o destino de parte do Ocidente, a Batalha de Teutoburgo.

Essa batalha é um clássico, germanos versus romanos. Sou germanos desde criancinha. Sempre torci contra os romanos, quero deixar bem claro. Acho que todo mundo torce contra eles, e é por isso que as historinhas de Asterix e Obelix fazem tanto sucesso. Só que os gauleses foram de fato submetidos por Júlio César. Os germanos, não.

Os germanos eram grandes, louros e ferozes, como se todos fossem Kannemanns. O problema é que lutavam uns contra os outros, o que dava vantagem aos disciplinados e eficazes romanos. Os germanos nem se consideravam germanos, na verdade. Quem os chamava assim eram os romanos. A primeira identificação deles como povo se deu exatamente na Batalha de Teutoburgo. Liderados por Armínio, eles dizimaram três legiões romanas, a XVII, a XVIII e a XIX. Mais de 20 mil romanos morreram ou foram reduzidos à escravidão, enquanto do lado germânico houve perda de apenas mil guerreiros.

A fragorosa derrota romana passou a ser designada como "O Desastre de Varo", nome do oficial que comandava as legiões. O imperador Augusto, quando soube do revés, rasgou a toga que o cobria e passou dias sem se barbear. Por meses, ele volta e meia batia com a cabeça num pilar do palácio e gemia: "Varo, Varo, devolva as minhas legiões!"

Varo não podia devolver coisa alguma. Sua cabeça havia sido separada do corpo por um golpe de gládio e, depois, fora espetada na ponta de uma lança.

A vergonha dos romanos foi tamanha que as legiões XVII, XVIII e XIX acabaram abolidas do exército. Depois daquela batalha, os romanos, prudentemente, se mantiveram atrás do Rio Reno, o que propiciou grande distinção entre as culturas do norte da Europa em relação à cultura latina.

Tusnelda teve papel importante na batalha, mas muito mais na série da TV. Ela é interpretada por uma jovem atriz alemã chamada Jeanne Goursaud. É uma loirinha de lábios cheios e olhar desafiador. Ela ganha a série. O espírito ancestral dos bárbaros germânicos parece que foi incorporado por ela, ela é uma valquíria destemida, indignada, resoluta, que sabe o que tem de ser feito. E faz. Na série, é ela que mostra aos germanos o caminho a seguir, e eles a seguem, mesmerizados por seu feitiço. Jeanne consegue dar vida a essa personagem e vira o centro da história.

Eu, aqui, no Sul do mundo, fui cativado por Jeanne, até porque ela me lembrou dos meus antepassados germânicos. Pensei que o velho sapateiro Walter gostaria de ver essa série de TV. Pensei que provavelmente ele também se encantasse com a loira Jeanne. E que, talvez, uma manhã, ele bem poderia proclamar, ao abrir os olhos pela primeira vez:

"Por Tusnelda! Vamos nos erguer e vencer a batalha do dia!"

DAVID COIMBRA

28 DE OUTUBRO DE 2020
ARTIGOS

A internet não se cansa de odiar, mas deveria

Promotor de Justiça | marchesan@mprs.mp.br

A notícia no final de agosto era a neve que caía na serra gaúcha. A matéria turística fez brotar nos comentários, gratuitamente, recriminações apelando para disputas regionais ao comparar o clima gaúcho com o carioca, do tipo: somos melhores porque temos a praia, nós melhores pelo frio. Alguém depreciou a neve porque viajaria a um rico país europeu para vê-la, meteorologistas amadores analisando com lupa um floco para refutar o fenômeno, e por aí foi. Um texto apolítico e apartidário causando um alvoroço sobre o "aquecimento global" e o coronavírus.

Mas o que explicaria que um registro simples do tempo despertasse bairrismos, censuras ácidas, algumas com viés político? Certamente a necessidade humana de odiar, por vezes maior do que a de amar. Era a obrigação autoimposta de criar um inimigo, aumentá-lo, odiá-lo, para então mostrar-se maior do que ele ao derrotá-lo. Umberto Eco falou sobre a necessidade de inventar um inimigo quando teve de explicar a um taxista quem eram os inimigos da Itália, internos talvez, porque não pôde citar algum país. 

Sartre afirmou que não nos reconhecemos como eu a menos que nos comparemos ao outro, que precisa ser o inferno para que eu seja o paraíso, mas preciso diminuí-lo ou destruí-lo. Friedrich Hayek acreditava que era quase uma lei da natureza humana ser mais fácil para os homens concordarem com um programa negativo - o ódio a um inimigo ou a inveja aos que se acredita estarem em melhor situação - do que sobre qualquer plano positivo.

A luta contra os que se acham fora do grupo, a crítica vazia, a destruição do outro parecem ser mais meritórias do que a construção do eu sem o ódio. É mais útil ver o não eu apenas como adversário, não inimigo, na política, no futebol, na teoria econômica, sem que precisemos destruí-lo para nos erguermos. Não nos fazemos melhores quando transformamos uma notícia de neve num áspero debate, porque o ódio cansa e cega sem que percebamos, como diz a música do Nenhum de Nós.

