Eu tive um relacionamento em que toda vez que um cavalo relinchava na televisão, o cara dizia: "Olha lá, tá te chamando". Ele fazia isso me comparando ao cavalo, já que sou pavio curto e minhas respostas soavam-lhe como "patadas". Quando víamos em algum lugar pendurado aqueles esqueletos usados em escolas, ele perguntava, sempre com um sorrisinho: "Jaqueline?"- fazia isso por eu ser magra. Quando eu lhe explicava algo que ele tivesse falado ou escrito errado, corrigia uma informação que ele tivesse passado pra alguém, ele desdenhava: "Claro, mestrada e doutorada, sabe-tudo!", mas nunca me agradecia. Sempre com tom de deboche, de forma pejorativa e, de preferência, na frente de outras pessoas.
Por muito tempo achei isso "normal". Achava babaquice, mas só. Chamava isso de intimidade, costume, "coisa de casal", assim como aqueles que fazem concurso de peido com direito a levantadinha de perna e preparar-apontar-fogo. Um nojo. Eu não me dava conta de que aquele pequeno grande mal-estar que eu sentia, futuramente, me causaria danos emocionais maiores. Que aquilo era tão nocivo pra minha alma, que feriria minha autoestima de uma tal maneira que eu levaria um ano mais ou menos pra desintoxicar de toda aquela situação. Não tinha graça. E doía.
Um dia vi uma moça dizer que pediu ao marido que jogasse uma camiseta fora, já que estava velha demais e ela não gostaria de vê-lo usando novamente, e que fossem comprar camisetas novas. A resposta dele foi a seguinte: "Assim como minha mulher, que também já está na hora de trocar". Ela fingiu que não se importou, mas ficou magoada e ressentida, óbvio. E calou. E guardou. Afinal, que besteira brigar por isso, não é mesmo?
Uma amiga minha, que é linda, jovem, bem-humorada, bem-sucedida profissionalmente, namorava um homem de situação econômica e de escolaridade bem inferior à dela. Ela tinha profissionais trabalhando na casa dela, pois sempre trabalhou fora, e ele a manipulava e oprimia tanto, que ela saída de sua casa para lavar o chão de onde ele trabalhava, nos fundos da casa dele. Ele dizia que o cargo profissional dela não era de seu tamanho. Que ela não merecia estar ali, ou sair dali para algo melhor. Que ele era tudo o de melhor que ela poderia encontrar e que ninguém mais iria querer uma mulher "daquela". Que ele era tudo que ela tinha, e ela não conseguiria ninguém "melhor que ele". E ela ficava.
Tem aqueles que podam e envergonham a mulher em público. Dizem coisas do tipo "o que fulano vai pensar de você, te ouvindo falar assim?". É como se ele estivesse tratando com sua filha de cinco anos e pior, ela ainda fica apreensiva pelo sabão que vai levar quando entrar em casa: "Que absurdo você querer bancar a engraçadinha na casa do meu irmão! Se queria me fazer passar vexame, saiba que conseguiu!". A única coisa que passa pela sua cabeça é toda situação humilhante que ele te faz passar enquanto ri e se acha o Stand Up Family da mesa de domingo. Às suas custas. Em cima do seu sorriso amarelo e farto. Em meio a olhares disfarçados, sem contar os satisfeitos.
Esse tipo de opressão disfarçada de bom humor, mata, definha. Não tem graça pra ninguém. Você leu direito: ninguém. Nem pra ele. Na verdade, ele não acha graça nenhuma das próprias piadas, eles as faz pra desmerecer, por se sentir ameaçado de alguma forma por você. Ele zomba de tuas qualidades, teus sonhos e teus maiores talentos, pode reparar. O que você faz de melhor, é onde ele mais pisa. Teu maior charme, é o que ele mais desdenha. Onde mais te dói, é onde ele mais manipula e ataca.
Todas as mulheres que citei no texto reagiram. Todas elas cansaram de ser sugadas por estes vampiros emocionais, de serem oprimidas. Elas entenderam que piadas relativas à sua inteligência, personalidade, condição financeira, idade, não tinham graça nenhuma. Que elas não precisavam ser servidas em mesas recheadas de ego e falta de empatia. Que dizer "não", não era loucura. Taparam os ouvidos, abriram a porta e foram. Descalças mesmo. Seguindo. Sorrindo. Sem olhar para trás e achando a maior graça, só que dessa vez, por estarem livres, por serem delas. Rebeldes, desobedientes e sem freios. Inteiras.

