EU TE CHAMEI AQUI
Eu te chamei aqui porque
queria te falar sobre grandeza. Mesmo mal te conhecendo, sofria de uma urgência
de falar sobre o quanto eu aprendi nesses anos, o tanto que eu carreguei de
bagagem, como alguém que volta de uma viagem cansada, mas ainda tem força pra
mostrar as fotos. Eu te chamei, disfarçando essa inocência com algum
conhecimento adquirido ao longo do tempo. E ostentando um resquício de
orgulho,exibi meus valores, princípios e tudo aquilo que me fazia pensar ser uma
mulher muito vivida.
E você respondeu com silêncio. Um silêncio de alguém que escuta, atento, a uma informação que na verdade poderia continuar não dita, mas sabe-se lá o por quê, naquele dia era algo que te importava. Dedicado em interpretar cada palavra, gesto e tom de voz, você me deixou falar. Quando ninguém mais no mundo me ouvia.
Me fiz vítima,
entregue, cansada. E você, outra vez, respondeu com silêncio. Esse
silêncio confortável, um que existe enquanto a minha cabeça encosta no seu
ombro. Um silêncio que cuida, faz o tempo passar, diz mais do que qualquer
conversa de regeneração. Preocupado em fazer o resto do caminho valer à pena,
você colocou um abraço ao meu redor, e eu voltei a pedalar em segurança. Quando
já achava que nem tinha porquê seguir.
Eu te fiz ficar porque
queria falar sobre alegria.
Queria te contar do quanto ainda me admirava descobrir algo tão doce, quando
todos os doces já me pareciam amargos. Eu quis te falar do sol que eu vejo mesmo
quando fica nublado, do tanto que o meu peito se aquece mesmo nesses dias de
inverno. Quis avisar do quanto o tempo me surpreende, de como o contraste da
vida aumentou, do quanto cinco dedos entrelaçados aos meus fizeram tudo ser
possível.
E aí fui eu que calei.