ANDRÉ RICARDO COLPO MARCHESAN

28 DE OUTUBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

À ESPERA DA NOVA PONTE 

Após reiterados contratempos, atrasos por falta de verbas e revisões de cronograma, típicos das obras públicas no Brasil, parece que os gaúchos poderão finalmente, até o encerramento do ano, utilizar a nova ponte sobre o Guaíba. A promessa é do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, que na segunda-feira esteve em Porto Alegre para vistoriar a obra e cumprir outros compromissos. Mesmo que o projeto ainda permaneça inconcluso, pela necessidade de remover cerca de 460 famílias para construir um dos acessos, trata-se de uma importante notícia para o Rio Grande do Sul. Há décadas o Estado aguarda uma opção para a atual travessia, desafogando o trânsito para acessar e deixar a Capital pelas BRs 290 e 116 e minimizando os transtornos que surgem a cada vez que seu vão móvel precisa ser içado.

A nova ponte sobre o Guaíba sempre foi uma obra prioritária para o Rio Grande do Sul. Estima-se que, em seus 12,3 quilômetros, transitarão diariamente cerca de 50 mil veículos. Mesmo que a morosidade tenha sido uma constante, com períodos inclusive de paralisação dos trabalhos, se aproxima agora o momento de usufruir de seus benefícios, tanto econômicos quanto de ganho de tempo para motoristas. Soma-se a essa vantagem a certeza de que o trânsito entre as regiões ligadas pela atual ponte não será simplesmente interrompido, como ocorreu diversas vezes nos últimos anos, por problemas no vão móvel. As obras, iniciadas em 2014, deveriam ter sido concluídas em 2017. Serão pelo menos três anos de atraso, mas não se pode negar que houve esforço dos três governos que começaram e agora vão concluir o projeto, de Dilma Rousseff a Jair Bolsonaro, passando por Michel Temer, contando ainda com a mobilização da bancada gaúcha para reverter os constantes problemas de recursos.

Após a nova ponte do Guaíba ganhar uma perspectiva mais concreta de liberação, restam outras frentes do governo federal no Estado com sérias pendências. No caso do trecho sul da BR-116, a expectativa é de que a duplicação seja concluída até 2021. Mas, iniciada em 2012, deveria ter sido entregue em dois anos. Agora, é o Exército que trabalha no trecho. Ainda mais lenta é a duplicação da BR-290, entre Eldorado do Sul e Pantano Grande. Devido à escassez de recursos, o governo federal, de forma acertada, iniciou estudos para conceder a rodovia e, assim, deixar para o futuro concessionário a conclusão.

Sabe-se que o Brasil é um cemitério de obras inacabadas, verdadeiro sumidouro do escasso dinheiro público. São rodovias, ferrovias, pontes, prédios e projetos de diversas finalidades anunciados com pompa, mas em seguida relegados ao abandono, paralisadas por planejamento equivocado, falta de verbas, irregularidades de toda ordem ou condenadas a andar a passos de tartaruga, levando frustração às populações que seriam beneficiadas. Em regra, deterioradas, acabam custando ainda mais caro para o contribuinte. O investimento em infraestrutura é, de qualquer forma, essencial para o desenvolvimento de qualquer Estado ou país. Com o grave problema fiscal brasileiro, que leva à quase inexistência de orçamento para grandes obras, fica ainda mais claro que a saída mais viável é, daqui para a frente, apostar em concessões e em parcerias público- privadas (PPPs).


28 DE OUTUBRO DE 2020
O PRAZER DAS PALAVRAS

E segue a pandemia

Continuo a esclarecer, abaixo, as dúvidas que as aulas on-line despertaram nos adultos atentos que estavam por perto. Como ninguém quer que seu pimpolho receba alimento de má qualidade, compreendo muito bem o zelo desses pais; confesso que eu mesmo vou conferir no Google, quando posso, as informações que minhas filhas deixam vazar na hora do almoço. Ter dúvida, portanto, é legítimo e aconselhável, mas posso assegurar que, em todos estes casos, a forma empregada pelo professor é a mesma que eu empregaria. Como nas edições anteriores, o nome e a localidade de origem foram omitidos.

1) Próximo, próxima - "No material que a professora mandou baixar, havia um roteiro de visita a uma praça importante da cidade. Além de vários pontos para observar, ela mandou prestar atenção especial à estátua que fica próximo à igreja. Saí há muito tempo do colégio, mas se é estátua, não deveria ser próxima?"

