
22
de março de 2012 | N° 17016
PAULO
SANT’ANA
Dinheiro é sempre
suspeito
Ninguém consegue ser feliz. Nem o
empresário Eike Batista, o brasileiro mais rico do mundo, que possui patrimônio
de vários bilhões de dólares.
Agora, a vida de Eike foi assombrada porque
seu filho, Thor Batista, atropelou e matou um ciclista em importante avenida do
Rio de Janeiro.
Thor tem um prontuário, como motorista,
preocupante: recebeu 11 multas em 18 meses, sete delas por excesso de
velocidade.
Não se sabe se Thor mais uma vez estava incorrendo
em excesso de velocidade quando atropelou e matou o ciclista na última noite de
sábado.
Não se sabe porque o poder de Eike fez
derrubar alguns de seus fluidos sobre a imprensa, nos dias imediatos ao
acidente: no noticiário, só aparecia a versão de Eike sobre o fato, declarando
que o ciclista foi imprudente, causou sua própria morte e quase causou a morte
de seu filho e de um amigo que estava também no carro.
Ou seja, nos jornais e na televisão, só
apareceram nos dois primeiros dias versões favoráveis ao filho do bilionário.
Eu, por exemplo, não li nenhum depoimento de qualquer testemunha do acidente.
Mas o que eu queria dizer é outra coisa:
como a vida de um bilionário se transtorna e o aflige com um acidente desse
tipo, a vida parece não escolher a quem castiga com o cutelo que provoca a
infelicidade.
Tinha tudo para ser feliz, o maior
bilionário da América do Sul. E de repente, sem nenhuma culpa, sem ter movido
uma palha para ser atingido pela desgraça, seu filho atropela e mata um
ciclista no Rio de Janeiro. E desaba sobre a família um manto de aflição.
Se eu tivesse a fortuna que tem o
bilionário Eike Batista, não permitiria que meu filho dirigisse em perímetro
urbano ou em estradas.
Eu contrataria três exímios motoristas para
levar meu filho a todas as partes. E, se quisesse meu filho usufruir do prazer
de dirigir uma Mercedes SLR, a marca do carro que matou o ciclista, eu alugaria
um autódromo para meu filho pilotar. Só para não dar chance ao azar.
Além disso, se assim eu não fizesse, quando
soubesse que meu filho foi multado no trânsito por 11 vezes em 18 meses, sete
das multas por excesso de velocidade, confiscaria o carro dele e por alguma
forma me esforçaria para que ele parasse de dirigir.
Mas, isso, se fosse eu. Mas não sou eu, é
Eike Batista. E é seu filho, que acaba de derrubar um pesadelo sobre sua
família com esse acidente.
Qualquer desgraça em que se envolva uma
família bilionária forçosamente terá mais repercussão na imprensa do que a
tragédia que se abata sobre um pobre.
Ainda mais se for acidente de trânsito com
morte. Sempre haverá quem diga em muitos lugares que a fortuna de quem
sobreviveu ao acidente achará alguma forma torta de desvencilhá-lo de qualquer
responsabilidade.
Anteontem, eu mesmo ouvi um dos principais
apresentadores de notícias da televisão brasileira insinuar em seu programa que
a fortuna de Eike Batista já começara a surtir efeito suavizador sobre o
noticiário de uma emissora concorrente (à do apresentador).
Certamente, por cautela, Eike Batista não
dirige mais carros desde que ficou bilionário.
Só esqueceu de proibir seu filho de manejar
o volante.