
22
de março de 2012 | N° 17016
L.
F. VERISSIMO
Territórios
livres
Imagine que você é o Galileu e está sendo
processado pela Santa Inquisição por defender a ideia herética de que é a Terra
que gira em torno do Sol e não o contrário.
Ao
mesmo tempo, você está tendo problemas de família, filhos ilegítimos que
infernizam a sua vida, e dívidas, que acabam levando você a outro tribunal, ao
qual você comparece até com uma certa alegria.
No
tribunal civil, será você contra credores ou filhos ingratos, não você contra a
Igreja e seus dogmas pétreos. Você receberá uma multa ou uma reprimenda, ou
talvez, com um bom advogado, até consiga derrotar seus acusadores, o que é
impensável quando quem acusa é a Igreja.
Se
tiver que ser preso, será por pouco tempo, e a ameaça de ir para a fogueira nem
será cogitada. No tribunal laico, pelo menos por um tempo, você estará livre do
poder da Igreja. É com esta sensação de alívio, de estar num espaço neutro onde
sua defesa será ouvida e talvez até prevaleça, que você entra no tribunal. E
então você vê um enorme crucifixo na parede atrás do juiz.
Não
adianta, suspiraria você, desanimado, se fosse Galileu. O poder dela está por
toda a parte. Por onde você andar, estará no território da Igreja. Por onde seu
pensamento andar, estará sob escrutínio da Igreja. Não há espaços neutros.
Um crucifixo na parede não é um objeto de
decoração, é uma declaração. Na parede de espaços públicos de um país em que a
separação de Igreja e Estado está explícita na Constituição, é uma
desobediência, mitigada pelo hábito. Na parede dos espaços jurídicos deste
país, onde a neutralidade, mesmo que não exista, deve ao menos ser presumida, é
um contrassenso – como seria qualquer outro símbolo religioso pendurado.
É inimaginável que um Galileu moderno se
sinta acuado pela simples visão do símbolo cristão na parede atrás do juiz,
mesmo porque a Igreja demorou mas aceitou a teoria heliocêntrica de Copérnico e
ninguém mais é queimado por heresia. Mas a questão não é esta, a questão é o
nosso hipotético e escaldado Galileu poder encontrar, de preferência no Poder
Judiciário, um território livre de qualquer religião, ou lembrança de religião.
Fala-se que a discussão sobre crucifixos em
lugares públicos ameaça a liberdade de religião. É o contrário, o que no fundo
se discute é como ser religioso sem impor sua religião aos outros, ou como
preservar a liberdade de quem não acredita na prepotência religiosa.
Com
o crescimento político das igrejas neopentecostais, esta preocupação com a
capacidade de discordar de valores atrasados impostos pelos religiosos a toda a
sociedade, como nas questões do aborto e dos preservativos, tornou-se
primordial. A retirada dos crucifixos das paredes também é uma declaração. No
caso, de liberdade.