Resposta - Muitas palavras podem pertencer a duas ou mais classes gramaticais diferentes. Para entender o que isso significa, sugiro imaginar uma pessoa que tenha duas cidadanias e, por consequência, possua dois passaportes. Os direitos e deveres relativos a um dos passaportes não serão os mesmos relativos ao outro. Assim, próximo pode ser adjetivo (próximo ano, próxima vítima, parentes próximos) ou um advérbio (Ela mora próximo daqui). Com o passaporte de adjetivo, ele tem direito a flexionar em gênero e número; com o de advérbio, porém, ele será obrigatoriamente invaríavel. Como fica claro que aqui a professora usou o vocábulo como advérbio, (perto da igreja), ele não desfrutará do prazer de flexionar no feminino ou no plural.

2) Ter/terem - "O texto usado na aula de História dizia que os revoltosos informaram não ter recebido documento algum do Palácio. Professor, não era para ser terem recebido? O verbo deixou de concordar com o sujeito e eu não fui informado?"

Resposta - Numa língua, há regras (atenção: o que segue é uma metáfora!) municipais, estaduais e federais, isto é, regras de diferente hierarquia. O tempo e o uso podem introduzir alterações em todas elas, porque tudo muda, inclusive o Universo, mas é claro que o processo será mais rápido e mais fácil numa leizinha municipal do que numa lei federal. Uma regra ortográfica, por exemplo, pode ser alterada com algumas reuniões de entendidos, alguns chopes e a promulgação de um decreto (assim foi o Acordo de 1943, depois de muitas reuniões na Academia e intervalos no famoso Bar Amarelinho, na Cinelândia). A correta conjugação de um verbo, por outro lado, só vai se alterar com décadas de experimentação por parte dos usuários - como é o caso hoje da 3ª pessoa de adequar, que divide os falantes entre /adéqua/ e /adeqúa/ (fico com esta última).

Agora, a concordância do verbo com o seu sujeito é muito mais do que federal: é constitucional. Levaria séculos para que ela fosse alterada pelo próprio plebiscito do uso; não existe, portanto, a hipótese dela ter sido abolida sem que você tivesse notado... Verbos continuam concordando com o seu sujeito, mas não é disso que se trata aqui. Temos aqui uma locução verbal, um conjunto de dois ou três verbos em que o da extrema direita funcionam como o principal e o outro (ou outros) funcionam como auxiliares. Só o auxiliar mais à esquerda vai flexionar, enquanto o principal deve ficar imóvel, gozando dos frutos do trabalho do outro. Por isso, o correto é "os revoltosos informaram não ter recebido", "eu informei não ter recebido", "tu informaste não ter recebido", "nós informamos não ter recebido" e assim por diante. Eu sei que um verbinho assim dando sopa nos deixa em estado de alerta (como o verbo sempre faz) e ficamos com medo de estar esquecendo a concordância, mas ela não é necessária. Viu só? Ficamos com medo de estar, e não de *estarmos esquecendo.

CLÁUDIO MORENO

28 DE OUTUBRO DE 2020
MÁRIO CORSO

O causo da égua do diabo 

Os gaúchos apreciam seus cavalos e nunca os imaginam de forma negativa ou perigosa. Encontrei uma exceção que é pouco conhecida. Ouvi duas vezes esse causo de galpão quando criança e nunca mais.

Como sempre, foi um conhecido do narrador que ouviu de um primo, que ouviu de não sei quem, e que teve palco não se sabe bem onde. Mas seria a mais pura e verdadeira verdade.

De qualquer forma, teria acontecido depois de uma missa de domingo. O cenário era um povoadinho desses onde todos se conhecem. Na ocasião estava a comunidade reunida na frente da praça, mostrando suas melhores roupas e sorrisos uns ao outros. Quando, de repente, se assoma uma égua solita.

Numa das versões era toda cinza, na outra toda branca, em ambas um animal belíssimo. Todos se perguntam a quem pertenceria. Ela, sem medo, vai se aproximando lentamente das pessoas. Está sem sela, mas com a brida. Deixa se tocar por quem quiser acariciar seu sedoso pelo de animal bem tratado.

Nas duas versões, um guri, atrevido e confiante de suas habilidades de ginete, arrisca saltar e montá-la em pelo. A égua aceita. Parece contente como se adotada. Ela primeiro dá um rodopio e engata um passo altivo e elegante como se quisesse desfilar.

Era coisa linda de se ver. Mas quem reparasse bem veria uma sombra de preocupação no rosto do guri. O animal parecia dócil, mas não aceitava fácil o comando. Nisso o passo virou trote. De inopino se transforma em galope, e a dupla dispara varando o campo em uma velocidade assombrosa, quando já é perigoso saltar.

Assustado, o povaréu demora a reagir. Não entende o que está acontecendo. Pensa que o animal cansará e o guri vai trazê-lo de volta. Um peão chama a atenção para as marcas na terra batida da rua e afirma que o animal não era ferrado. A descoberta aumenta o mistério.

Finalmente farejam que era coisa ruim e resolvem seguir a dupla. Montaram e saíram às ganhas em busca do guri. Porém, cai a noite e os amigos e a família voltam de mão vazias. O nada de onde essa égua surgiu engoliu um rapaz que nunca mais foi visto.

