
'Não gosto do negro só porque ele
é...'
Não
basta ser X para que se goste de X, o que seria óbvio, mas não é quando imperam
o preconceito e a patrulha
CALMA,
CARO leitor! Calma! Calma, sobretudo se você for dos embotados pelo intragável
"politicamente correto". O título desta coluna está no início da
belíssima canção "A Pessoa", do paulistano Celso Viáfora. Diz a
letra: "Não gosto do negro só porque ele é negro / Gosto de Maria do
Rosário e de Diego / (...) Não gosto do novo só porque ele é novo / Eu como
granola como como pão com ovo / Não gosto do velho só porque ele é velho / Tô
tanto na Net quanto procuro no Aurélio...".
Celso
me disse que, nos seus shows, começa a canção com a primeira frase e para (eta
vontade de lascar um agudo nessa forma verbal, estuprada pela insana reforma
ortográfica). A reação do público é heterogênea: alguns, talvez já conhecedores
da canção, entendem a provocação; outros fazem caras e bocas...
O
fato é que a frase em si, descontextualizada, é ambígua. A "culpa"
dessa ambiguidade é do advérbio "só", cuja posição permite mesmo duas
leituras. Já sabe quais são, não? Vamos lá: duma das leituras se depreende que
o emissor não gosta do negro, e a razão desse não gostar é simples (e
preconceituosa): o negro é negro. Da outra leitura se depreende que não basta a
um ser humano ser negro para que o emissor da frase goste dele.
Aliás,
como se viu pelos outros trechos que transcrevi, a letra da canção de Celso
Viáfora vai toda nesse tom: não basta ser X para que se goste de X, o que,
teoricamente, é o óbvio, mas deixa de sê-lo quando imperam o preconceito e a
patrulha, ou seja, a burrice. Sim, porque achar que se deve gostar de X só
porque X é X é agir ou pensar burra e hiperpreconceituosamente.
Não
pense o caro leitor que essa patrulha boboca é "privilégio" dos
tempos hodiernos, nascida com o "politicamente correto". Ela vem
desde sempre. Lembro que nos meus tempos de universidade era proibido gostar de
Olavo Bilac, por exemplo, "um fascista" e outras bobagens que a
caterva vociferava. Para confirmar que alguém era "legal" e abrir-lhe
o trânsito, bastava dizer que o dito-cujo era "de esquerda". Tudo e
todos eram assim, rotulados, pré-rotulados. Na verdade, ainda são (e, pelo
jeito, sê-lo-ão até sabe Deus quando).
Corajosa,
essa canção de Celso (que faz parte do belíssimo DVD "Batuque de
Tudo") põe o dedo numa ferida ainda exposta, mal curada, mal resolvida. Na
canção "Que Nem a Gente", do mesmo DVD, Celso continua no tema:
"Parente não é tudo nepotista / Compositor não é tudo ruim da ideia / A
bomba da Coreia / não é tudo mais que a bomba do Ocidente / Todo mundo é meio
assim que nem a gente: / tudo igual mas muito diferente". Muito bom...
O
leitor habitual deste espaço certamente notou que este texto continua a
conversa iniciada na semana passada. Minha intenção é a de sempre: instigar o
leitor/aluno a pensar, a refletir, a entender o que lê, sem julgamentos
prévios.
Em
muitos casos, o conhecimento da língua pode ser fundamental para afastar
interpretações funestas ou ao menos contemplar a possibilidade de outra
interpretação. É nesse caso que se insere a frase que abre a letra da canção de
Celso. O uso de palavras como "só", "somente",
"também", já abordado aqui diversas vezes, volta e meia é tema de
questões de importantes vestibulares. Devagar com o andor, pois.
Em
tempo: o primoroso DVD de Celso Viáfora é daqueles que se veem/ouvem de
joelhos, com o encarte e um lenço nas mãos. Algumas das canções são comoventes
-"Quando Vi Meu Pai Chorar", por exemplo, dói na alma, no coração e
na mente. Evoé, Viáfora! É isso.
inculta@uol.com.br
