quinta-feira, 22 de março de 2012




Das ironias do destino
Paulo Coelho

A morte como madrinha

UM CARVOEIRO, APAVORADO PELA idéia de morrer, resolveu convidar a morte para madrinha do filho. Assim ela não me leva, pois terá que cuidar de meu filho, pensava o carvoeiro.

Realmente ele viveu muitos anos, mas um dia a Morte precisou buscá-lo.Para não pegá-lo de surpresa, avisou sua visita com antecipação; assim o carvoeiro podia tomar as providências que precisava. O homem ficou apavorado e, no dia marcado, disfarçou-se de mendigo e foi para a rua.  

A morte chegou.

Meu marido não está em casa, disse a mulher do carvoeiro. Ainda bem! Vou levar aquele pobre mendigo ali na rua, e Deus não vai reclamar.
E o carvoeiro foi carregado pela morte.

A bênção que não é notada

Um leão encontrou um grupo de gatos conversando. Vou devorá-los, pensou. Mas começou a se sentir estranhamente calmo. E resolveu sentar-se com eles, para prestar atenção na conversa. Meu bom Deus, disse um dos gatos. Oramos a tarde inteira! Pedimos que chovessem ratos do céu!

E, até agora, nada aconteceu! disse outro. Será que o Senhor não existe? O céu permaneceu mudo. E os gatos perderam a fé. O leão se levantou e seguiu seu caminho, pensando: Veja como são coisas. Eu ia matar estes animais, mas Deus me impediu.

Mesmo assim, eles pararam de acreditar nas graças divinas. Estavam tão preocupados com o que estava faltando que nem repararam na proteção que receberam.

O fim que levou o corpo

Por que você está triste?, disse um santo para o outro, enquanto caminhavam no Paraíso. Porque durante a minha vida na Terra fiz tudo para evitar os prazeres da carne; dediquei-me exclusivamente ao espírito.

E isto me obrigou a castigar meu corpo com os piores suplícios. Eu o flagelei durante muitas noites, para evitar as tentações. Eu o alimentava mal. Eu tratava meu corpo com todo o desprezo possível. Mas foi por isso que você virou santo.

Justamente. Mas o que aconteceu com o meu corpo, que foi sempre tão desprezado por mim? Os homens o embalsamaram, construiram uma capela ao seu redor, e passam o tempo todo venerando minhas relíquias.

A força e a sabedoria

R. Barros conta que, a cada ano, a cidade se reunia para um concurso. Quem cortasse mais troncos durante 15 horas levava o prêmio. O mestre lenhador sempre ganhava. Um dia, um rapaz resolveu desafiá-lo. Confiando em sua juventude e disposição, apostou muito dinheiro em si mesmo. O concurso começou. A cada hora, o mestre sentava-se um pouco.

Ele já perdeu a vitalidade, pensava o rapaz, enquanto trabalhava sem parar. No final, foi feita a contagem: e o mestre ganhou. Não é possível!, disse o rapaz para o mestre. Como pode ter ganho, se eu vi o senhor parar muitas vezes para descansar? Eu não estava descansando, respondeu o mestre. Eu parava para afiar o machado.