Não lembro se um dos narradores chamou a história de "a égua do diabo" ou foi uma interpretação adicional dele ao causo. Se um leitor souber, que me diga.

Não precisa muito tutano para perceber um significado. Essas comunidades pequenas não criam oportunidades para todos. Veem cotidianamente partir uma infinidade de seus jovens. Geralmente os mais audazes vão aventurar-se nas promessas da cidade grande. Muitos deles nunca mais voltam para os campos da infância. Morrem para os olhos que os viram crescer.

Talvez o elemento feminino esteja presente como o casamento que o fará fincar suas raízes em outro pago. Ou também como parte dos mistérios da feminilidade, sempre vista como indômita, matreira e perigosa.

MÁRIO CORSO

terça-feira, 27 de outubro de 2020


27 DE OUTUBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

O homem que precisa ser mimado 

Mozart passou a vida pedindo dinheiro emprestado. Era um gênio para a música, e um tolo para as finanças. Estava sempre endividado, por mais sucesso que sua obra fizesse. Houve um tempo em que se apaixonou por uma donzela alemã, propôs-lhe casamento e ela recusou. Preferia um homem que lhe desse segurança.

Fico pensando: se essa moça soubesse em quem Mozart se tornaria, teria recusado o pedido?

Há outros gênios desajeitados rejeitados por mulheres práticas: os filósofos Spinoza, Kant e Nietzsche foram, definitivamente, infelizes no amor. A respeito de Nietzsche, cevo a tese de que enlouqueceu por ter sido rechaçado pela belíssima Lou Salomé, que, além de desprezá-lo, preferiu ficar com um amigo dele, Paul Ree.

Schopenhauer também tinha sérios problemas com as mulheres. Só escrevia e falava mal delas. Quem conhece sua história sabe por que: por causa da mãe. A mãe de Schopenhauer rivalizava intelectualmente com o filho. Uma vez, eles discutiram com tamanha aspereza que ela o empurrou escada abaixo, quase matando-o. Depois disso, Schopenhauer nunca mais falou com ela.

Mas não queria discorrer a propósito da relação dos gênios com as mulheres. Queria, isso sim, demonstrar que muitas mulheres não suportam se relacionar com gênios porque eles são homens complicados.

De onde vem essa complicação? Da própria natureza da genialidade. Uma pessoa só é criativa se guarda, dentro dela, a criança que foi. Pessoas absolutamente maduras quase nunca serão criativas. A pessoa criativa brinca. Ela gosta de imaginar e sonhar, como qualquer criança saudável. Mas, às vezes, ela é manhosa, birrenta e exigente. Como qualquer criança mimada.

Pegue, por exemplo, um time de futebol. O zagueiro não pode ser criativo. Ao contrário, ele tem de ser um homem convencional. Ele é responsável, ele é reto, ele é trabalhador, ele não ri. O zagueiro não brinca. O zagueiro é o cara que se casa com as mulheres que rejeitaram Mozart, Spinoza, Kant e Nietzsche.

Já o centroavante é o contrário. O centroavante é o gênio irresponsável, que faz o que ninguém faria, porque ele brinca em campo. Ele é uma criança.

Então, é normal que o centroavante, vez em quando, seja esquisito e tenha personalidade meio enviesada, como Romário, como Ronaldo, como Reinaldo. Ele pode. Porque, com sua criatividade infantil, ele compensa.

Nos últimos tempos, o Brasil não conseguiu mais revelar um único centroavante diferenciado. Porque o futebol brasileiro se tornou sisudo, se tornou sério. Tornou-se, o futebol brasileiro, uma estufa de zagueiros, de volantes, de goleiros. Uma estufa de homens casadoiros.

Mas agora surgiu Pedro.

Esse Pedro não é um jogador comum. Ele tem velocidade, força, habilidade, ele sabe finalizar, sabe segurar a bola de forma que ninguém tire dele, ele sabe fazer parede como nenhum mestre de obras saberia. Pedro é o melhor centroavante brasileiro. Fará história no futebol, se tiver uma qualidade: irresponsabilidade. Se Pedro for gaiato como uma criança, o mundo o mimará.

DAVID COIMBRA

27 DE OUTUBRO DE 2020
CARLOS GERBASE

Os perigos de pular o muro 

A ideia de que, no atual estágio da civilização, nossos maiores desafios só podem ser resolvidos através do diálogo entre diferentes áreas do conhecimento está bem estabelecida na academia. Há até uma área na Capes (órgão que apoia a educação de nível superior no Brasil) destinada a cursos interdisciplinares, em número crescente na última década. Os superespecialistas, que dominam em profundidade um conteúdo muito estrito, ainda são úteis, pois promovem os grandes avanços teóricos. Contudo, quando se trata de enfrentar, na prática, o aquecimento global, a desigualdade social ou o funcionamento psicológico dos seres humanos, é preciso cruzar as fronteiras entre as disciplinas. É necessário pular o muro e conversar com os vizinhos. Na hora do pulo, porém, é comum descobrir que nem sempre o vizinho te recebe de braços abertos. As castas de conhecimento ainda são fortíssimas, e elas não gostam muito de intrusos.

