quarta-feira, 5 de julho de 2017



05 de julho de 2017 | N° 18889
ARTIGO

A VIOLÊNCIA E OS VAZIOS

Uma mente vazia, diz o ditado, é a oficina do diabo. Os vazios na cidade, de certo modo, também o são. Façamos um teste perguntando-nos se nos sentimos melhores numa cidade em que, a cada cem metros, deparamos com uma patrulha de policiais militares ou numa cidade que tem praças ocupadas por crianças em brinquedos, pessoas em bancos nas calçadas, caminhantes em diferentes velocidades. 

A visão de um homem fardado e armado nunca será mais tranquilizadora para a mente saudável do que a visão de pessoas em interação, de uma fila que se forma na bilheteria de um cinema de calçada, um banco ocupado para conversas de vizinhos, bicicletas sendo estacionadas por seus ocupantes, crianças jogando, uma festa de rua, um pai e uma filha chegando em casa de patins. Nada disso é caro, nada disso demanda mais do que a soma de vontades.

Uma rua vazia é perigosa. Facilita a instalação da violência. Vazios urbanos geram insegurança e são um desperdício dos recursos comuns da sociedade, que, como sabemos, são limitados e finitos.

A mente vazia também é perigosa. Facilmente se deixa levar por ideias de senso comum e tem dificuldade em fazer relações. A mente vazia se preocupa com o que é legal, mas as sutilezas da moralidade lhe escapam. Essa mente consegue distinguir as fronteiras da lei, como por exemplo, a tomada de uma propriedade por alguém que não a comprou no cartório, mas não expressa indignação com o auxílio- moradia que recebem certas castas magistrais. A propósito, o termo auxílio, nesse caso, deve ser um tipo de ironia.

Um prédio vazio também representa insegurança de diferentes tipos, a começar pela insegurança jurídica pelo não cumprimento da função social da propriedade. Recentemente, parte considerável da cidadania porto-alegrense, ao fazer fila para doar aos Lanceiros Negros, grupo de famílias despejadas durante a noite de uma ocupação em prédio no centro de Porto Alegre, enviou uma clara mensagem: contra o medo, a insegurança e o vazio mental, aposta na ocupação.

*Doutora em Educação – UFRGS - nazareth.agra@gmail.com