Claudia
Antunes
Condenar e gostar sem
refletir
RIO
DE JANEIRO - A comunicação eletrônica acelerou nas pessoas o ímpeto de
expressar opinião instantânea sobre tudo. Parece démodé dizer isso, mas a
rapidez do veículo não justifica a frequência com que se publicam manifestações
irrefletidas.
Nesta
semana, blogueiros e participantes de redes sociais se apressaram em condenar o
filho de Eike Batista pelo atropelamento e a morte de Wanderson Pereira dos
Santos, um ciclista pobre. Exibiram a mesma sofreguidão com que Eike correu
para fazer da vítima o culpado.
É
possível que Thor dirigisse em velocidade acima do permitido ou que trafegasse
pelo acostamento, mas pressionar por uma investigação isenta é a atitude justa
no caso. Citados na internet, os fatos de que ele seja filho de um bilionário
amigo do governador, de nunca ter lido um livro, de acumular multas ou de usar
um carro de R$ 3 milhões -ou mesmo de que exista um automóvel tão caro- não
bastam para provar culpa no episódio específico.
Outro
caso é a propagação do documentário de uma ONG americana sobre o senhor da
guerra Joseph Kony, de Uganda, processado pelo Tribunal Penal Internacional por
crimes como sequestro e tortura de crianças. O vídeo bateu o recorde de 100
milhões de acessos em seis dias.
Ativistas
de direitos humanos africanos, sem obter o mesmo alcance, criticaram a peça por
ignorar os meandros do conflito, desconhecer a ação de grupos locais para
erradicá-lo e promover a velha e infeliz tese do homem branco civilizado que
chega para salvar os primitivos.
A
internet ampliou as vozes na esfera pública, o que é muito positivo. Mas
produz, às vezes, uma falsa e autocongratulatória consciência de ação política
efetiva.
Quando um só rico simboliza a luta de classes e um só criminoso personifica a complexidade de uma guerra, surge a ilusão de que é simples fazer justiça, sem que nada mude de verdade.
Quando um só rico simboliza a luta de classes e um só criminoso personifica a complexidade de uma guerra, surge a ilusão de que é simples fazer justiça, sem que nada mude de verdade.