Não pensem que essa resistência funciona apenas na academia. Ela é forte também nas artes. Devido ao meu irremediável ecletismo intelectual - ou, você decide, à minha invencível dispersividade e falta de foco - já senti essa falta de hospitalidade inúmeras vezes. Na música: "Lá vem aquele cineasta que não sabe tocar um instrumento". No cinema: "Lá vem aquele professor que, como não sabe fazer filmes, ensina". Na literatura: "Lá vem aquele músico, professor e cineasta se meter a escrever um romance". Na academia: "Lá vem aquele artista dispersivo tentando enganar como pesquisador". Aqui na Zero Hora, se fosse questionado, poderia exibir orgulhosamente meu diploma de jornalista, mas, em mais de sete anos, isso nunca foi necessário. No fundo, essa é, oficialmente, a minha casta, o meu território original. Meu problema é que estou sempre pulando muros.

O biólogo Edward Wilson tem um livro consolador para mim, Consiliência: A Unidade do Conhecimento, em que defende a integração de todas as ciências - exatas, humanas e biológicas - com as artes. Wilson partiu de estudo superespecífico com formigas, ampliou sua pesquisa para outras espécies sociais, criando a Sociobiologia, e tentou pular o muro para discutir os mecanismos de funcionamento psicológico dos seres humanos com acadêmicos de áreas não biológicas. O tombo foi tão grande, ou a recepção dos vizinhos foi tão hostil, que a Sociobiologia teve que ser rebatizada e hoje se chama Psicologia Evolutiva. Fica a lição: se você quiser pular o muro, não espere de seu vizinho um convite para jantar.

CARLOS GERBASE

27 DE OUTUBRO DE 2020
ARTIGOS

SUPLÊNCIA, PARENTESCO E DISTORÇÕES

Advogado e professor de Direito Eleitoral | aamsadv@gmail.com

A diplomação do suplente habilita-o à investidura no cargo de senador. Contudo, no Brasil, desde a sua origem, diversos são os questionamentos que incidem sobre a suplência senatorial. A objeção mais substancial invocada pelos adversários da atual forma de recrutamento dos substitutos ou sucessores diz quanto ao nepotismo. E com razão. A análise das composições do Senado Federal nas últimas décadas delata o parentesco se revezando nas vagas. O tema retornou com o licenciamento do senador Chico Rodrigues, cujo reserva imediato é um filho.

Dentro desse cenário de interesses cruzados, além dos episódios mais lembrados, no pleito de 1998, Jader Barbalho indicou para primeiro suplente seu pai. Em 2002, Francisco de Moraes, o Mão Santa, escalou a esposa. Os provisórios do senador Fernando Collor no seu primeiro mandato eram seus primos, sendo que ambos assumiram interinamente. Também exerceram mandato Otoniel Machado, irmão do senador Iris Rezende, Thelma Siqueira Campos, irmã do senador Eduardo, João Thomé Mestrinho, filho de Gilberto Mestrinho, João Tenório sucedeu o cunhado Teotônio Vilella Filho, Reditário Cassol substituiu o filho Ivo e Geovani Borges ao irmão Gilvan. Já Eduardo Braga, enquanto ministro, teve o posto ocupado pela esposa. Ciro Nogueira escolheu a mãe como substituta, ao passo que Davi Alcolumbre optou pelo irmão.

Registro peculiar e bem engendrado, embora discreto, disse com o caso dos irmãos alagoanos Alcides e Djalma Falcão. Entre julho e outubro de 1998, na condição de suplentes, ambos assumiram as vagas dos titulares Guilherme Palmeira e Renan Calheiros que haviam se licenciado.

Impende destacar que os argumentos suscitados para justificar a opção pela parentela, a par de feudais e inconvincentes, convergem basicamente para o critério de confiança de natureza absoluta que os titulares depositam nos escolhidos. Porém, o familismo é uma prática que insulta a suplência e deprecia o Senado Federal. Basta. É necessário rever o seu formato. Esse saturou. Faliu. Amesquinhou-se. Tornou-se danoso, por vezes letal. As distorções e casuísmos que estabelece, ferindo ostensivamente os princípios da impessoalidade e da moralidade pública, são intoleráveis no século 21. Inová-lo é um imperativo inadiável, senhores senadores. 

