
No dia em que nasci meu pai disse para minha mãe que eu era muito feia. Ele não foi gentil com ela e isso me serve de argumento contra desconfortos causados pela minha presença: já cheguei desagradando, você queria o quê?
Sou o tipo de pessoa que é amada e/ou odiada na mesma proporção. Há algum tempo isso era um problema para mim, eu não sabia lidar com sentimentos negativos (meus e dos outros). Eu ainda não tinha entendido que o mundo não era um conto de fadas. As pessoas não eram o que eu idealizava. Elas eram o que eu fingia que não via.
Foi-se o tempo em que eu tinha crises de identidade. O "por que eu?", a culpa e a velha mania de enxergar o mundo muito maior que eu. Foi-se o tempo em que eu assumia posturas insignificantes pra não ameaçar ninguém, pra não ser notada e evitar desgastes. Foi-se o tempo de ter pressa, de sentimento de rejeição, de dúvidas. Já me acostumei a viver de ponta-cabeça, a nadar contra a maré.
Chega um dia na vida que não dá mais pra viver batendo o pezinho mimado; existem coisas mais importantes por aí que o nosso umbigo. Depois que comecei a cortar gastos emocionais, meu saldo com o paz tem estado no azul sempre. Por aqui não tem essa de culpa faz tempo. São poucos anos, que tem feito uma grande diferença.
A cada dia tenho aprendido a ser mais minha. Cada tombo, cada porrada no lombo, cada baque na alma, só tem me feito aproximar mais do que eu acredito. Tenho aprendido a me poupar, a me preservar. Deixei de ser plateia, de fazer parte de joguinhos. Sabe como é, tem coisas que não tem graça sem a gente.
Chegar ao mundo desagradando tem suas vantagens. A gente vai logo avisando: "É o que tem pra hoje, nem tenta!" - e isso serve pra nós mesmos também. A gente se desobriga de se cobrar tanto, afinal, somos da turma dos sem jeito. Eu me encontrei o dia em que entendi que estava sozinha. Eu precisava me proteger (inclusive de mim mesma).
Já parei de brigar comigo faz tempo. Fui minha maior decepção. Não mudei nadinha. Nem pretendo.