Eu tive um relacionamento em que toda vez que um cavalo relinchava na televisão, o cara dizia: "Olha lá, tá te chamando". Ele fazia isso me comparando ao cavalo, já que sou pavio curto e minhas respostas soavam-lhe como "patadas". Quando víamos em algum lugar pendurado aqueles esqueletos usados em escolas, ele perguntava, sempre com um sorrisinho: "Jaqueline?"- fazia isso por eu ser magra. Quando eu lhe explicava algo que ele tivesse falado ou escrito errado, corrigia uma informação que ele tivesse passado pra alguém, ele desdenhava: "Claro, mestrada e doutorada, sabe-tudo!", mas nunca me agradecia. Sempre com tom de deboche, de forma pejorativa e, de preferência, na frente de outras pessoas.
Por muito tempo achei isso "normal". Achava babaquice, mas só. Chamava isso de intimidade, costume, "coisa de casal", assim como aqueles que fazem concurso de peido com direito a levantadinha de perna e preparar-apontar-fogo. Um nojo. Eu não me dava conta de que aquele pequeno grande mal-estar que eu sentia, futuramente, me causaria danos emocionais maiores. Que aquilo era tão nocivo pra minha alma, que feriria minha autoestima de uma tal maneira que eu levaria um ano mais ou menos pra desintoxicar de toda aquela situação. Não tinha graça. E doía.
Um dia vi uma moça dizer que pediu ao marido que jogasse uma camiseta fora, já que estava velha demais e ela não gostaria de vê-lo usando novamente, e que fossem comprar camisetas novas. A resposta dele foi a seguinte: "Assim como minha mulher, que também já está na hora de trocar". Ela fingiu que não se importou, mas ficou magoada e ressentida, óbvio. E calou. E guardou. Afinal, que besteira brigar por isso, não é mesmo?
Uma amiga minha, que é linda, jovem, bem-humorada, bem-sucedida profissionalmente, namorava um homem de situação econômica e de escolaridade bem inferior à dela. Ela tinha profissionais trabalhando na casa dela, pois sempre trabalhou fora, e ele a manipulava e oprimia tanto, que ela saída de sua casa para lavar o chão de onde ele trabalhava, nos fundos da casa dele. Ele dizia que o cargo profissional dela não era de seu tamanho. Que ela não merecia estar ali, ou sair dali para algo melhor. Que ele era tudo o de melhor que ela poderia encontrar e que ninguém mais iria querer uma mulher "daquela". Que ele era tudo que ela tinha, e ela não conseguiria ninguém "melhor que ele". E ela ficava.
Tem aqueles que podam e envergonham a mulher em público. Dizem coisas do tipo "o que fulano vai pensar de você, te ouvindo falar assim?". É como se ele estivesse tratando com sua filha de cinco anos e pior, ela ainda fica apreensiva pelo sabão que vai levar quando entrar em casa: "Que absurdo você querer bancar a engraçadinha na casa do meu irmão! Se queria me fazer passar vexame, saiba que conseguiu!". A única coisa que passa pela sua cabeça é toda situação humilhante que ele te faz passar enquanto ri e se acha o Stand Up Family da mesa de domingo. Às suas custas. Em cima do seu sorriso amarelo e farto. Em meio a olhares disfarçados, sem contar os satisfeitos.
Esse tipo de opressão disfarçada de bom humor, mata, definha. Não tem graça pra ninguém. Você leu direito: ninguém. Nem pra ele. Na verdade, ele não acha graça nenhuma das próprias piadas, eles as faz pra desmerecer, por se sentir ameaçado de alguma forma por você. Ele zomba de tuas qualidades, teus sonhos e teus maiores talentos, pode reparar. O que você faz de melhor, é onde ele mais pisa. Teu maior charme, é o que ele mais desdenha. Onde mais te dói, é onde ele mais manipula e ataca.
Todas as mulheres que citei no texto reagiram. Todas elas cansaram de ser sugadas por estes vampiros emocionais, de serem oprimidas. Elas entenderam que piadas relativas à sua inteligência, personalidade, condição financeira, idade, não tinham graça nenhuma. Que elas não precisavam ser servidas em mesas recheadas de ego e falta de empatia. Que dizer "não", não era loucura. Taparam os ouvidos, abriram a porta e foram. Descalças mesmo. Seguindo. Sorrindo. Sem olhar para trás e achando a maior graça, só que dessa vez, por estarem livres, por serem delas. Rebeldes, desobedientes e sem freios. Inteiras.