ANTÔNIO AUGUSTO MAYER DOS SANTOS

27 DE OUTUBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

A INOVAÇÃO COMO CAMINHO 

Períodos desafiadores também formam um ambiente que incentiva e valoriza a busca por soluções inovadoras. E é com o contexto de incertezas e dificuldades extremas atravessado pelo país e pelo mundo, em plena pandemia, que as startups brasileiras vêm sobressaindo e fazendo 2020 ser, apesar de todos os obstáculos, o melhor ano para o setor no mercado nacional. Reportagem publicada ontem no jornal O Estado de S.Paulo mostrou que, entre janeiro e setembro, foi batido o recorde de aquisições de empresas e os aportes nessas companhias de grande potencial de crescimento, cerca de US$ 2,2 bilhões, também têm boas chances de superar o valor observado em 2019.

Foi perceptível desde as primeiras semanas da crise sanitária do coronavírus que a escalada da digitalização da economia, que já caminhava rapidamente, aceleraria ainda mais seus passos. Ao mesmo tempo, havia capital disponível no mundo para apostar em empresas jovens que nascem baseadas em uma ideia disruptiva e um interesse crescente também entre grandes grupos, dispostos a adquirir potenciais unicórnios nacionais.

O movimento de valorização das startups tende a se manter firme e forte, convertendo-se em uma enorme oportunidade para inúmeros empreendedores do Rio Grande do Sul, Estado que dispõe de universidades, incubadoras e centros de pesquisa e desenvolvimento que reúnem plenas condições de oferecer um ambiente capaz da catapultar empresas de tecnologia promissoras.

A Associação Gaúcha de Startups contabiliza mais de 700 empresas do gênero em operação no Estado, que envolvem mais de 5 mil empreendedores, um ecossistema que é formado ainda por mais de cem companhias que se relacionam de algum forma com essas iniciativas florescentes, contribuindo para seu desenvolvimento. Mas potencial não basta. É preciso cada vez mais simplificar procedimentos e desburocratizar trâmites, criando um ambiente de negócios amigável para que prosperem. Assim, será possível que a mensagem positiva da qual são portadoras, em meio a tantas dúvidas sobre o reerguimento do país no pós-pandemia, irradie otimismo.

Existem boas iniciativas em curso. Há um mês foi criado pela Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia do Estado o programa Startup Lab, voltado a capacitação, fomento, conexão e exposição. O StartupRS, do Sebrae-RS, em cinco anos contabiliza 350 ideias apoiadas. Há ainda o Pacto Alegre, com o envolvimento de instituições de ensino, governo, capital privado e sociedade civil, que pode ser replicado em outras regiões. São ações essenciais para estimular esse empreendedorismo transformador. Se capital humano há de sobra, é preciso saber aproveitar o talento dos jovens inquietos para que levem adiante seus projetos sem precisar migrar do Rio Grande do Sul e, desta forma, possam ajudar a inserir o Estado de forma protagonista nesta era da economia baseada no conhecimento, na inovação e na tecnologia. A valorização de startups tende a se manter firme e forte, convertendo-se em oportunidade para empreendedores do Rio Grande do Sul


27 DE OUTUBRO DE 2020
NÍLSON SOUZA

Eleitor facultativo

Pela primeira vez desde que me tornei eleitor, poderei fazer nas próximas eleições uma escolha que deveria ser estendida a todos os brasileiros: votar ou não votar. Respeito os argumentos dos defensores do voto obrigatório, entre os quais o de ter contribuído na formação da consciência cívica da população e o de impedir que partidos mais organizados, com maior número de militantes, perpetuem-se no poder. Mas prefiro o voto facultativo porque acho que o ato individual de participar da escolha de representantes políticos tem que ser muito mais um direito democrático do que um dever imposto por sanções.

Não pensem, porém, que sou um negacionista do voto. Pelo contrário, acho que as pessoas devem ter o direito de não votar, mas também a consciência para votar. Na sociedade da informação, ninguém mais pode alegar ignorância para se omitir. Atualmente, até mesmo o analfabeto político de Brecht sabe que alguém vai escolher por ele e que acabará pagando mais caro pelo feijão, pelo peixe, pela farinha, pelo aluguel e pelo remédio se essa escolha for equivocada. Ainda assim, se o sujeito quiser correr esse risco por preguiça, descrédito ou revolta, que fique em casa no dia do pleito sem medo de punição.

Votar não é garantia de nada, sabemos disso, principalmente quando todos ainda estamos impactados pelos casos recentes do senador que escondeu dinheiro ilícito você sabe onde e da deputada que mandou executar o marido. Esses parlamentares foram eleitos pelo voto livre (e, paradoxalmente, obrigatório) de seus eleitores. Claro que o voto facultativo não é antídoto para safadezas desse tipo, mas a educação para a cidadania certamente é. Pessoas com boa formação moral e intelectual até podem se enganar nas suas escolhas, mas ficam melhor instrumentadas para acertar.

Talvez ainda estejamos distantes desse eleitor modelar, capaz de só ir à urna quando estiver convicto de que seus candidatos trabalharão efetivamente pelo país e pela sociedade. Mas usar o voto como uma aposta lotérica ou inutilizá-lo me parecem alternativas piores.

Na minha estreia como eleitor facultativo, por conta do inexorável feitiço do tempo, espero ter motivos suficientes para votar.

NÍLSON SOUZA

segunda-feira, 26 de outubro de 2020


26 DE OUTUBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

O perigoso guapuruvu da 24 de Outubro 

Gostaria de saber mais sobre os guapuruvus. Miseravelmente, não sei. Sou um homem inçado de defeitos. Um deles, esse: pouco sei sobre guapuruvus. Na verdade, não sabia nada, até ler em GZH uma notícia a respeito de um indivíduo em especial, que se ergue na elegante Avenida 24 de Outubro, na Capital de Todos os Gaúchos.

Esse guapuruvu, os homens querem matá-lo. Seu erro foi ter-se plantado em um condomínio onde vivem seres humanos, que estão incomodados com sua presença e sua atividade.

Em defesa do guapuruvu, apresso-me a esclarecer que, quando ele nasceu, o condomínio provavelmente não existia, porque, segundo a reportagem, ele, guapuruvu, tem 50 anos de idade. Então, em algum dia de 1970, alguém se ajoelhou no chão de terra fofa da 24 de Outubro, cavou um buraco e disse: "Vou plantar aqui um guapuruvu, e ele vai embelezar a vizinhança e alegrar toda a gente".

Foi o que esse homem fez, e deu certo, porque o guapuruvu vingou e cresceu. Para bem imaginar como foi o meio século de vida desse guapuruvu, sabe o que fiz? Fui ao Google. Lá aprendi que o guapuruvu pode atingir 30 metros de altura e que suas flores são "grandes, vistosas e amarelas. O tronco é elegante, majestoso, reto, alto e cilíndrico. A casca, quase lisa, de cor cinzenta muito característica. Floresce principalmente durante os meses de outubro, novembro e dezembro".

Fiquei encantado com a descrição. Tive vontade de sair à rua e ver guapuruvus, que, a esta hora, estão em flor.

O que de tão terrível essa árvore teria feito para que as pessoas a sentenciassem à pena de morte? A matéria de GZH explicava: em um dia de vento, o guapuruvu não teve força suficiente para segurar um de seus galhos, que se desprendeu, caiu sobre um carro e lhe amassou a lataria.

De fato, há de se ter cuidado com os carros. Um carro bem lavado, reluzente e sem danos é coisa bonita de se ver. Mas há tantos deles enfeitando a 24 de Outubro, será que não poderiam compartilhar espaço com um único guapuruvu cinquentenário?

Os homens decidiram que não. O guapuruvu é muito perigoso, deve morrer. Contrataram uma empresa especializada nesse tipo de serviço, e a empresa vem executando o guapuruvu aos poucos. Faz cinco semanas que o mutilam. Vi, no jornal, a foto do condenado. É uma imagem triste. Arrancaram-lhe todas as flores, os galhos foram amputados, restam só tocos. O tronco ainda é elegante, majestoso, reto, alto e cilíndrico, mas assim aleijado não expressa a dignidade tranquila de todas as árvores; expressa desespero.

Alguns moradores da redondeza estão tentando salvar o guapuruvu, mas encontram poderosa oposição. As pessoas que moram perto da árvore sentem medo dela, e pessoas com medo são perigosas.

Realmente, guapuruvus às vezes podem ser traiçoeiros, ninguém sabe quando um pé de vento os fará atacar outra vez. Mas será que os homens não podem dar um jeito de conviver com eles sem conflitos? Porque eles também podem ser a casa dos passarinhos e suas flores amarelas podem alimentar as abelhas. Suas copas frondosas podem dar sombra fresca e trazer alguma amenidade para a dureza do asfalto da avenida. E ele nem reclamará se, em seu tronco elegante e majestoso, algum apaixonado gravar a canivete o nome da amada. Ah, um guapuruvu pode se prestar a esses romantismos humanos, e os humanos podem ser românticos, podem amar outros humanos e os bichos e a natureza que os rodeia também. Os humanos, quando se esforçam bastante, acredite, os humanos podem ser até bons.

DAVID COIMBRA

26 DE OUTUBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

O DESAFIO DO DESENVOLVIMENTO 

O mosaico de métricas do Índice de Desenvolvimento Estadual - Rio Grande do Sul (iRS), estudo que ao longo dos últimos sete anos faz um retrato dinâmico da evolução da qualidade de vida dos gaúchos, mostra em sua última edição desafios persistentes e avanços que permitem comemoração. No cotejo com as demais unidades da federação, o Estado permanece na sexta posição no ranking geral. Não é exatamente um posto que possa ser motivo de orgulho, mas ao menos o Rio Grande do Sul não perdeu mais colocações, como ocorreu nos últimos dois anos. Indicador socioeconômico, o iRS analisa as dimensões padrão de vida, educação e, juntas, segurança e longevidade.

A iniciativa é fruto de uma parceria entre Zero Hora e PUCRS. Hoje, a partir das 19h30, no canal do YouTube da universidade, o Fórum iRS analisa os principais resultados divulgados na semana passada compostos pelos dados de 2018, o ano mais recente com todas informações analisadas disponíveis e que dão sequência ao trabalho que vem mostrando as transformações em aspectos que interferem no bem-estar e são condicionantes para o desenvolvimento.

A grande fragilidade do Estado está na educação e, sem dúvida, é a área que deve merecer a principal atenção de gestores públicos e da sociedade para que seja possível uma reversão neste quadro preocupante. A qualidade do ensino é base para o progresso de qualquer território. O nível de aprendizagem de crianças e jovens está diretamente vinculado ao futuro, seja ele de prosperidade, estagnação ou decadência. E o Rio Grande do Sul perdeu duas posições no recorte da educação e agora amarga um constrangedor 16º lugar, abaixo da média nacional. Sem corrigir os rumos nesta dimensão, eleva-se o risco de os gaúchos ficarem para trás na maratona do desenvolvimento.

O lado positivo aparece em segurança e longevidade, especialmente pela queda dos homicídios em 2018, após um ano de 2017 marcado pela violência extremada gerada em grande parte por disputas entre facções. Ao mesmo tempo, políticas de segurança foram revistas no Estado, e acertos mantidos, mesmo com a troca de governo. A melhora neste indicador, principalmente, fez o Estado subir uma posição no ranking nacional e se estabelecer na quinta colocação. Como os números de assassinatos seguiram caindo em 2019, e a tendência está mantida até agora em 2020, o Rio Grande do Sul pode ostentar um posto ainda melhor nas próximas edições do iRS nesta dimensão. Fica ao menos a percepção de que a direção seguida está correta.

O grande divisor de águas para o destino do Rio Grande do Sul, portanto, passa necessariamente por uma evolução no ensino, principal tema do Fórum iRS de hoje. Se os obstáculos na educação já eram imensos, se tornaram ainda mais desafiadores com a pandemia. A volta às aulas nas escolas públicas do Estado, na semana passada, não pode ser considerada um bom começo. O próprio Piratini ressaltou ter planejado por meses a retomada, mas a falta de EPIs e de produtos de limpeza prometidos nas escolas revela falhas no processo. O receio justificado dos pais de enviarem os filhos para as aulas presenciais e a resistência corporativa ao regresso à sala de aula complementam o panorama de um reinício frustrado. Recolocar a educação nos trilhos será uma tarefa árdua, mas inadiável. 


26 DE OUTUBRO DE 2020
PORTO ALEGRE

Protestos impedem corte de árvore no bairro Independência 

O corte de um guapuruvu motivou novos protestos de moradores do bairro Independência, ontem, em Porto Alegre. Ação coordenada por ativistas da causa ambiental e moradores da região impediu novamente a ação de funcionários de uma empresa contratada pela prefeitura. Após a operação ter sido frustrada na tarde de sábado, os trabalhadores retornaram ontem e foram novamente interpelados por moradores da região. O impasse foi resolvido pela Brigada Militar, e o corte, adiado de novo.

Os manifestantes pedem mais tempo e nova avaliação técnica. Eles contestam o laudo apresentado pela empresa sobre as condições que permitiriam a ação de corte. Para o professor de botânica e coordenador do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (Ingá), Paulo Brack, que acompanha os moradores, o documento apresentado "é precário" e a árvore apresenta "bom estado".

- Consideramos que a árvore, 60% dela, está em condições de continuar. Queremos que a prefeitura dê mais tempo - afirma.

Laudo

Brack assina um parecer elaborado pelo grupo que avalia as condições de saúde do guapuruvu. A árvore tem 26m de altura e 1m30cm de diâmetro. Conforme o documento, o vegetal não apresenta sinais significativos de apodrecimento, apesar de uma cicatriz de um galho que caiu, o que poderia ter sido submetido a procedimentos de remoção de tecidos necrosados. A queda do galho mencionada no parecer foi a motivação para o pedido de corte. A árvore fica em um canteiro de um condomínio na Rua 24 de Outubro.

Conforme o laudo técnico realizado por uma bióloga contratada pelo condomínio, a queda do galho ocorreu em novembro de 2019, numa noite sem vento ou chuva, deixando uma lesão aberta que serviu de porta de entrada para micro-organismos decompositores, que enfraquecerão a estrutura de sustentação da planta. Por risco em potencial, a necessidade de supressão foi atestada.

Em nota enviada a Zero Hora, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Sustentabilidade afirma que a autorização para a supressão do guapuruvu, assim como de qualquer outra árvore, apenas é concedida após análise técnica habilitada. A pasta também informa que há previsão do plantio de seis mudas nativas, sendo uma no local, para compensação do corte da árvore.

BRUNO TEIXEIRA